25 de Abril de 2026 archive

A indisciplina nas escolas públicas – ou o sentimento de impunidade dos alunos – Carmo Machado

 

“Os procedimentos de sanção disciplinar apresentados no Estatuto do Aluno são tão complexos e burocráticos que impedem a aplicação correta e atempada das medidas disciplinares. Sem a simplificação de todo este processo, sem a responsabilização dos pais e encarregados de educação, sem a criação de equipas especificas nas escolas que direcionem a sua atividade não letiva exclusivamente para esta agilização, a aplicação das medidas disciplinares continuará a ser impraticável e sem quaisquer resultados palpáveis na diminuição dos comportamentos disruptivos.”

A indisciplina nas escolas públicas – ou o sentimento de impunidade dos alunos

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Perde-se a memória do 25 de abril

Há um silêncio estranho a instalar-se nas margens da nossa memória coletiva. Um silêncio que não é feito de ausência de palavras, mas de excesso de versões, de repetições gastas, de narrativas embaladas para consumo rápido. Falo do 25 de Abril de 1974, não o da efeméride, não o dos cravos estilizados nas lapelas institucionais, mas o outro, o vivido, o imperfeito, o humano.

A memória viva está a desaparecer. Não de forma abrupta, mas como quem se retira devagar de uma sala, fechando a porta sem ruído. São os homens e as mulheres que souberam o que era medir as palavras, desconfiar das paredes, sentir o peso da censura antes mesmo de ela se materializar. São aqueles que sabiam o que significava viver numa ditadura sem precisar de o explicar, porque o corpo já o sabia.

Hoje, até aqueles que rondam os cinquenta anos vivem numa espécie de fronteira nebulosa. Nasceram demasiado tarde para recordar, demasiado cedo para não ouvir. Cresceram com fragmentos: histórias contadas à mesa, relatos emocionados ou ressentidos, versões que se contradizem e que, no fundo, revelam mais sobre quem as conta do que sobre o que realmente aconteceu.

E depois há a narrativa oficial. Aquela que se repete, ano após ano, com a solenidade de um ritual. Uma história limpa, organizada, quase confortável. Uma história onde os papéis parecem definidos com clareza: heróis de um lado, sombras do outro. Mas a História, a verdadeira , raramente é assim tão linear. E, ainda assim, insistimos em ouvi-la como se fosse.

Há interesses, claro que há. Há sempre. Partidos, ideologias, agendas que se apropriam do passado para legitimar o presente. E, nesse processo, a memória transforma-se em instrumento. Molda-se, seleciona-se, simplifica-se. Porque uma história complexa incomoda; uma história simples mobiliza.

É aqui que a velha máxima ganha corpo: da História consta, muitas vezes, a versão dos vencedores. Não porque seja necessariamente falsa, mas porque é incompleta. Porque deixa de fora as zonas cinzentas, os dilemas, as contradições humanas que não cabem em discursos comemorativos.

O problema não é apenas esquecer. É lembrar mal. Ou lembrar de forma condicionada. Quando a memória viva desaparece, ficamos dependentes do que foi registado, e do que foi escolhido para ser registado. E isso exige de nós um esforço maior, quase arqueológico: escavar, comparar, duvidar.

Talvez o maior desafio do 25 de Abril, hoje, não seja celebrá-lo, mas compreendê-lo. Não como um símbolo imóvel, mas como um acontecimento vivo, feito de múltiplas experiências. Um dia que não pertence apenas aos livros, mas às pessoas, às que ainda podem falar e às que já só sobrevivem nas palavras dos outros.

Porque, no fim, a liberdade que tanto evocamos também passa por isto: pela liberdade de questionar a própria memória.

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