Breve história do fracasso do digital na educação – Paulo Prudêncio

Breve história do fracasso do digital na educação

As tecnologias na educação estão a partir do lápis de carvão. Em resumo, a pergunta a fazer é equivalente às guitarras: não me diga a marca da sua guitarra, diga-me antes o que faz com ela.

Na verdade, a educação, que vai muito para além da escola, é a arte do equilíbrio e da sensatez; mas não só. Exige humildade e aplicação diária do mito de Sísifo. As chamadas novas tecnologias estão na educação em duas redes: a de recursos administrativos, mais no universo escolar, e a de recursos educativos, na sociedade e no universo escolar.

A primeira é muito mais exigente na construção de software e muito menos lucrativa para as gigantes tecnológicas. Por isso, o caos no Ocidente na gestão de dados da educação, porque o investimento em software não tem retorno nos curtos e médios prazos. Apesar de serem cruciais para a consolidação da democracia, os tecnocratas desprezam esse objectivo. Aliás, foge-se a ser professor também por causa desse inferno. Não há, em síntese, algo que se assemelhe à rede multibanco, que inclua os homebanking, ou até, no nosso caso, ao portal das finanças.

A rede de recursos educativos é muito lucrativa para as gigantes tecnológicas; mais do que os drones, o comércio eletrônico, o 5G ou a tele-medicina. Recorde-se os mais conhecidos componentes do negócio: um smartphone por aluno e por professor, redes sociais através de aplicativos com software elementar e milhões de portáteis e tablets nas escolas para alimentar a indústria das escolas digitais e antecipar o ensino à distância. Os olhos dos neoliberais até brilham (como sempre, os nórdicos metem pedras na engrenagem).

Claro que o “reconhecimento de padrões” – mais divulgado como Inteligência Artificial (IA) – exige um outro debate. Estamos numa fase em que o pêndulo da condição humana oscila entre o pânico e a apreensão, porque as crianças e jovens das democracias ocidentais estão entregues à selva digital e com falta de professores. Mas sempre se alertou, há mais de uma década, para duas graves consequências do digital na rede de recursos educativos: conteúdos pornográficos e redes sociais; no segundo caso e para além do ciberbullying, foram usados ​​por organizações de extrema-direita com conteúdos xenófobos, racistas, misóginos e violentos e que fidelizaram convocados logo que os jovens chegaram aos 18 anos. 

E se qualquer das crises, selva digital e falta de professores, comprometem o crescimento como pessoas livres respeitadas nos direitos fundamentais, a simultaneidade preocupações com quatro dimensões bem identificadas: internet, recursos digitais para o ensino, “Reconhecimento de Padrões” – mais divulgado como Inteligência Artificial (IA) – e desinvestimento na Educação.

Por outro lado, já vimos que o que aí vem informatizará tudo o que for para informatizar, automatizará tudo o que for para automatizar e que as aplicações digitais usadas para controle e vigilância serão usadas para controle e vigilância. É o nível 4 da transição digital. O nível 5, que será longo e correto, inclui inteligência artificial e robotização. Por exemplo, Luc Julia, um dos criadores da Siri da Apple, diz que não tem a certeza de que gostaria de falar com o seu frigorífico. No universo escolar, também não se terá a certeza de que se queira falar com um robô como se fosse um professor que ensina e ajuda a formar uma personalidade.

Como se percebe, os nórdicos estão a ser sensatos com o digital na educação. Até já regressaram fundamentalmente ao papel. Ou seja, voltarei a passar ao lado de uma vaga neoliberal; um vigente; uma segunda. Como referiram os prémios Nobel da economia em 2024, Acemoglu e Robinson, em “Porque falham as nações”, os nórdicos passaram ao lado da primeira vaga neoliberal iniciada por Thatcher e Reagan e que Clinton, Blair, e Schröder apoiaram. No digital, preocupam-se com as crianças e jovens e têm muito uma educação a tempo inteiro que mitiga a tragédia da escola a tempo inteiro. Estamos perdidos e completamente condicionados pelos interesses da indústria das gigantes tecnológicas que se alastrou às políticas educativas, às leis laborais, ao inverno demográfico, aos fluxos migratórios e, repita-se, à supervisão de movimentos racistas, misóginos, xenófobos e violentos.

Nota: este texto é também uma síntese de textos anteriores onde fui buscar algumas passagens.

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9 comentários

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  1. …é o que acontece quando se constrói o edifício pelo telhado…

    • Silva on 22 de Junho de 2025 at 16:27
    • Responder

    Mas nunca nada está bem ??? Se não se muda as coisas é porque não se muda, e se se muda, é porque se muda?? Começa a ser intragável vir a blogs de docentes irra!!

      • Katia on 22 de Junho de 2025 at 18:58
      • Responder

      ó silva, mudar so para dizer que é moderno , mais vale estar quieto

      ó silva deixa-te de ter comportamentos rurais

    • Mainada on 22 de Junho de 2025 at 19:20
    • Responder

    Este Prudêncio devia era gozar a sua reforma descansado e não andar sempre com postas de pescada.

      • Nuno on 22 de Junho de 2025 at 19:21
      • Responder

      Ele queria era voltar a dar aulas.

      • Mainada on 22 de Junho de 2025 at 22:43
      • Responder

      Sei que não tenho copyright, mas pedia-te, por mera questão de decência, que não usasses o meu nick. Obrigado.

    • Nuno on 22 de Junho de 2025 at 19:21
    • Responder

    Mainada? Nuno?

    • Nuno on 22 de Junho de 2025 at 19:22
    • Responder

    Ele é o mesmo.

    • Luís Miguel Cravo on 23 de Junho de 2025 at 16:53
    • Responder

    É a destruição lenta e silenciosa de um país e da humanidade do mesmo. Os maiores responsáveis, mais uma vez, os professores! Baixam as calcinhas a tudo….
    Excelente artigo, caro Paulo Prudêncio! Já agora, e para não se tomar em conta só o caso dos países nórdicos (só dos países como maior IDH do planeta!) atente-se no que se está a passar na Catalunha (uma região do sul da Europa!).

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