Opinião de Filipa Rodrigues.
A respeito das recentes implosões no novo ME no tópico dos exames senti, como mãe e professora, a necessidade de fazer um exercício de memória sobre as mudanças na Escola desde a introdução dos exames no 4º ano pela coligação PSD/CDS sem, no entanto, pretender divagar acerca de questões político-partidárias.
Nos últimos anos em que estive (felizmente) colocada, tomei parte de mudanças mais ou menos subtis em diversas escolas: a par da evidente discordância e tensão docente face a reestruturações curriculares duvidosas a favor das designadas “disciplinas nucleares” em detrimento das áreas
das Expressões, ou a despromoção horária da disciplina de História e Geografia de Portugal, entre outras opções questionáveis da tutela tomadas sobretudo com um único critério – o economicista, ocorreram progressos significativos a vários níveis.
Com a introdução da avaliação externa no 4º e 6º ano, os pais (a maior parte muito resignadamente) envolveu-se mais no percurso escolar dos filhos logo desde o 1º ciclo, acompanhando-os na realização dos trabalhos de casa e tentando perceber mais precocemente quais as suas dificuldades a nível académico. Mas, contrapondo este efeito positivo, muitos efeitos negativos (demasiados) se associaram, indicando aos agentes educativos que não existiam vantagens evidentes dos exames no 1º ciclo.
Nos ciclos seguintes assistimos a uma certa normalização dum regime de treino intensivo em anos finais de ciclo, com vista a performances competitivas entre agrupamentos, e posterior posicionamento nos rankings escolares (com base nos resultados dos exames). Resultados: mais investimento financeiro das famílias em manuais de preparação para exames, centros de estudo e explicações a várias disciplinas … estava descoberto o novo ópio da educação, e com ele novas oportunidades de negócio (ou negócio oportunista!) nesta área.
Em contemporâneo, presenciou-se quase diariamente na Escola (mesmo nos meios menos escolarizados), uma afluência amplificada de encarregados de educação para discutir com diretores de turma e equipas de técnicos, aspetos relativos ao percurso escolar dos educandos, intervindo de um modo quase exemplar nos seus percursos académicos após décadas de uma displicência parental que vinha crescendo e transformando as escolas em meros depósitos de alunos. Ausências parentais que deixaram muitas crianças e adolescentes em regime de autogestão escolar, e com as quais a própria Escola (pela sua inércia) condescendeu, não se podendo assim eximir das suas responsabilidades.
Penso, sem pretender generalizar, que a introdução dos exames promoveu dinâmicas favoráveis a uma maior participação entre parceiros educativos (Escola-Família) mas não só: professores dos vários níveis de ensino procuraram mais formação contínua em pós-graduações, mestrados e doutoramentos. Em áreas (problemáticas) como o ensino da matemática, por exemplo, foram desde há 6 anos, alvo de programas de formação contínua organizados pela tutela.
Assim, e apesar da crise económica nacional, do congelamento dos escalões/progressão da carreira, os professores têm investido mais na sua atualização e conhecimento científico. Uma percentagem, porém, abandonou a profissão e temos hoje menos alunos é certo, mas professores mais sobrecarregados com turmas demasiado numerosas.
Apesar de todas as contingências do sistema de ensino de um país pequeno que se debateu com problemas financeiros graves, houve uma variável que mudou mentalidades e comportamentos nas comunidades educativas: a ponderação para efeitos de aprovação e progressão de uma nota de exame nas disciplinas de português e matemática. A avaliação externa dos alunos trouxe mais mudanças à sala de aula do que qualquer avaliação do desempenho docente, e com elas consequências ao nível da qualidade do ensino e do empenho no estudo dos próprios alunos.
Claro que o desgaste, o stress ou a ansiedade não são propiciadores de um bom clima de aprendizagem, mas vi mais destes sintomas nos colegas de profissão do que nos alunos, e desde 2013 foram progressivamente diminuindo (uma questão de ritmo e de habituação?!).
O que questiono agora é: a variável dos testes de aferição será suficiente para manter os níveis de participação e corresponsabilização das famílias (catalisados pelas dificuldades inerentes à realização dos exames) e manter a exigência e compromisso com o rigor e qualidade docente, agora que a avaliação externa só voltará a ter peso na avaliação final no 9º ano?
Ou será que o nível de consciencialização para a importância das aprendizagens escolares dos nossos filhos/alunos terá o seu efeito prolongado no tempo, mesmo sem a pressão deste amedrontador bicho-papão?
FR