23 de Abril de 2026 archive

Não falta competência. Há coragem para sair do automático… e haja paciência para aturar quem nunca construiu nada mas acha sempre que sabe como devia ser feito – Alfredo Leite

Criticam projetos porque “não se aprende”, mas os alunos estão verdadeiramente envolvidos. E o cérebro, quando está envolvido, aprender e deeenvolve competências.

Semana da cultura. Projetos. Atividades. Pensar, decidir, falhar, negociar, apresentar…

E há sempre os mesmos a dizer: “isso não é escola, é perda de tempo, só a matéria é que importa.”

A aprendizagem significativa acontece quando o cérebro liga emoção, ação e contexto. O conhecimento fixa-se quando é usado, não quando é decorado. Transferência de aprendizagem exige contexto real, não folhas repetidas até à exaustão…

O problema é que isto dá trabalho.

Planear, coordenar, gerir comportamento, ajustar no momento. É mais fácil mandar abrir o manual e depois criticar quem faz diferente.

E os adultos que ficam de fora? E os egos?

Os céticos são previsíveis: não organizam nada, mas têm sempre opinião sobre quem organiza.

E sim, estes projetos têm riscos.

Alunos pouco treinados para participar vão gerar conflitos, dispersão, momentos de caos. Claro que sim.

É precisamente aí que está a aprendizagem que nunca cabe numa ficha: autorregulação, comunicação, responsabilidade em tempo real.

Quem acha que isto é perda de tempo está, no fundo, a pedir uma escola silenciosa… e cognitivamente vazia, não é?

Há dias estive nA EBI Manuel da Maia e vi uma coisa que ainda parece incomodar algumas pessoas: alunos a trabalhar a sério… sem estarem sentados calados a copiar do quadro.

Vi adultos, docentes, diretores e parceiros a darem exemplo de dinamismo e até de vulnerabilidade. Que coragem!

Alguns vão pensar: “isso é giro, mas no exame ninguém avalia projetos”, “os miúdos precisam é de matéria”, “isso é brincar às escolinhas modernas”… a esses nem vale a pena responder, porque não estão interessados em crescer l, estão interessados em ter razão.

Agora, para quem está vivo: aprendizagem profunda exige envolvimento ativo, prática deliberada e contexto significativo.

Saber repetir não é saber usar.

E a escola que só treina repetição está a formar memória de curto prazo com prazo de validade ridículo.

Projetos bem feitos não substituem conteúdos, integram-nos. Obrigar um aluno a aplicar conhecimento em situações reais ativa funções executivas, consolida memória de longo prazo e desenvolve competências que nenhum teste isolado consegue medir: tomada de decisão, autorregulação, comunicação sob pressão.

E sim, dá mais trabalho. Exige professores preparados, atentos, com capacidade de ajustar em tempo real. Ou seja, exige profissionalismo a sério. Não o mínimo olímpico.

Se quer alunos calados, previsíveis e esquecidos em duas semanas, continue só com fichas.

Se quer alunos envolvidos, capazes de pensar e agir, aguente o desconforto dos projetos e aprenda a liderá-los bem.

E uma coisa que irrita muita gente admitir: a escola portuguesa tem professores com capacidade para isto. Não falta competência. Há coragem para sair do automático… e haja paciência para aturar quem nunca construiu nada mas acha sempre que sabe como devia ser feito.

 

Alfredo Leite

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2.ª Validação (23 e 24 de abril)

Concurso Nacional Interno e Externo 2026/2027 – 2.ª Validação

Encontra-se disponível até às 23h59 de 24 de abril de 2026 (hora de Portugal continental), a aplicação eletrónica para efetuar a 2.ª Validação para o Concurso Nacional Interno e Externo, destinado a Educadores de Infância e a Professores dos Ensinos Básico e Secundário.

SIGRHE – 2.ª Validação 2026/2027

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PEV será ouvido na Assembleia da República

O movimento PEV – Professores pela Equidade e Valorização será ouvido no próximo dia 28 de abril, pelas 15h00, na Comissão de Educação, Ciência e Inovação da Assembleia da República, no âmbito do seu Projeto de Lei que visa corrigir as ultrapassagens na carreira docente.
A audição surge numa fase particularmente relevante do processo legislativo, após a admissão da iniciativa legislativa, subscrita por mais de 24 mil cidadãos, e a conclusão da respetiva nota técnica.
De acordo com esse documento oficial, a iniciativa não suscita quaisquer objeções constitucionais ou regimentais, tendo sido admitida sem reservas. Este dado assume especial importância, uma vez que valida, do ponto de vista jurídico-formal, a proposta apresentada pelo movimento.
O enquadramento técnico reconhece igualmente que a aplicação das regras de reposicionamento, nomeadamente no contexto da legislação em vigor desde 2018, originou situações de ultrapassagem na carreira docente, com impacto significativo em milhares de profissionais. Este cenário deu origem a múltiplas ações judiciais, intervenções do Provedor de Justiça e sucessivas orientações administrativas, evidenciando a persistência do problema.
A nota técnica destaca ainda a existência de jurisprudência consolidada em torno do princípio da igualdade remuneratória, sublinhando que situações em que trabalhadores com maior antiguidade auferem remuneração inferior, sem justificação material, podem configurar violação desse princípio constitucional.
Para o movimento PEV, estes elementos confirmam que estamos perante um problema estrutural, amplamente reconhecido, tanto do ponto de vista jurídico como institucional.
Enquanto porta-voz do movimento, José Pereira da Silva considera que:
“O que está hoje em causa já não é o reconhecimento da injustiça, esse está feito. O que se exige agora é uma decisão política que corrija uma situação que afeta milhares de professores e compromete a equidade na carreira docente.”
A audição parlamentar permitirá ao movimento apresentar diretamente aos deputados os fundamentos da proposta legislativa, num momento que poderá revelar-se determinante para o futuro do diploma.
O PEV considera que este é um passo decisivo num percurso marcado pela mobilização de professores de todo o país, reiterando que a correção das ultrapassagens é essencial para garantir justiça, respeito pelo tempo de serviço e valorização da profissão docente.

José Pereira da Silva
Porta-voz do PEV

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Alguém se lembrou do aluno invisível nos exames e provas MODA?

Há um novo “aluno invisível” nas escolas portuguesas. Não se senta na cadeira, não levanta o braço, não pede para ir à casa de banho. Mas responde, e responde bem. Demasiado bem. É silencioso, eficiente e, ironicamente, pode estar a quilómetros de distância. Bem-vindos à era da prova feita por controlo remoto.

Imaginemos então o cenário: prova de avaliação em curso. Ambiente supostamente controlado. Um aluno pousa o seu computador da chamada Escola Digital sobre a mesa, esse mesmo computador que o Ministério distribuiu com pompa tecnológica e fé pedagógica. Tudo normal. Ou quase.

O que ninguém vê (nem o professor, nem o vigilante, nem o sistema) é que, do outro lado, alguém já entrou. Através de um software de acesso remoto, previamente instalado e discretamente ativo, uma terceira pessoa assume o controlo. O rato move-se sem mãos visíveis. As respostas aparecem com uma fluidez suspeita. O aluno limita-se a assistir — talvez nervoso, talvez aliviado. A prova deixa de ser dele.

E agora? Que meios tem a escola, ou o IAVE, para impedir isto?

A resposta curta é desconfortável, poucos. Ou, sendo mais rigoroso, pouco eficazes sem uma mudança estrutural na forma como se encara a avaliação digital.

Os computadores da Escola Digital, salvo exceções pontuais, não estão configurados como dispositivos de exame seguro. Não há um “modo de prova” universal, inviolável e auditável. Não há garantias de que softwares de acesso remoto, como AnyDesk, TeamViewer ou semelhantes, estejam bloqueados ou sequer monitorizados. E mesmo que estivessem, bastaria um mínimo de engenho técnico para contornar muitas dessas barreiras.

“Ah, mas há vigilância!”,  dir-se-á. Sim, há olhos na sala. Mas os olhos humanos não veem processos em segundo plano, nem detectam ligações remotas cifradas. O professor pode suspeitar de comportamentos, rapidez anormal, ausência de interação com o teclado, respostas demasiado “perfeitas”, mas suspeitar não é provar.

E o IAVE? Poderia impor plataformas de exame fechadas, com bloqueio de aplicações, registo de atividade, e até monitorização em tempo real. Poderia, mas isso implicaria investimento.

Passemos então às consequências.

Para o aluno, se apanhado, o cenário é claro, anulação da prova, eventual processo disciplinar, e um registo que dificilmente se apaga da memória institucional. Para a escola, o dano é mais difuso, mas não menos grave: perda de credibilidade, fragilização do processo avaliativo e uma sensação crescente de que o sistema é permeável, para não dizer ingénuo.

Mas há uma consequência mais profunda, quase invisível: a erosão do valor da avaliação. Quando uma prova deixa de garantir que mede aquilo que pretende medir, o conhecimento do aluno, torna-se um ritual vazio. Um teatro onde todos fingem que a nota corresponde a mérito.

E as implicações? São incómodas.

Primeiro, a desigualdade: quem tem acesso a apoio externo (e conhecimento técnico) parte em vantagem. Segundo, a desresponsabilização: o aluno aprende que o sistema pode ser contornado. Terceiro, a desvalorização do esforço honesto: quem estuda vê-se equiparado a quem “subcontrata” a inteligência.

Como evitar, então, que tal aconteça?

Não há solução única, mas há caminhos e exigem coragem.

1. Ambientes de exame seguros: dispositivos configurados exclusivamente para provas, com bloqueio total de software externo e acesso à internet controlado ou inexistente.

2. Plataformas dedicadas: sistemas de avaliação que registam atividade, impedem multitarefa e sinalizam comportamentos suspeitos.

3. Provas híbridas ou presenciais com papel: sim, o velho papel continua a ter uma virtude inegável — não aceita ligações remotas.

4. Avaliação contínua diversificada: reduzir o peso de momentos únicos e apostar em múltiplas evidências de aprendizagem, mais difíceis de “terceirizar”.

5. Literacia digital crítica: não apenas ensinar a usar tecnologia, mas também a compreender os seus riscos e as suas tentações.

6. Responsabilização clara: regras explícitas, consequências aplicadas, e uma mensagem inequívoca de que fraude tecnológica é fraude, ponto.

No fim, a questão não é tecnológica. É cultural.

Enquanto persistir a ideia de que a avaliação é um obstáculo a ultrapassar e não um processo de aprendizagem, haverá sempre quem procure atalhos. A tecnologia apenas sofisticou esses atalhos.

E talvez o mais mordaz disto tudo seja o seguinte: distribuímos computadores em nome da igualdade de oportunidades, mas esquecemo-nos de garantir igualdade nas condições de avaliação. Criámos um sistema moderno na aparência, mas vulnerável na essência.

O aluno invisível não veio do futuro. Foi o sistema que o convidou.

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