Da Falta de Respeito e da (Pouca) Vergonha

DA FALTA DE RESPEITO E DA (POUCA) VERGONHA

 

 

“Mas por que motivo não há notícias sobre isso? É um cabal desrespeito pela dignidade ética da pessoa humana; até suspeito que seja inconstitucional!”

Comentário de um amigo jurista ao timing de publicação das listas de colocação, em conversa com uma amiga professora (obviamente ansiosa e revoltada).

Este jurista é uma pessoa informada, e nutre pouca simpatia por lutas sindicais. Ainda assim reconhece, objetivamente, ser papel do Estado garantir o melhor serviço público e a eficiência dos processos, e acima de tudo respeitar os seus subordinados, enquanto empregador.

Creio que a maioria das profissões não tem conhecimento, tão-pouco experiência deste singular facto: no regresso de férias, não ter certezas sobre a sua situação laboral a muitíssimo curto prazo.

Sendo a única certeza a provável mudança de contexto de trabalho: de local, de cidade e, parcialmente, de vida.

Suspeito que os nossos governantes, bem acomodados nos seus gabinetes, não fazem a mais pequena ideia do que é:

  • Estar de férias sem saber se o dia 1 de Setembro trará o início de novo contrato ou a inscrição no I.E.F.P.;
  • Não saber se os rendimentos dos próximos 12 meses serão substancialmente diminuídos;
  • Não saber se a nova colocação será perto ou longe da residência;
  • Conseguir gerir o stress e a ansiedade do próprio e de familiares próximos (sobretudo filhos);

E após a publicitação da tão almejada colocação, providenciar…

  • A logística relativa ao transporte para o local de trabalho;
  • Se necessário, a procura de residência no local de colocação e, neste caso, a pesquisa de referências, serviços, acessibilidades, contactos…
  • A apresentação na escola, conhecimento institucional desta e dos seus profissionais, distribuição do serviço;
  • A eventual necessidade de matrícula dos filhos numa nova instituição educativa (creche, jardim-de-infância, escola…) e organização das suas rotinas em função da nova realidade.

E…repetir este processo ANO APÓS ANO.

Estariam os nossos governantes preparados para este jogo de cintura?

E a maioria dos profissionais capazes de reinventar a sua vida durante 5, 10, 15, 20, 25 anos, ainda sem perspetivar um vínculo estável?

Pior: fazê-lo num espaço de 3, 4, 5 DIAS ÚTEIS?

É algo que nos devia fazer, enquanto cidadãos, ter vergonha do Estado que supostamente nos protege e dos governantes que supostamente nos representam.

Há limites para a falta de respeito. Estou plenamente convicta que estes já foram ultrapassados.

Há que encetar esforços para a alteração deste timing, não obstante todas as outras reivindicações socioprofissionais da classe docente.

Uma palavra de solidariedade e apreço para todos.

Que seja um Bom ano letivo.

 

29-8-2018

Graça Pereira Araújo

Autora de manuais pedagógicos e formadora de professores

Link permanente para este artigo: https://www.arlindovsky.net/2018/08/da-falta-de-respeito-e-da-pouca-vergonha/

Deixe um comentário

Your email address will not be published.

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

Discover more from Blog DeAr Lindo

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading