Há um quadro que qualquer professor reconhece sem esforço. Um aluno chega à sala com o trabalho por fazer, o olhar de quem dormiu bem e a explicação já preparada, não por ele, mas pela voz que se ouve ao fundo, no telemóvel, enquanto a mãe negoceia em tempo real com o filho o que ele há de dizer ao professor. A conversa é curta. A solução, instantânea. O desconforto, zero.
E o miúdo aprende alguma coisa. Aprende que os problemas se resolvem com um telefonema.
Temos vindo, com a melhor das intenções e a pior das estratégias, a criar uma geração de crianças perfeitamente protegidas da vida real. Protegidas do erro, da espera, do fracasso, da birra que não resulta, da nota que não sobe, do amigo que não cede. Protegidas, em suma, das únicas situações que verdadeiramente ensinam alguma coisa.
A frustração não é uma avaria no processo educativo. É o processo.
É na zanga que uma criança descobre que tem limites, que o mundo não gira em torno dos seus desejos. É no erro que aprende a recalcular. É no choro seco do recreio, quando a brincadeira correu mal, que percebe que é capaz de se levantar sozinha. Nenhum adulto que se antecipe a essa queda lhe ensina a cair bem. Ensina-lhe apenas que haverá sempre alguém para a apanhar, e essa é uma das mentiras mais prejudiciais que se pode transmitir a uma criança.
Nas escolas, os professores já sabem. Sabem quando um trabalho foi feito pelos pais, quando a justificação de falta foi demasiado bem redigida, quando o email indignado chega demasiado depressa a seguir a uma má nota. Sabem porque viram o mesmo quadro muitas vezes. E sabem também o que acontece a seguir, esses alunos chegam ao 9.º, ao 12.º, à faculdade, ao mercado de trabalho, sem terem aprendido a tolerar a adversidade, sem saberem o que fazer quando ninguém resolve o problema por eles.
Não é culpa das crianças. Nunca foi.
É culpa de uma ideia torta de amor que confunde proteção com substituição. Que acha que um bom pai é aquele que remove os obstáculos do caminho do filho, quando um bom pai é aquele que fica ao lado enquanto o filho os enfrenta. A diferença parece pequena. As consequências não são.
A escola pode fazer muito, e faz. Mas há uma aprendizagem que não cabe em nenhum currículo, que não tem código de disciplina nem grelha de avaliação, a capacidade de aguentar o que é difícil sem entrar em colapso. Essa constrói-se em casa, no dia a dia, nas mil situações banais em que um adulto resiste ao impulso de intervir e diz, em vez disso, qualquer coisa como já sei que é difícil, o que é que achas que podes fazer?
Cinco palavras. Uma vida de diferença.
Educar não é afastar o sofrimento. É acompanhar alguém enquanto aprende a atravessá-lo. É tolerar o choro sem o calar depressa demais, é deixar a birra chegar ao fim sem ceder, é assistir ao fracasso com serenidade suficiente para que a criança entenda que o fracasso não é o fim de nada, é o começo de uma segunda tentativa.
Portugal não tem falta de pais que amam os filhos. Tem, isso sim, uma quantidade crescente de pais que confundem amar com poupar. E as escolas, sozinhas, não conseguem desfazer em seis horas diárias o que se constrói nas restantes dezoito.
Deixem os miúdos zangar-se. Deixem-nos falhar. Deixem-nos resolver. Não porque sejam capazes, são, mas porque só assim vão acreditar que o são.
O resto é logística.




3 comentários
Texto muito lúcido e necessário. Toca num ponto essencial: a frustração não é um desvio do caminho educativo, é o próprio terreno onde se constrói a autonomia. Ao proteger em excesso, roubamos às crianças a oportunidade de desenvolver tolerância à adversidade, pensamento crítico e confiança nas próprias capacidades. Amar não é eliminar obstáculos, é oferecer presença e segurança enquanto o outro aprende a enfrentá-los. A diferença, como o texto diz, parece subtil — mas molda adultos profundamente distintos.Gosto.
Excelente reflexão sobre o tema do texto. Infelizmente, temos cada vez mais pais a protegerem os filhos da frustração, achando que lhes estão a fazer bem. Muito pelo contrário, estão a cometer um erro tremendo.
Não me esqueço de ter ido à Dinamarca onde vi pais a incentivar os filhos, de 6, 7, 8 anos, a andar sozinhos de bicicleta, em ruas movimentadas de carros, sendo que os progenitores ficavam para trás,. Em Portugal, e na Europa do Sul, nem nos centros comerciais deixam os filhos a mais de 3 metros de distância, pois se se afastam um passo que seja já estão a gritar com os filhos para não sairem de ao pé deles. É esta a cultura de Portugal. Como querem que os filhos sejam independentes, se nós, como pais, somos uma gente controladora e que não permite o desenvolvimento de gente autónoma?