Está na altura de a escola crescer
O que quero discutir, porque é isso que me deixa os nervos em franja, é a razão pela qual a escola pública não tenha, 43 anos passados sobre o 25 de Abril, conseguido ainda garantir um ensino igual para todos. É que, na minha cabeça, a escola deve ser o principal instrumento de criação de igualdade de oportunidades e justiça social. E não tem sido. Alguém me explica porquê?Nunca vi uma criança tão feliz por ir para a escola como a minha filha, quando entrou para o 1º ano. Eu desfeita em lágrimas e ela, concentrada, de mochila às costas, sem olhar para trás. Fui eu que cortei o cordão umbilical quando ela nasceu. E parece que, apesar de míope e sem as lentes de contacto, cortei bem, embora na minha cabeça ele tenha ficado intacto. A Rita vai agora para o 5º ano, para a escola grande, e não podia estar mais feliz. Continua a não olhar para trás.
Gosta da escola. Acha que aprende lá muita coisa. E que agora vai aprender ainda mais, porque vai ter mais disciplinas e mais professores e mais amigas e mais amigos e mais intervalos. Descansa-me que pense assim. Não delego na escola a tarefa de educar nem de ensinar tudo o que há para aprender. Como os meus pais não delegaram.
A minha escola era parecida com a da Rita. Pública. Aprendi (mais ou menos) as mesmas coisas, da mesma maneira. Na verdade, e isso é um pouco desconcertante, o ensino em Portugal não evoluiu muito em trinta e tal anos. E, no entanto, aqui estou eu, filha da escola pública, a escrever esta crónica, com o suficiente pensamento crítico para dizer que preferia uma escola diferente. Não me entendam mal. Não sou ingrata. Defendo-a com unhas e dentes. E é por isso que queria que também ela, a escola, crescesse, não olhasse para trás e fosse mais feliz.
Que se deixasse de rankings e de quadros de honra com cheiro a bafio e de turmas em que se juntam os melhores alunos e os melhores professores a trabalhar para os resultados, enquanto outras acumulam quase trinta miúdos. Talvez assim não fosse sequer cogitável para os pais engendrarem esquemas de moradas e encarregados de educação falsos.
Não sou especialista em pedagogia, por isso não vou discutir modelos de ensino, matérias dadas (e a extensão das mesmas) e competências trabalhadas, embora desconfie que já é tempo de os questionar. Quanto ao tão ansiado (e tão pouco estimulado) pensamento crítico, é óbvio que tem de ser desenvolvido na escola, mas também fora dela (isto é para os pais).
O que quero discutir, porque é isso que me deixa os nervos em franja, é a razão pela qual a escola pública não tenha, 43 anos passados sobre o 25 de Abril, conseguido ainda garantir um ensino igual para todos. É que, na minha cabeça, a escola deve ser o principal instrumento de criação de igualdade de oportunidades e justiça social. E não tem sido. Alguém me explica porquê?
P.S. – Há seis ou sete anos, fui fazer uma reportagem à Finlândia, na altura o país com melhores resultados no PISA, o programa internacional de avaliação de alunos promovido pela OCDE, e o melhor sistema de ensino do mundo. Não havia escolas privadas, nem rankings, nem avaliação de professores, nem exames. O modelo adotado garantia que todos os alunos tinham acesso à mesma educação, com mecanismos pensados para «apagar» quaisquer diferenças, sobretudo as socioeconómicas. Não sei qual é a situação agora. Mas não deve ser muito diferente. Talvez o ministro da Educação possa lá ir fazer uma visita de estudo.
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14 comentários
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“Alguém me explica porquê?”
Porque os políticos, geralmente vindos da “privada”, declinam de estatura? Alguém puxe o autoclismo.
Onde está a escola pública em Portugal? A maioria dos professores deveria fazer formação OBRIGATÓRIA na Finlândia. Muitos estagnaram no tempo, não se atualizam.., é dramático!! Tinha esperança que os mais jovens surgissem com outra visão do mundo e da escola, mas qual quê? Ainda são piores. Por vezes sinto que remo contra a maré.
Jovens? É só velhas irreformadas e velhos de andarilho mental!
Quarentões/cinquentões de andarilho.
Se a Catarina Pires quer mesmo uma resposta para a pergunta que faz, deve explicar qual a sua definição de «escola».
Essa é fácil: local ou spot de amigos de boné revirado, locus de socialização ao telemóvel ainda não roubado ou furtado, conforme a justiça.
Os docentes têm que fazer formação. Agora se a usam, isso já é outra questão. As direções das escolas deviam abrir os olhos e darem as turmas a quem realmente apresenta bons resultados e tem bom relacionamento com os alunos. Qual é o sentido de dar disciplinas à “velharia” só porque estão à frente na lista graduada e depois têm um péssimo relacionamento com os alunos e os resultados são péssimos??? Na minha escola insistem em dar anos de exame a uma determinada pessoa (primeira da lista), mas que percebe menos do assunto que os alunos. Este ano a média não foi além dos 3 valores nessa disciplina! E eu que tive alunos com 20 no exame nacional, estou com H0!
Têm de, Senhora Professora…
Orquidea: muita soberba e pouca educação.
Não entendi, quem é que tem pouca educação. Espero que não se esteja a referir a mim. Eu admiti o erro de português.
obrigada pelo reparo Ab sinto. É que como professora de FQ, às vezes lá escorrega uma calinada
Desculpe, há muitos professores jovens péssimos.
Também tem razão. Mas só posso falar da realidade que conheço. Na minha escola o caruncho instalou-se e não dão lugar a ninguém. É sempre mais do mesmo. Não admitem nada de novo, não admitem que um professor mais novo possa dominar as novas tecnologias enquanto que elas não conseguem usar uma máquina gráfica. E, eu também já não vou para nova.
Numa situação da nova escola como na Finlândia não queria um filho meu!!!
Não acredito na aprendizagem pelo lúdico sem esforço…