Vinculação Dinâmica: O maior embuste dos últimos 18 anos?

 

Já são conhecidos os resultados do Concurso de Vinculação Dinâmica…

A principal conclusão a extrair dos resultados agora divulgados talvez seja esta:

– Ficaram por ocupar mais de 2.600 vagas, o que permite qualificar o referido Concurso como um retumbante, e indisfarçável, fracasso para as pretensões do Ministério da Educação…

E bem poderá o Ministro perorar que “esta é a maior vinculação que temos dos últimos 18 anos” (conferência de imprensa, em 25 de Julho de 2023), que isso não apagará, nem disfarçará o facto de uma parte significativa das vagas do concurso de Vinculação Dinâmica ter ficado sem candidaturas…

O Ministro também afirmou que “deixam de estar com contratos precários 7.983 professores”: cerca de 2.400 docentes vinculados pela Norma Travão e cerca de 5.600 docentes pela Vinculação Dinâmica, sendo que “esta medida permite a saída da precariedade dos docentes e o reposicionamento em termos salariais”…

 

Daqui a um ano, veremos se “a maior vinculação dos últimos 18 anos” se transformará ou não no maior embuste dos últimos 18 anos:

– No Ano Lectivo de 2024/2025, os Docentes agora colocados pela Vinculação Dinâmica ver-se-ão obrigados a concorrer a nível nacional…

Isso significará que, em 2023/3024, muitos desses Professores poderão ficar colocados perto da sua área de residência, mas no ano seguinte não terão qualquer garantia de que o mesmo suceda, uma vez que serão obrigados a concorrer a todo o país, se pretenderem manter o vínculo que agora lhes foi concedido…

Isso também poderá significar que, em 2024/2025, o aumento salarial agora obtido por via da vinculação possa não ser suficiente para fazer face, por exemplo, a gastos com alojamento e deslocações, se a próxima colocação for num Agrupamento situado a dezenas ou a centenas de quilómetros da actual área de residência…

Por outras palavras, os Professores agora “vinculados dinamicamente” até poderão sair da precariedade, na medida em que deixam de ser Contratados, mas no ano seguinte poder-se-ão ver confrontados com despesas insuportáveis, aliadas ao desgaste físico e psicológico, decorrentes de ficarem colocados a dezenas ou centenas de quilómetros da área original de residência…

No limite, ter um vínculo laboral, mas não ter dinheiro para comida, talvez não seja a melhor das opções…

Com a manigância de obrigar os Professores a submeterem-se a um concurso a nível nacional em 2024/2025, em troca do vínculo concedido em 2023/2024, o Concurso de Vinculação Dinâmica parece encontrar-se suficientemente armadilhado para que, daqui a um ano, o preço a pagar pelo anterior se possa tornar absolutamente incomportável para muitos Docentes…

E no fim de vários meses de “luta aveludada”, quase sempre tolerante em relação à Tutela, foi aqui que se chegou:

– O Ministério da Educação continua a servir-se dos Professores, sempre da forma que melhor lhe convém, e os maiores Sindicatos vão assistindo à tirania, vendo vitórias, onde, na verdade, só existem derrotas…

Pelo Concurso de Vinculação Dinâmica, o Ministério da Educação, com laivos de crueldade, colocou, propositadamente, os Professores Contratados num dilema de difícil resolução e numa abominável incerteza relativa ao seu futuro profissional…

Tentar seduzir os Professores com vínculos laborais através de colocações, de certa forma, fictícias, válidas apenas por um ano e a extinguir no ano seguinte, obrigando, em 2024/2025, os recém vinculados a ocupar vagas em regiões do país para onde poucos pretenderiam concorrer, não pode deixar de ser considerada uma acção pautada pela ausência de boa-fé e de idoneidade…

No fundo, trata-se de um “veneno” em forma de “presente”, bem capaz de se poder tornar no maior embuste dos últimos 18 anos, aproveitando a expressão do próprio Ministro da Educação…

Obviamente que a recusa em aceitar este “presente envenenado”, expressa pelas 2.600 vagas que ficaram desertas de candidaturas, acabou por ser a resposta de muitos Professores ao ardiloso Concurso de Vinculação Dinâmica…

E ninguém os poderá censurar por isso…

O Presidente da República, à semelhança do que fez relativamente ao Diploma da “Aceleração da Carreira” dos Professores, deveria ter vetado também o da Vinculação Dinâmica…

Como não o fez, acabou por tornar-se cúmplice de mais uma ignomínia perpetrada pelo actual Governo…

Claro está que na Assembleia da República o Partido Socialista tem maioria absoluta e que isso, obviamente, significará a aprovação do que o Governo quiser, uma vez que neste “paraíso à beira-mar plantado” a mentalidade dos Partidos Políticos ainda não atingiu a maturidade necessária para conseguirem proceder de outra forma…

Mas um veto ainda é um veto e isso também ainda terá algum significado, pelo menos, em termos políticos…

A obstinação, a arrogância e a perversidade deste Ministério da Educação não irão, certamente, desaparecer por via de um veto presidencial, mas não deixa, o mesmo, de ser uma forma de oposição às intenções do Governo, podendo causar alguns engulhos e transtornos…

Espera-se que as piores expectativas, face à Vinculação Dinâmica, não se venham a concretizar, apesar de, no momento actual, ser difícil vislumbrar alguma réstia de optimismo…

(Paula Dias)

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15 comentários

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    • Ganda Marcelo on 27 de Julho de 2023 at 10:54
    • Responder

    Esta Paula Dias só vê o lado negro das coisas. É uma botabaixista de primeira apanha! Uma profeta da desgraça!
    A senhora queria que que o governo colocasse todos os professores à porta de casa e com isso deixar milhares de alunos sem direito à escolaridade??

    Támos parvos?!

      • Paula Dias on 27 de Julho de 2023 at 12:46
      • Responder

      Talvez Ariano Suassuna tivesse razão: “O optimista é um tolo. O pessimista é um chato. Bom mesmo é ser realista esperançoso”…

      No último parágrafo do texto afirmo isto:

      Espera-se que as piores expectativas, face à Vinculação Dinâmica, não se venham a concretizar, apesar de, no momento actual, ser difícil vislumbrar alguma réstia de optimismo…

      Talvez eu seja uma “realista esperançosa”…

      O confronto com a realidade nem sempre á fácil, mas não aceitar a realidade ainda será pior… Cada um que escolha onde se posiciona…

      Paula Dias

        • Luís Miguel Cravo on 27 de Julho de 2023 at 13:21
        • Responder

        Bela resposta, cara Paula!
        Os néscios, ao serviço do status quo ou “cheganos” de pacotilha, prova da “desgraça” de que o néscio que lhe responde invoca, abundam por aqui, prova factual da “desgraça” a que isto chegou. Para mais, escrevem em mau Português, para não variar. Com a digitalização futura, que os países europeus com maior qualidade de vida do mundo estão a extinguir, vamos ter néscios de melhor gabarito e vamos ainda rir melhor!
        Obrigado, Paula.

          • Ganda Marcelo on 27 de Julho de 2023 at 13:59

          Tão mas támos parvos outra vez?

          Queriam que os QZP 10, 9 e 7 ficassem sem professores só porque estes têm legítimas expectativas de ficar a lecionar da janela de casa para a escola?

          Andam a apregoar que querem o melhor para os alunos e que esta luta é também por eles, mas não se importam que fiquei sem professor desde que “eu” fique à porta de casa!

          Támos parvos, só pode!

        • Peter on 27 de Julho de 2023 at 15:00
        • Responder

        O problema são as generalizações… Para os contratados do sul com 3 ou 4 anos de serviço a VD foi a melhor coisa que lhes apareceu. Para os docentes do norte com graduações elevadas e que nunca arriscaram a NT e andaram sempre em temporárias nos últimos anos idem aspas!

        Para uma classe tão desigual as generalizações são de evitar!

        Pergunto à Paula, que solução JUSTA teria para vincular docentes contratados em tão grande número sem gerar ultrapassagens face aos docentes dos quadros que ainda não se conseguiram aproximar de casa e continuam a centenas de Kms de casa?

        Só vejo uma outra solução, que acho que seria a melhor e é a que vai ser utilizada a partir do próximo ano: Concurso Externo após Interno, anual, com as vagas sobrantes do concurso interno! Assim os contratados poderão apenas concorrer às zonas que queiram… Mas vão ser vagas maioritariamente (se não na sua totalidade) no sul do país!

      • Ganda António on 27 de Julho de 2023 at 16:23
      • Responder

      Ganda António

      Voltaste …!

    • Dark on 27 de Julho de 2023 at 11:09
    • Responder

    Não fala dos que vincularam pela Norma Travão e que foram obrigados a concorrer a todos os QZPs?!?!?!? Já não é cruel para quem vincula pela Norma Travão?!?!!

    Espero que os QUADROS se virem contra esta cambada de chico espertismo que “vinculou” pela dinâmica e acha que vai ficar perto de casa….
    Pela Norma Travão andámos muitos de nós, 10, 15, 20, 25 anos para vincular!!!!!!!!! E em escolas em Lisboa e no Algarve!!!!
    Cambada de oportunistas! Vão para longe como nós fomos!
    E os sindicatos caladinhos… Parece que estão do lado destes tipos….
    No dia em que o Ministério beneficiar os dinâmicos, ninguém mais vai para Lisboa ou Algarve! Não é preciso. Basta concorrer para perto de casa….
    Um vergonha!
    E que tal alguns que “vincularam” pela dinâmica pela lei das quotas de deficiência?!?! Mas de deficientes não têm nada…
    E que tal alguns dinâmicos terem ficado agora em QZPs no centro e no norte do país, quando estavam em escolas em Lisboa?! Não estava definido que eles tinham de ficar no QZP ou Agrupamento de escolas onde se encontravam este ano?!?!?!?!?
    Então, só os da Norma Travão, que é o concurso honesto e que respeita a lei da Função pública, é que tem de concorrer a nível nacional e vincular no sul do país? Mas que raio é isto???
    Espero que alguém do Ministério da Educação leia aqui os comentários….porque começa a existir muita revolta por parte de quem é verdadeiramente QZP e…até há mais anos…e vê estes “dinâmicos” a roubar vagas que seriam para os quadros!!!!!
    O ministro e o Ministério que vejam bem isto, ou…não terão professores a sul.

    1. É por este pensamento de guerrilha que a classe de professores nunca vai sair do marasmo em que se encontra. O problema está sempre no colega ao lado, seja ele contratado, vinculado, dinâmico ou o que for.

      Tudo é uma questão de escolha. As regras foram definidas e cada um analisou o que é melhor para si. Culpar quem “vinculou” de forma dinâmica é só atirar areia para os olhos e manter o clima de guerrilha nas escolas.
      Querem culpar, culpem quem vos representa na mesa de negociação. Aparentemente estão todos satisfeitos, porque o vosso amigo Mário Nogueira se mantém como líder, sei lá…20 anos?

      • maio on 27 de Julho de 2023 at 11:52
      • Responder

      Esqueceu-se de referir as renovações manhosas para renovação para conseguir a norma travão! Um VD não precisou do poder do senhor diretor.

        • maio on 27 de Julho de 2023 at 11:59
        • Responder

        Esqueceu-se de referir as renovações manhosas, para conseguir a norma travão! Um VD não precisou do poder do senhor diretor.

    • Manuela on 27 de Julho de 2023 at 11:22
    • Responder

    mas os próprios professores é que concorrem ao país todo para apanhar horários para a norma travão. eu concordo que o salário não chega para um professor deslocado, mas se todos os anos os próprios professores concorrem para longe de livre vontade, só demonstraram que é possível viver assim

      • Luís Miguel Cravo on 27 de Julho de 2023 at 13:24
      • Responder

      Muito bem! Numa constatação muito simples: são OS PROFESSORES que o fazem de livre e espontânea vontade.

        • Phill on 27 de Julho de 2023 at 16:36
        • Responder

        No caso da VD não será escolha dos professores, já que são obrigados a concorrer ao país todo. O problema não é sair de perto de casa, mas o Estado não pagar a deslocação, hospedagem, como faz com juízes e médicos.

    • Rodrigo Alberto on 27 de Julho de 2023 at 11:27
    • Responder

    Em todo o caso alguns dos danos causados por este numero politico já estão feitos, no próximo ano faremos o balanço final dos restantes danos potenciais desta medida.

  1. A vinculação dinâmica foi uma benção para muitos professores e os que não aproveitaram está oportunidade, talvez se venham a arrepender, porquanto poderão ficar no desemprego. Isto porque muitas destas vagas eram fictícias, não representavam um horário real, isto e completo, porque era o docente, se cumpridos os requisitos da VD gerava a vaga não a escola, ao contrário da norma travão. Ademais, só serão disponibilizados em 23/24, horários completos na CI/RR e depois de serem disponibilizados na MI aos QZPs incluindo os da VD. A ideia subjacente e muito simples acabar com a precariedade e com os contratados e a meu ver haverá um grande número de colegas que não optaram pela vinculação em situação de desemprego, porque as vagas eram muitas dela fictícias.
    Veremos se no futuro não haverá quem vai chorar o leite derramado

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