O professor deve ser digno da sua missão, mas o aluno deve ser digno de estar à sua frente. A dignidade educativa não é unilateral: é construída a dois.
A ética da sala de aula
Explicamos: a aula não é um espetáculo onde o docente atua e o aluno assiste. A aula é a construção simultânea de duas vontades. Sem reciprocidade, não há aprendizagem: há monólogo. A questão raramente é enunciada, mas muitos alunos chegam à escola num estado de disponibilidade intelectual próximo de zero. Não porque lhes falte capacidade, mas porque lhes falta disposição. A indisciplina, hoje, não é apenas ruído: é uma forma de recusar o mundo. Quando o aluno rejeita a autoridade, não rejeita apenas a pessoa do professor: rejeita a própria ideia de aprendizagem. A cultura que fomenta esta atitude não nasceu na escola: entrou nela pela porta da sociedade, onde a infância passou a ser tratada como território intocável e a adolescência como época de imunidade moral. O professor, nesse ambiente, aparece sempre como culpado enquanto o aluno nunca surge como agente. E, no entanto, nenhuma conceção séria de educação pode excluir a responsabilidade discente. O aluno não é uma tábua rasa, não é um espectador passivo, não é uma criatura neutra sobre a qual a escola imprime conhecimento. É uma pessoa situada, com deveres tão vincados quanto os do professor. Recusar-se a aprender, ou dificultar que outros aprendam, é uma violação desse dever.




8 comentários
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Estou totalmente de acordo.
Mas se “Recusar-se a aprender, ou dificultar que outros aprendam, é uma violação desse dever.”, no contexto do texto percebe-se qual é o dever, não deveria de existir algo que punisse o não cumprimento do dever?
E existe. Mas é a escola quem decide e aplica essa medidas.
Só precisa existir vontade da escola em o fazer.
O fator indisciplina, desrespeito, responsabilização por aquilo de que não se tem culpa, são fatores que continuam a afastar eventuais jovens candidatos à docência (nunca esquecer que assitiram a tudo isso, há muito pouco tempo nas suas vidas, e na fila da frente! ). De facto, parece haver, da parte da Tutela, alguma tentativa de contrariar o afastamento dos jovens da docência por via de melhores condições de carreira e salariais (parece estar bem…) mas nunca nínguem trata deste outro enorme problema.
Como se resolveria então este problema? É fácil: o docente tem que ter o pleno direito de decidir, ponderadamente, quem está ou não em condições de estar na sua sala de aula e nunca as direções ou coordenadores disto ou daquilo. O que acontece depois ao menino? É imediatamente colocado ao portão da escola e a família que trate do resto. Então e os seus direitos..? Não se quer saber disso para nada! O que interessa são os direitos laborais do profissional e, acima de tudo, o direito à aprendizagem dos discentes cumpridores da Lei, que não deve ser colocado minimamente em causa por arruaceiros desclassificados.
Agora sempre que um professor tenta colocar ordem e disciplina os papás (só os papás, os pais não) levam logo as virgens ofendidas a uma psicóloga daquelas pagas para fazerem relatórios a enfiar os professores no curro. Isto é o professor tem de perceber que um maleducado petiz é um ser único e irrepetível num maralhal de dezenas, muito muito sensível e habituado a mandar lá em casa dele. Para cúmulo a psicóloga ainda se arma em expert de pedagogia escolar (o professore) e prescreve um receituário de tarefas/estratégias para o professor aplicar na sala de aula!
E quantos psicólogos os professores já viram sair de cabelo em pé de uma sala de aula quando lá se vão armar em Eduardos Sás!
Afinal, não deveria ser cada macaco no seu galho?!
Não estou a receber os seus emails há algum tempo.
Pois, tire a barreira!
Concordo na integra. Tenho de discutir a mensagem com os meus alunos, que na sua maioria, felizmente gostam de mim. Contudo isso não impede que a indisciplina se instale, como algo normalizado , a par com o desinteresse pelas matérias lecionadas. Onde qualquer contrariedade faz com que alguns se queixem do professor, como se ele fosse o culpado pelo seu insucesso escolar. O processo do ensino e aprendizagem fica apenas centrado no professor. O aluno passa a ser um peão passivo.
O pior de tudo é que as premissas legais que potenciam esta situação, criadas pelos governos do PS, continuam em vigor…Este governo atual nada fez para alterar o paradigma do facilitismo e faz de conta… E, da indisciplina nas escolas…