Caro Professor Marcelo Rebelo de Sousa,
Começo por referir que acompanho os seus comentários com interesse pois considero que, regra geral, elabora uma análise objetiva da realidade.
Entristeceu-me pois, a forma como abordou a temática da alteração nova proposta de regulamentação do concurso de professores.
Primeiro, quando o professor Marcelo referiu no programa de dia 26 de Fevereiro que o universo de professores contratados afetados com a perda da 1ª prioridade para os docentes do ensino particular com contrato de associação seriam todos os que lhe enviaram a pergunta, ou seja 200, venho informar que serei apenas mais uma dos 30.000 professores que com esta alteração da prioridade no concurso de professores serei preterida por professores que tenham tido 4 contratos anuais nos últimos 6 nas escolas particulares com contrato de associação.
Desde criança que preferia brincar com o giz e quadro do que com as bonecas que possuía. Assim, contra todas as estatísticas do desemprego, ingressei na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. No quarto ano somos informados que o estágio, que iríamos realizar após as férias, deixou de ser remunerado e, por este facto, os 365 dias de serviço não seriam contabilizados.
Realizei o estágio e terminei sem qualquer tempo de serviço. Nos anos seguintes continuei a lutar para voltar a ensinar e desde 2006 já foi mediadora cultural numa biblioteca escolar, formadora de Expressão Plástica, formadora de Cidadania e Profissionalidade, Formadora de Cultura Língua e Comunicação e Formadora de História da Cultura e das Artes. Em 2009 deixei as funções de formadora de Cidadania e Profissionalidade para ingressar no ensino público. Nesse CNO ficaram em funções colegas de profissão que se mantiveram a ganhar melhor e a habitar perto de casa. Mas eu pretendia concretizar o meu sonho e optei pela incerteza do futuro e sentimento de realização do presente. Nesse ano dei aulas em três escolas, sempre a receber como não profissionalizada pois não tinha 365 dias de leccionação em escolas públicas.
Este ano por alterações curriculares a minha área disciplinar vê a carga horária, já insuficiente para leccionar os conteúdos programáticos, diminuída. O governo apressa-se a colocar uma adenda à legislação que prevê o não pagamento por extinção do contrato.
Em Setembro, não entro no ensino público, e consigo ingressar numa escola privada no Alentejo. Apesar de serem apenas 16 horas semanais, aceito a oportunidade. Recebo no final do mês mais uma infeliz notícia: as categorias tinham sido alteradas e já não iria passar para o escalão seguinte. Apesar de mal ganhar para pagar as despesas, ai estive dois meses.
Em Novembro recebo um email: entrara na terceira cíclica (10 horas em Santarém). Ponderei e, considerando que a não aceitação provavelmente significaria perder a primeira prioridade com tanta dificuldade adquirida, reingresso no ensino público. Atualmente percorro 200 Km três vezes por semana para lecionar 10 horas e assim manter a prioridade.
No mês passado solicito esclarecimentos à Secretaria pelo facto de me manter a receber como não profissionalizada, apesar de ter já leccionado 365 dias no ensino público, e prontamente me colocam uma informação do governo anterior que congela as progressões. Receber como professora profissionalizada, que sempre fui, era considerado uma progressão.
Este mês recebo um email sobre a temática que me levou a contata-lo. Sou pontual, assídua, dedicada e empenhada nas aulas e na vida escolar; abdiquei de muito na minha vida pessoal em prol do ensino; e a recompensa será o DESEMPREGO. Enquanto isso, os meus colegas ingressaram no ensino privado com critérios subjetivos e tranquilamente ai permaneceram até receber uma choruda indemnização pelo despedimento, irão encabeçar a lista de colocações. Termino pedindo desculpa pelo desabafo, mas não sei mais como reagir perante documentos que com parcas linhas me destruíram a vida.
Com os melhores cumprimentos,
Tânia Bilreiro
Nota: negritos e sublinhados da minha autoria.




11 comentários
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Força Tânia! Compreendo-te tão bem!
Como eu te entendo!!! Muda o governo, mudam as regras!!! Raios os parta a todos!!!
Coragem! Estamos contigo!
Desde 2002 q assisto a tantas alterações. Primeiro só tinha o estágio vou recambiada para a 2.ª prioridade. Depois, concorro a todo país: 12 horas a 550Km de casa. Venho1 vez a casa. Apanho 3 boleias, para conseguir apanhar a camioneta… As camionetas – 3… Ano seguinte, mais uma aventura, a 600km de casa e só a partir de meio do 2.º período. Mais 80km para ir duas vezes por semana a uma escola do primeiro ciclo: não pude recusar estas horas, pois faziam parte integrante do horário. Venho 2 vezes a casa. Ano seguinte o maior pesadelo 8h, a 450km de casa! Apanhar uma boleia, para apanhar um comboio, q me traz apenas até ao Porto. E do Porto? Boleia, táxi, pai…Com 1 horário destes venho 3 vezes a casa!!!! Ano seguinte, finalmente, quase em casa. O único ano de paz – poucas horas – mas salvo quando fico doente, venho uma vez por semana a casa. Ano seguinte o terror. Nova terra sem transportes: boleia para apanhar um comboio. A mesma saga, só até ao Porto. E o último ano, 3 autocarros ou 2 comboios, com um horário misto: a sair às 24h e a entrar às 8h10 do dia seguinte. Não queres – não aceites. E agora isto?!!!!
Tânia
A tua história é igual à minha..sem tirar nem por..
Abraço
A
Tânia, a tua história é igual à de uns milhares de professores contratados.
Mas o que é isto ? Aparece aqui cada um, que até parece mentira ! É melhor ir queixar-se ao Tozé Martinho, que é capaz de escrever uma novela que nos faça chorar a todos. Minha senhora, há aqui indivíduos há dezenas de anos a contrato, quase na miséria com os gastos em combustível, alojamento, etc., etc… e vem-me com esta lamechice ?
Santa paciência…
O caro colega, temos todos direito a lamechas…. ou não, talvez seja melhor pedir a quem de direito para colocarem como prioridade 1 pessoas com mais de 10 anos de serviço em horários anuais e completos nos últimos 12? A história da colega é igual a muitas outras, com menos ou mais tempo de serviço, isso agora n interessa, interessa sim dizer que se entra na “carreira” com uma perspectiva de luta, pois sabe-se que não é facil, mas que temos algumas garantias em certas questões, e daí n se optar por, p.ex. ir para o privado. E qual é o mal? O mal é termos tido várias fases na vida educativa em que muitos de nós se esquece que quando começou, começou com “ZERO” e por sorte ou azar todos temos experiencias próprias que podem ser diferentes ou iguais a cada um que as lê, mas devemos respeitá-las… A mim quem me dera ter apanhado a era do Guterres em que todos os contratados passaram para os quadros??? Mas não sou dessa era, por isso luto e quero que lutem para que as espectativas de ingresso sejam respeitadas, e é isso que a colega faz referência. Se ficarmos todos a coçar para dentro, aí sim fazem de nós tudo que quizerem, claro sempre alguns achando-se “Intocáveis” pensam que não é bem assim… Enfim….
Tânia estou solidária contigo!
Como eu me revejo no teu testemunho…
Força colega Tânia escreva sempre e fale do seu problema, porque somos 30 000. Obrigada pela sua coragem, que muito falta na classe de professores. Estamos contigo de Norte a Sul. Boa Sorte Colega. E se quiserem passar para a LUTA! Eu aceito.
Ó D., quem lhe disse a si que no tempo do Guterres todos os contratados passaram a quadros ? Que idade tem ? Quem lhe contou ?