É a humilhação, estúpido! – Paulo Prudêncio

 

– Irrita-me que os melhores lugares nas filas da frente estejam quase sempre vazios, porque estão reservados para vips que não pagam nem aparecem – dizia-me um amigo preocupado com o crepúsculo da democracia na sociedade dos zangados. Se bem me recordo, houve, pela década de 1990, um movimento para civilizar as bilheteiras. Mas perdeu-se essa decência, como se perdeu o espírito do “dia inicial inteiro e limpo”. Os tempos são de tratamento vip para vips, usufruído na primeira oportunidade até pelos demagogos mais críticos e vocais.

É a humilhação, estúpido!

De facto, os inúmeros avisos da decadência foram sugados pelo triângulo das vaidades, dos interesses instalados e dos chico-espertismos; e o mal está feito. Resta buscar o tempo perdido, na linha da magistral descrição de Marcel Proust sobre o declínio da sociedade francesa do final do século XIX e início do século XX. Com efeito, as elites exibiam-se, com aquela superioridade de quem habita a vida dos príncipes e dos seus salões e num ir e voltar entre os lados de Méséglise (da mundana burguesia) e de Guermantes (da decrépita aristocracia), convencidas da sua invisibilidade e de uma exclusiva imunidade às tragédias (vã, como se devia saber).

Agora, não adianta discutir se os eleitores têm razão. Até porque a história tem exemplos para todas as correntes, incluindo protestos que correram mal: desde eleitores que votaram em quem historicamente mais contribuiu para atrasos e pobreza, até aos que, fatigados com a imperfeição da democracia, pareceram possuídos pela síndrome de Estocolmo ou por uma obsessão pelo abismo. Atente-se é nas suas razões. Assuma-se que a memória cedeu demasiado terreno à desinformação (foi fatal a subvalorização do ensino das humanidades e das artes nos currículos escolares), e aja-se.

Acima de tudo, os extremismos alimentaram-se em classes médias espremidas e esquecidas – e com ricos cada vez mais ricos – e na crise da representatividade. Aliás, foi no século XIX e com receio da democracia directa exercida pelas massas, que se criou a representatividade e um sistema de classe – a dos políticos profissionais – que não é realmente democrático nem representativo. É uma oligarquia de especialistas no poder. É, em regra, desconsiderada como elite, mesmo que se exiba à sombra de sábios. Efectivamente, aumentou-se o desconhecimento entre representantes e representados e gerou-se oposições extremadas guiadas pelo ressentimento.

Por outro lado, o desencanto dos eleitores estrutura-se no humilhante aumento brutal das desigualdades educativas. E por mais que se ignore a educação nas campanhas eleitorais, o vexame emerge em três níveis:

1. Ressentimento causado pela “impossibilidade” meritocrática de promoção material e social sem uma certificação do ensino superior;

2. Jovens – certificados com curso superior e que ainda não emigraram – desanimados com as saídas profissionais não adequadas às expectativas, com baixos salários e sem acesso a habitação;

3. Jovens eleitores que cresceram sem informação histórica e humanista que filtrasse os algoritmos do ódio, da misoginia, da violência e das notícias falsas, e com encarregados de educação igualmente fascinados com o smartphone e incapazes de impor regras (o que o mercado gulosamente agradece).

A função nuclear da educação fagilizou-se, em simultaneo com a diminuição do papel emancipador da escola. Por este caminho, só os ricos a terão com qualidade. É que para além dos cortes curriculares, os professores foram alvo de uma humilhação social e profissional – com a cumplicidade da bolha político-mediática – patente na sua gravíssima falta estrutural. Durante duas décadas apontaram as causas burocráticas de tanta desconfiança e desautorização. Acima de tudo, foram vítimas da avaliação Kafkiana e de uma gestão autocrática das escolas que aboliu o voto directo e criou um universo de parcialidades familiar da crise de representatividade. E se a imagem do poder local melhorou, desde 2005, por via da limitação inequívoca de mandatos que aproximou eleitos de eleitores, as escolas continuaram expostas a caudilhos e dinossauros.

Se não se trava este capítulo da história universal da humilhação, não adianta proclamar que a esperança vergará ventos ou marés. Esta tempestade perfeita ensombra o futuro e, de facto, é um conjunto vazio anunciar que o mundo mudou. Na verdade, um apagão da democracia não será inédito e é espantoso que se relativize ou se ignore. Mas o mais inaceitável, é saber-se que os que o sabem não mudam sequer o que ainda está nas suas mãos, porque adoecerem de ganância e de falta de empatia.

https://correntes.blogs.sapo.pt/e-a-humilhacao-estupido-4586165

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4 comentários

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    • zéi tóxico on 10 de Junho de 2025 at 8:49
    • Responder

    Citando o Ditador do meu Agrupamento “eu até me considero boa pessoa…”

    • Maria Martins on 10 de Junho de 2025 at 12:10
    • Responder

    Apagão da democracia! Porque será?!
    Coloquem-se os pés nas escolas e verifique-se como será o futuro! Na maior parte das escolas, não há exigência, excelência e muito menos democracia! Entrar na escola é entrar num submundo de palavrões e laxismo, onde o dedo está constantemente apontado aos professores. Professores, bode expiatório das Direções, dos EE, e do ME!
    E por fim, quase todos a demitirem-se da sua função por medo de represálias e de um maior desgaste!

  1. A clarividência, a inteligência e a honestidade moral e intelectual do costume. Um texto brilhante porque luta pela verdade. Brilhante porque também recusa a retórica da mentira ou da ocultação da verdade.
    Um texto forte, fortíssimo, retrato do valor de quem o escreveu. Homens com personalidade e espinha dorsal vertical já se contam pelos dedos das mãos.
    Gostava de realçar muita coisa, porque tudo merece realce. Deixo so este excerto para não maçar muito.
    “as escolas continuaram expostas a caudilhos e dinossauros.”
    Talvez nao seja por acaso que, por exemplo, na Marinha Grande, o candidato da extrema direita nas autárquicas seja um professor. Azar dos azares, um ex aluno meu e actualmente era considerado amigo. Cortei relações.

    E mais este excerto
    “Se não se trava este capítulo da história universal da humilhação, não adianta proclamar que a esperança vergará ventos ou marés. ”
    Que grande verdade. A humilhação parece que faz dos fracos, homens fortes. E gente fraca parece que ultimamente fez questão de se exibir sem vergonha. Tem-se normalizado tanta coisa indigna e a humilhação normalizada destroi uma sociedade. Talvez seja uma das grandes causas dessa sociedade dos zangados de que falaste.

    Este texto é para ser levado a sério. Não sei é se ainda há muitos homens sérios a lê-lo. Sobretudo aqueles que estão agarrados ou lutam pelo poder. E que não deturpem a verdade como estão a fazer no belo texto que também escreveu e leu hoje a Lídia Jorge.

    • Bugaça on 11 de Junho de 2025 at 10:15
    • Responder

    Mais um texto de dondoca que quer parecer bem.A sociedade neoliberal construiu este sistema dinâmico a que agora chamamos wokismo. O wokismo é a righteousness norte-americana, o politicamente correcto soviético, misturados com as redes sociais. Está tudo com aquilo aos saltos por causa da extrema direita, temos pena. Alguém parou para pensar que o mundo perfeito imposto por decreto é também uma tirania? A erosão do Estado decorre deste caldo, numa escola EB onde andei a fazer manutenção informática, todos os pilares dos corredores entre pavilhões, tinham cartazes sobre inclusão e DEI. Até que ponto a cruzada por um mundo perfeito não passa a ser propaganda? Mas alguma vez alguém é português apenas por arranhar umas palavras e vestir a camisola do Ronaldo?Agradecer À esquerda essa do não existirem pátrias, afinal o que existe é um movimento operário transnacional.A alminha que escreveu o texto analisa umas coisas mas deixa outras de fora: «3. Jovens eleitores que cresceram sem informação histórica e humanista que filtrasse os algoritmos do ódio, da misoginia, da violência e das notícias falsas, e com encarregados de educação igualmente fascinados com o smartphone e incapazes de impor regras (o que o mercado gulosamente agradece).»de onde virá a misogenia ó génio?Será da polarização que serve o retalho e prolonga a vida ‘reprodutiva’ de quarentonas e cinquentonas e que identifica promiscuidade sexual com liberdade?De onde vêm os EE que não sabem educar? De décadas de Hollywood onde a figura do bom pai era a de um amigo que levava os filhos para a bebedeira? Palhaçada tratar as coisas pela rama

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