Há uma altura à Sexta-feira, ali pelas cinco e vinte, cinco e meia, na qual a escola muda de pele.
Não é uma mudança brusca, como quando uma tempestade sem aviso cai sobre os telhados de zinco do pavilhão gimnodesportivo, mas uma mudança silenciosa, subreptícia, para não dizer rastejante.
Primeiro desaparecem os alunos, aquele oceano de mochilas, de gargalhadas, de insultos gritados escada abaixo, de rapazes e raparigas a correr como se o mundo estiver para acabar de repente se num repente não chegarem todos e em primeiro ao portão.
Depois evaporam-se os pais, os pais indignados, sempre indignados e especialmente indignados se delegam nos outros, e quem diz nos outros diz nos professores, a responsabilidade de educar crianças sem culpa alguma de vir ao mundo.
A este mundo.
E a responsabilidade é sempre dos pais.
Minha não é, e tua também não.
Em primeiro lugar dos pais.
Os pais furiosos por causa de um teste, os pais furibundos por causa de uma falta disciplinar, de um sete vírgula oito quando devia ser oito (mas se ele não estudou e chumbou à mesma!…).
E, finalmente, esfumam-se os professores.
É curioso como fogem.
Durante a semana falam do cansaço como soldados numa trincheira. Falam e desabafam num ror sem fim sobre os miúdos e como os mesmos estão cada vez mais impossíveis.
Falam sobre a Direção a exigir relatórios atrás de relatórios mais os inspectores aparecidos do nada com aquelas pastas de couro para vender a morte a prestações.
E depois há aquela colega de História agora na menopausa e esquecida de tudo e de todos, a História incluída.
E quem diz menopausa diz andropausa e o professor de educação física barrigudo (os professores de educação física são todos barrigudos) maravilhado com a musculação aos cinquenta e nove anos enquanto aperta, estrafega e sufoca os mesmos cinquenta e nove anos em licra.
“Isto assim não é vida”, dizem os professores uns para os outros e para mim. Isto assim é preciso espairecer e um destes dias rebentamos.
Mas chega a Sexta-feira e é vê-los sair.
A velocidade na qual abandonam a escola faria inveja aos ratos do Titanic. Não olham para trás. Alguns despedem-se no corredor com aquela alegria de quem obteve liberdade condicional:
“Bom fim de semana.”
“Até segunda.”
“Descansa.”
Descansa.
Como se fosse possível.
E eu ali, de mochila às costas, a fingir arrumar papéis, a fingir ainda ter testes para corrigir, só para ver se alguém hesita, se alguém diz “vamos beber uma cerveja”, “vamos celebrar o fim da semana”, “vamos existir uns para os outros durante uma hora”.
Nada.
O silêncio cresce na escola como bolor nas paredes.
As luzes automáticas dos corredores apagam-se uma a uma atrás de mim. Clac. Clac. Clac. O eco dos meus sapatos acompanha-me naquele edifício vazio onde passei a maior parte da minha vida.
Conheço esta escola tão bem como o corpo.
O meu corpo.
Mas nem por isso a minha escola.
Sei onde o chão range. Sei quais as portas teimosas e casmurras, nem por isso para fechar, ao invés pontapear.
Conheço o cheiro das salas no Inverno, uma mistura de madeira inflada com a humidade dos casacos pendurados.
Sei como a sala dos professores, quando fica vazia, parece uma estação de comboios abandonada depois da guerra.
E penso: passámos anos juntos.
Anos.
Vimos alunos crescer, casar, ter filhos. Assistimos aos divórcios uns dos outros, a doenças, aos funerais dos pais, a ataques cardíacos na sala de aula, a crises de choro escondidas na arrecadação.
Partilhámos cafés, greves, reuniões infinitas, jantares de Natal com bacalhau seco e sonhos ainda mais secos.
E, contudo, chega o fim-de-semana e somos estranhos.
Talvez a culpa seja minha.
Por viver para a escola.
Os outros não. Os outros têm vida. Famílias. Jantares. Casas onde alguém pergunta como correu o dia. Têm cães à espera. Filhos. Netos. Maridos a ver concursos na televisão. Mulheres a dizer para não chegarem tarde.
Eu tenho a escola e nem a escola me quer à Sexta-feira.
Sobretudo no último dia de aulas antes das férias grandes.
Esse dia é o pior.
A alegria dos outros ofende-me. Os abraços rápidos no parque de estacionamento, os planos de areia infinita em praias infinitas, as viagens marcadas, o “até Setembro se Deus quiser”.
E eu ali, imóvel, a pensar como até me ofereci para pagar os copos. Nem assim. Nem uma cerveja morna bebida à pressa no café ao lado da bomba de gasolina.
Nada.
Fecham-se as portas.
O silêncio instala-se.
E eu acabo por pegar na mochila e ir para casa como se tivesse sido despedido sem saber bem porquê.
Depois entro em casa e os meus pais estão à minha espera no sofá.
“Ainda bem que chegaste.”
“Precisamos de ir às compras.”
“O teu pai já não conduz à noite.”
E vamos os três ao supermercado sob a iluminação brutal dos corredores, a empurrar um carrinho cheio de águas, detergentes e iogurtes em promoção, enquanto eu penso nas férias grandes já no fim e ainda mal começaram.
Passo diante das prateleiras da cerveja como quem passa à frente da vida.
Estou a passar à frente da vida.
E a minha mãe a conhecer-me de ginjeira, num raspanete ríspido a empurrar-me para longe, mais precisamente na direção dos iogurtes.
Estão em promoção, não sei se já vos disse.
“Olha que ficas mal disposto”, diz ela.
E eu, já mal disposto, obedeço mansamente.
Assim, não vale a pena chegar ao fim-de-semana, muito menos às férias.
O meu reino por uma cerveja. Não é pedir muito.
Ou talvez seja.



