22 de Abril de 2026 archive

Houve milhares que quiseram ser professores

O ministro da Educação, Ciência e Inovação (MECI), Fernando Alexandre, esteve reunido com os sindicatos de professores para discutir uma proposta da tutela que prevê a criação de um novo concurso nacional que está sempre aberto para ir dando resposta às necessidades diárias das escolas.

Existem “em Portugal, milhares de pessoas que querem ser professores, mas nós não tratamos bem essas pessoas”, afirmou Fernando Alexandre, dando como exemplo os jovens que, após terminarem o mestrado de ensino, têm de esperar quase um ano para começarem a dar aulas.

“Há muitos candidatos a professores que desistem de ser professores, precisamente porque demoram demasiado tempo a ser colocados numa escola”, disse o ministro em declarações aos jornalistas no final das reuniões sindicais no âmbito da revisão do Estatuto da Carreira Docente.

A proposta tenta resolver o problema dos alunos sem aulas e de atrair quem está pronto a dar aulas, já que “alguém que acaba o curso de mestrado de ensino pode, no dia a seguir, ir ao Ministério da Educação ver que oportunidades têm para dar aulas. E isto muda completamente”, disse.

Além destes jovens com mestrados em ensino, há “muitos milhares” com habilitação própria, a quem a tutela oferece a profissionalização: “Nós temos muitas pessoas que reúnem as condições para dar aulas de Português, para dar aulas de Inglês, Matemática, Física, mesmo não estando profissionalizados”, lembrou Fernando Alexandre.

A ideia é que este concurso nacional contínuo responda aos pedidos de necessidades temporárias, que “são milhares” e surgem durante o ano em escolas de todo o país, reconheceu o ministro, admitindo que se continua a “demorar demasiado tempo a colocar os professores” deixando os alunos “sem aulas durante muito tempo”.

O que convém que se diga também é isto.

Desde 2005 que consistente se destruiu a profissão docente. Sucessivos governos fizeram-no.

Se demorámos vinte anos a degradar a profissão, não será em dois ou três diplomas, ainda que bem-intencionados, que a vamos recuperar. Serão necessários, no mínimo, outros vinte anos de políticas consistentes, de valorização real e de respeito efetivo pela carreira para que o ensino volte a ser visto como uma escolha desejável e estável.

Até lá, convém abandonar a ilusão confortável de que existem “milhares” à espera de entrar.

Houve  milhares que quiseram ser professores. Houve gerações inteiras que escolheram a profissão por vocação, por compromisso cívico, por acreditar que ensinar era construir futuro. Mas esses milhares não são os mesmos que hoje o ministério invoca com aparente tranquilidade. Esses milhares foram, ao longo de duas décadas, submetidos a um processo sistemático de desgaste, desvalorização e, em muitos casos, humilhação profissional.

Foram empurrados para uma precariedade crónica, saltando de contrato em contrato, de escola em escola, de distrito em distrito, adiando vidas pessoais, adiando estabilidade, adiando tudo. Foram alvo de reformas sucessivas que lhes retiraram tempo de serviço, progressões, dignidade. Foram transformados em números,  curiosamente, antes de serem descartados como irrelevantes.

Existiram. Foram maltratados. Saíram. E não voltarão apenas porque agora o sistema decidiu, finalmente, funcionar um pouco melhor.

Porque a verdade,  essa que não cabe nos comunicados nem nos modelos de concurso, tem memória. E, sobretudo, tem consequências.

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Outro problema que a escola vai ter que resolver

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