Autoavaliação Docente: A Lei das Três Tábuas

(Por Pedro Alexandre Franco)

 

Em tempos antigos, os profetas recebiam tábuas com mandamentos.

Na escola pública portuguesa, os professores recebem… a ordem das três páginas.

Sim, três. Não são quatro. Não são “mais ou menos três”. São três páginas exatas, com letra normal, espaçamento normal e sem a mais pequena ambição de ilustração, gráfico ou anexo.

Não é recomendação. Não é sugestão. É dogma.

Se Moisés tivesse aparecido com quatro, tinha sido devolvido com um “excede o estipulado”.

Ora, é nestas condições que se pede ao professor para relatar, com elevação, síntese e alinhamento estratégico, tudo o que fez ao longo do ano. Aulas, atividades, reuniões, projetos, ensaios, apresentações, visitas de estudo, tutorias, tutorias da tutoria da tutoria… tudo.

No meu caso, por exemplo, sou professor com nove turmas (já cheguei a ter dez e até onze noutros anos), Diretor de Turma e, este ano, ainda acumulo a função de “Professor Tutor” de alunos com dificuldades. Estas funções estão incluídas nos tempos não letivos da minha alegada redução da componente letiva, ao abrigo do tão citado artigo 79.º do Estatuto da Carreira Docente. Digo “alegada” porque essa redução é tão impercetível que só com um microscópio de alta precisão, e uma boa dose de fé, se consegue detetar. É mais provável avistar uma aurora boreal no concelho onde vivo e leciono do que sentir, de facto, esse tal alívio horário.

Mas o relatório, esse, não reduz nada. O que tens para dizer tem de caber, com dignidade e sem piedade, em três páginas de prosa institucional. E atenção: não interessa o que fizeste. Interessa como o relataste. Já ouvi, mais do que uma vez, com o ar mais sereno do mundo (e sem rir):

– “Pois, sabemos bem que fizeste imensa coisa… mas se não está no relatório…”

É aqui que o ano letivo se transforma numa espécie de escape room: só sais bem avaliado se conseguires encaixar duzentas experiências educativas num ficheiro Word sem rebentar com a formatação.

E não há distinção: quem tem três turmas e quem tem onze, quem coordenou projetos ou apenas sorriu nas reuniões… todos com o mesmo limite. Três páginas. É como dar o mesmo prato a um passarinho e a um rinoceronte e dizer “cada um que se sirva”.

E depois vem o desafio literário. Escreves frases tão polidas e ambíguas que podiam servir para qualquer profissão:

– “Participou em processos reflexivos dinamizadores da comunidade educativa.”

(Tradução: esteve presente numa reunião onde se discutiu se a impressora estava mesmo avariada.)

– “Promoveu aprendizagens significativas e contextualizadas.”

(Tradução: usou exemplos do TikTok para explicar um determinado conteúdo)

– “Demonstrou disponibilidade para o acompanhamento individualizado.”

(Tradução: respondeu a emails de pais às 23h47.)

Mas mesmo com toda essa ginástica linguística, falta espaço. Sempre. Cortas a parte do projeto inovador, omites as dificuldades superadas, encolhes a colaboração com colegas. Chegas ao fim com a sensação de que foste mais editor do que autor da tua própria história.

E lá entregas o relatório. Com um sorriso resignado e os olhos de quem aparentemente já aceita as regras do jogo mas que, por dentro, está a ferver.

 

O professor que tudo fez,

tudo cortou,

tudo sintetizou

e ainda levou uma nota simpática por ter respeitado…as margens.

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19 comentários

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    • Ana Ferreira on 5 de Junho de 2025 at 19:19
    • Responder

    Excelente! Parabéns! Estas são duas palavras esquecidas e reconhecidas nas escolas pelos nossos pares! Mas, mesmo assim, continuamos…
    ”pois pra frente é que é o caminho!” Sem mais comentários…o sistema diz tudo!

    • Amália Rodrigues on 5 de Junho de 2025 at 19:28
    • Responder

    Mais um “Bom” com necessidade de reconhecimento, coitado ninguém repara nas 12 turmas que ele tem, na direção de turma e nos projetos que coordena, e depois ninguém lhe dá valor. E a chatice toda está mesmo nas três páginas, porque precisava de escrever uma tese de doutoramento ou mesmo um livro. Enfim, mais um desesperado a tentar ressuscitar os “bons”.

      • João Lourenço on 9 de Junho de 2025 at 13:02
      • Responder

      Excelente! A caracterização do Relatório de Autoavaliação Docente não podia ser mais real ao que estamos sujeitos. Parabéns!!

    • João on 5 de Junho de 2025 at 19:53
    • Responder

    Conheço alguns que trabalharam tanto que se queixam precisamente do mesmo – 3 páginas não chega para relatar tanto trabalho realizado. Ele é projetos, turmas, reuniões por tudo e por nada, é gente muito dinâmica. E a coisa que mais fizeram durante todo o ano letivo foi solicitar aos outros que trabalhassem para o curriculum deles. Uma alegria, muito trabalhadores….

    • Carla C. on 5 de Junho de 2025 at 20:31
    • Responder

    Muito bom artigo!

  1. Não há paciência para tanta desgraça. Quando não havia limite de páginas e tinha que se juntar evidências queixavam-se. Agora que foi simplificado para 3 páginas e sem evidências queixam-se. Tenham vergonha e ganhem juízo.

  2. De que serve um relatório pomposo, se ao longo do ano não conseguiste dar o sorriso certo no momento certo, o aceno de cabeça certo no momento certo, a “lambidela” certa no momento certo….Infelizmente, o avaliação docente resume-se ao seguinte: “Mais vela cair em graça, do que ser engraçado!”
    À boa maneira portuguesa: Podes dizer o que quiseres pelas costas, desde que faças à vénia “ao emproado ou emproada Diretor/a” (mais Elas do que Eles, mas no fundo, o cheiro é o mesmo) e digas “Amém” a todas as decisões tomadas e ideias irrefletidas. Eu defendo a abolição das Direções pelos pares, em substituição de gestores.
    A avaliação docente, nos moldes em que está , está a acabar com as relações entre os professores, dando lugar aos bufos criminosos, às injúrias, à hipocrisia e tudo o que de mais podres existe na Humanidade…

      • mario silva on 5 de Junho de 2025 at 22:30
      • Responder

      Descobriu que há docentes que são pessoas com as características menos nobres de todas as outras na sociedade…

  3. De que serve um relatório pomposo, se ao longo do ano não conseguiste dar o sorriso certo no momento certo, o aceno de cabeça certo no momento certo, a “lambidela” certa no momento certo….Infelizmente, a avaliação docente resume-se ao seguinte: “Mais vale cair em graça, do que ser engraçado!”
    À boa maneira portuguesa: Podes dizer o que quiseres pelas costas, desde que faças à vénia “ao emproado ou emproada Diretor/a” (mais Elas do que Eles, mas no fundo, o cheiro é o mesmo) e digas “Amém” a todas as decisões tomadas e ideias irrefletidas. Eu defendo a abolição das Direções pelos pares, em substituição de gestores.
    A avaliação docente, nos moldes em que está , está a acabar com as relações entre os professores, dando lugar aos bufos criminosos, às injúrias, à hipocrisia e tudo o que há de mais podre nas relações humanas…

      • mario silva on 5 de Junho de 2025 at 22:32
      • Responder

      Após 13 anos, já deviam ter percebido que a ADD é apenas um instrumento de controlo orçamental através da regulação salarial…

    • Mainada on 5 de Junho de 2025 at 21:52
    • Responder

    A solução simples é não ter “duzentas experiências educativas”, cingindo-se ao essencial que pareça bem e não abusar dos códigos (até pela saúde mental de quem tem que ler).

    • Marius on 5 de Junho de 2025 at 21:59
    • Responder

    O que isto? Para que é isto? Para que serve? O que ganham as escolas com isto, e os alunos? Somos todos excelentes…

    • AntiFacho on 6 de Junho de 2025 at 9:56
    • Responder

    Na maioria dos casos, 3 páginas até são demais para aquilo que “não” fazem.

    • Maria José Ramalho on 6 de Junho de 2025 at 16:09
    • Responder

    Ó professor, se calhar devia dedicar-se menos à escola e mais
    à vida. Ainda não percebeu que não lhe vão erguer estátua?

    Mas quem faz trabalho missionário não quer recompensa nem faz alarde dele…

    • Ser ou não Ser on 6 de Junho de 2025 at 19:30
    • Responder

    Irritantes são aqueles que andam sempre na escola a fazer tudo e mais um par de botas. Talvez porque tenham uma vida vazia ou porque se esquecem de colocar os professores novos a trabalhar no duro e a aprender. Mais piada acho quando esses “fazem tudo” levam com má nota sistematicamente apenas porque o diretor acha ter direito a escravos.
    Excelente para todos e boicote geral, não será o.melhor nesta imundície?!

    • Maria Estafada on 7 de Junho de 2025 at 0:14
    • Responder

    Na minha opinião esse relatório nem devia existir. Nem se devia fazer! É necessário escrever o que se faz? Não se vê? São 3 páginas que vão ser arquivadas e nem sequer blusas são. Pois quem está a avaliar tem mais que fazer do que ler centenas de páginas. Para nós são 3 mas para quem vai avaliar são centenas. Burocracia ! Só burocracias!

      • Mainada on 7 de Junho de 2025 at 9:23
      • Responder

      E o Montenegro criou agora um ministério para combater a burocracia. Deve ser, deve…

        • Ser ou não Ser on 7 de Junho de 2025 at 10:15
        • Responder

        Esse gajo devia ter vergonha na cara. Vai criar a opacocracia municipal e solverdiana. Foi assim que se encheu com aquele risinho de miliante!

  4. …em VRSA foi pior… levei um FRACO, porque o avaliador NÃO sabia ler!…

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