Há lideranças que nascem de um impulso genuíno de melhorar o mundo, uma vontade quase moral de ordenar o caos com ideias claras, modelos elegantes e planos bem desenhados. No entanto, entre a intenção e a concretização abre-se um espaço silencioso onde tudo pode falhar. Não por malícia, mas por insuficiência.
Quando quem executa conhece apenas o mapa e nunca percorreu o território, tende a confundir coerência teórica com viabilidade real. As decisões parecem sólidas no papel, mas esbarram na fricção invisível do quotidiano, desconhecimento da atividade no terreno e da realidade , imprevistos, resistências humanas, limitações materiais. A prática não invalida a teoria; expõe-lhe as omissões.
Cria-se então um paradoxo discreto, quanto mais refinado o plano, mais dependente se torna de uma execução que exige julgamento, adaptação e experiência (coisa de teóricos), precisamente aquilo que não se aprende em abstração. E assim, o sistema começa a girar sobre si mesmo, produzindo relatórios em vez de resultados.
Talvez o problema não esteja nas ideias, nem sequer nas nas lideranças, mas em quem as lideranças têm à sua volta e a distância entre os dois. Porque liderar não é apenas imaginar o possível, é garantir que alguém, à sua volta, sabe, de facto, torná-lo real e exequível, não enviando para as ruas o Caos.
Tentem lá adivinhar do que é que estou a falar e para quem…




2 comentários
Penso na equipa do MECI. Mas pode ser muitas Direções e milhentas outras coisas…
Texto lúcido, mas incisivo: expõe bem o vazio entre ideias bem desenhadas e resultados reais. O problema não é a teoria, mas quem decide sem conhecer o terreno e se rodeia de iguais. E há um erro estrutural que se repete: a permanência prolongada das mesmas direções. Sem renovação na liderança, não há verdadeira mudança — apenas repetição com nova linguagem. No fim, sobra o habitual: muita produção de papel, pouca transformação real.