Crónica de quem quis entrar (outra vez) para a Universidade – João André Costa

 

No segundo ano depois da licenciatura não tive emprego. Dito assim parece uma frase pequena, uma frase capaz de caber entre a sopa e o prato de peixe, uma frase escutada e esquecida pela família entre duas colheradas, “a sopa está óptima”, diz o teu pai.
Mas não era uma frase, era uma sentença. Não ter emprego aos vinte e quatro anos é uma doença sem febre, uma espécie de vergonha connosco à mesa, connosco na cama e ainda ao nosso lado de manhã.
Os outros, os supostos amigos, perguntavam jocosamente:

“E então, já estás a dar aulas?”

E por detrás da pergunta outra pergunta, nem por isso proferida mas audível à mesma, e as verdadeiras perguntas não precisam de palavras:

“E então, serves para quê?”

Não é preciso responder.

Os meus colegas espalhavam-se pelo país. Uns tinham oito horas, outros dez, outros andavam de escola em escola, substituições aqui, horários incompletos acolá, e eu em casa, a ouvir o relógio da sala.
Um relógio antigo, herdado de uma tia a fazer tique-taque com a solenidade de um juiz.
A tia a fazer tique-taque, e não o relógio, entenda-se.

Cada segundo era um carimbo na minha inutilidade.

Não tinha dinheiro.

Não tinha trabalho.

Não tinha coragem para sair à rua.

A rua está cheia de pessoas a fazer qualquer coisa da vida. Pessoas com pastas, pessoas em carros, pessoas em autocarros, pessoas a falar de horários, de chefes, de ordenados, e eu sentado na cozinha, a olhar para as migalhas da mesa, como se as migalhas pudessem dar uma resposta.

As migalhas são surdas e mudas.

A ideia de sair do país aparecia cada vez mais vezes. França. Inglaterra. Luxemburgo. Os nomes dos países surgiam nas conversas como quem fala de ilhas diante de um náufrago. Mas partir sabia a derrota.

Amarga.

Ácida.

Exílio.

Expatriado.

Porque sim, porque és assim.

Então decidi candidatar-me a Enfermagem.

Não por vocação.

Queria um emprego, um salário ao fim do mês, uma razão para acordar, uma maneira de sair da cama sem esta sensação de estar a falhar em tudo.

Dois exames nacionais: Biologia e Psicologia.

E se sempre fui bom aluno, nada como estudar.

Para ter emprego não. Nunca fui suficientemente bom. A vida clarificou este ponto desde tenra idade.

Há pessoas capazes de entrar numa sala já com um fito em mente. Eu entrava numa sala e procurava uma secretária, um caderno, um livro. Sempre soube estudar. Sempre soube decorar, sublinhar, repetir, insistir. O resto parecia pertencer aos outros.

Comecei a estudar seis meses antes.

O método era sempre o mesmo: andar às voltas de uma mesa com a resma de papéis e apontamentos nas mãos enquanto decorava, pausadamente, uma página a seguir à outra.

Lia tudo uma vez, duas vezes, três vezes.

À quarta leitura começava a decorar passagens inteiras.

À quinta já visualizava as frases nas respectivas páginas.

À sexta identificava as palavras de acordo com as linhas.

À sétima, à oitava, à nona, os livros deixavam de ser livros e passavam a ser uma casa onde conhecia todos os corredores, todos os quartos, todos os esconderijos.

Biologia.

Psicologia.

Exercícios atrás de exercícios.

Manuais de testes.

Folhas sublinhadas.

Canetas sem tinta.

Cafés frios.

A luz da sala acesa até de madrugada.

E o meu pai a levantar-se para beber água e a encontrar-me ali, curvado sobre os apontamentos.

“Ainda estás acordado?”

Ainda.

Sempre ainda.

Porque só tinha uma oportunidade.

Se não entrasse em Enfermagem não tinha nada.

Nada.

Não uma hipótese.

Não um plano.

Não uma alternativa.

Nada.

A ansiedade começou a morar comigo. Se entrou devagarinho, pé-ante-pé, rapidamente ocupou a casa toda.
Acordava às cinco da manhã, à hora dos pássaros, e não conseguia voltar a dormir. Ouvia os melros, o primeiro autocarro, os passos de alguém no prédio, e sentia um aperto no peito.

Via as médias de entrada.

Dezasseis.

Dezassete.

Às vezes mais.

Quem não entrava em Medicina ia parar a Enfermagem.

E eu, sem sequer ousar sonhar com Medicina, sentia-me a disputar um lugar numa embarcação já cheia.

Voltei à minha antiga escola para inscrever-me nos exames.

As paredes eram as mesmas.

As vitrinas com as taças continuavam no corredor.

O cheiro a cera no chão permanecia intacto.

Mas eu já não pertencia ali.

Os professores mal me reconheceram.

Ou fizeram de conta não reconhecer, não dizer um olá, um aceno, um sorriso sequer.

Tinham aulas para dar.

Reuniões marcadas.

Testes para corrigir.

Alunos à espera.

E eu ninguém, um antigo aluno, demasiado magro para as calças, retornado anos depois com a vida em cacos.

Por onde andaste? E como chegaste a isto?

Despacharam-me depressa.

Corriam de um lado para o outro e eu seguia-os pelos corredores como quem pede esmola.

Fiquei sozinho.

Lembro-me dessa solidão.

Lembro-me de olhar para o pátio e pensar como a escola apenas nos quer enquanto estamos lá dentro.

E se dentro de uma escola temos um nome, fora dela somos uma estatística.

Minto: uma auxiliar voltou-se para mim e gritou: “Olha o Cientista!”

Chegou o dia do exame de Biologia.

Tomei seis Valdispert.

Nem assim consegui dormir.

Passei a noite acordado, de olhos abertos, a olhar para o tecto.

De manhã, no pátio, os miúdos olhavam para mim.

Um matulão de vinte e quatro anos, embora nem matulão fosse.

Franzino.

Imberbe.

Com a mesma cara de adolescente de quando tinha dezoito.

Sentia-me um intruso.

Um homem a fingir ainda ser aluno.

Nem por isso um homem. Os homens fazem-se na tropa, e eu nem o serviço militar cumpri.

Quando abriram os envelopes e distribuíram as provas tive a sensação de não saber nada.

As perguntas baralhadas.

As palavras a fugirem-me como pássaros com a gaiola aberta.

A cabeça esvaziou-se.

Saí convencido de ter falhado.

Completamente.

Redondamente.

Dias depois veio Psicologia.

Lembro-me de estar sentado diante do exame e de, a certa altura, começar a divagar sobre ópera.

Ópera.

Como se Verdi e Puccini tivessem alguma coisa a ver com Psicologia.

Mas têm tudo a ver com Psicologia.

E talvez a ansiedade seja isto: um maestro enlouquecido numa paródia de instrumentos e cacofonias enquanto agita muito os braços a pontos de voar.

E voar, voar.

Olha, foi-se…

Sai do exame igualmente derrotado.

Biologia 2.0.

Via-me já sem curso.

Sem emprego.

Sem futuro.

A caminhar pelas ruas da minha terra enquanto toda a gente diz:

“Ali vai ele.”

“O rapaz que falhou.”

“O rapaz que nem para dar aulas serve.”

O rapaz incapaz de ser enfermeiro.

E acima de tudo a opinião dos outros. Até quando?

Depois chegaram as notas.

Lembro-me de ver as pautas afixadas nas janelas. Do lado de lá os laboratórios de Biologia. Do lado de cá a minha vida, a sala do tribunal, o juiz, o júri, a sentença.

Dezanove vírgula sete a Biologia.

Dezanove vírgula quatro a Psicologia.

Olhei para aqueles números uma e outra vez só para ter a certeza não serem de outro aluno.

Não podiam ser meus.

Eu, saído dos exames convencido do desastre, tinha conseguido quase vinte valores.

Entrei em Enfermagem!

Uma porta fechou-se.

Uma janela abriu-se.

E compreendi, com um espanto quase infantil, como estudar nunca é um desperdício. O conhecimento é uma corda lançada para dentro do poço. Podemos não sair de imediato, mas decerto não vamos ao fundo.

Naquele ano deixei de ser professor.

Já não era, não podia, não merecia.

Tornei-me noutra coisa, “Olha, lá vai ele, o aluno de enfermagem”, pelo menos por uns anos, até finalmente arranjar coragem para ir embora.

Link permanente para este artigo: https://www.arlindovsky.net/2026/06/cronica-de-quem-quis-entrar-outra-vez-para-a-universidade-joao-andre-costa/

2 comentários

    • Teresa Florentino on 20 de Junho de 2026 at 7:57
    • Responder

    Excelente artigo dava por certo 19,5. Parabéns!

  1. ja ninguém tem paciência para estes textos longos.

Deixe um comentário

Your email address will not be published.

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

Discover more from Blog DeAr Lindo

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading