O comunicado do JNE/EduQA de 27 de junho merece ser lido com atenção. Não pelo que diz, nas pelo que faz.
Em oito pontos cuidadosamente redigidos, a entidade responsável pelo colapso digital dos exames nacionais consegue não assumir uma única responsabilidade. Em vez disso, distribui culpas! Primeiro pelos professores, agora pelas direções das escolas.
Os pontos 5, 6 e 7 são inequívocos: “compete às escolas indicar as condições específicas de cada docente”, “é ainda responsabilidade das escolas comunicar outras situações relevantes”, “a qualidade da informação prestada pelas escolas é determinante”.
Ou seja, se foram convocados professores aposentados, professores de disciplinas erradas, professores de escolas onde já não lecionam há anos, e até uma professora já falecida, a culpa é das direções que não atualizaram as listas.
É uma argumentação que ignora deliberadamente o óbvio. O sistema ENES funcionou durante anos sem estes problemas. A variável que mudou não foi o processo de indicação de professores pelas escolas, essa manteve-se igual. O que mudou foi a centralização do processo! Onde antes havia três agrupamentos de exame a gerir uma região como Lisboa, há agora um, sobrecarregado, a implementar pela primeira vez, em larga escala, uma plataforma digital que colapsou logo no primeiro dia.
As direções das escolas e os secretariados de exames estão neste momento com equipas a trabalhar 12 a 14 horas por dia a tentar salvar o que pode ser salvo. Usá-las como bode expiatório, por decisões tomadas acima delas, sem elas, e contra elas, não é apenas injusto. É uma demonstração clara de quem, neste sistema, paga sempre a fatura pelos erros de quem decide.
Escrevo isto como diretor. Não posso ler este comunicado em silêncio. O trabalhão que as escolas têm tido nestes dias, a tentar que o barco não afunde, a responder a situações que não criaran, a gerir o que outros decidiram sem nos consultar. E é precisamente por isso que me recuso a aceitar que nos seja apontado o dedo. Não somos o problema. Somos os que ficaram a tentar resolver o problema dos outros.
O comunicado termina com a palavra “serenidade”.
Que ninguém seja sereno.
Alberto Veronesi
@destacar




2 comentários
Arlindo, se não falares na TV de nada adianta…
Tudo morre por aqui
Os professores classificadores são,anualmente, designados pelo diretor.
Nem sempre são destacados para classificadores os docentes que efetivamente estão a lecionar o 12º ano.
Porquê? Porque têm outros serviços? O serviço de classificação não se sobrepõe a qualquer outro?
Aliás alguns nunca são designados para este serviço enquanto outros são-no todos os anos.
Este ano em algumas das disciplinas foram designados docentes que nunca lecionaram determinada disciplina no secundário e até hoje nunca tinham sido designados.
Porquê? Aqui a culpa é de quem?