PRIORIDADES TROCADAS: VALORIZAR DIRETORES E CONTINUAR A NÃO VALORIZAR PROFESSORES – José Pereira da Silva

 

Há coisas que, sinceramente, não consigo entender e muito menos aceitar.

Pensar sequer em colocar a remuneração de um diretor de agrupamento de escolas ao nível de um dirigente superior da Administração Pública seria, para mim, um verdadeiro ultraje.

E importa dizer aquilo que todos conhecemos, não temos falta de diretores, mas sim falta de professores.

Os diretores podem permanecer vários mandatos nos cargos e, quando atingem o limite legal, não é raro vermos a continuidade das mesmas pessoas ou das mesmas equipas, o subdiretor que passa a diretor e vice-versa ou o diretor que procura outro agrupamento para continuar a exercer o cargo. Isto diz alguma coisa sobre a atratividade destas funções. Até há diretores que pedem para permanecer nos cargos para lá dos 70 anos.
Acredito que muitos continuariam a querer exercer o cargo, mesmo, sem a atual compensação. Não me parece também que seja a remuneração que explique, por si só, a procura e a permanência nestas funções.

A prioridade é resolver a falta de professores e não aumentar as compensações dos diretores e respetivas equipas.
Faltam professores porque a carreira deixou de ser atrativa. Porque os salários perderam poder de compra. Porque a progressão foi congelada durante anos.
Porque ainda estamos a recuperar o tempo de serviço congelado. A última tranche só chegará em 1 de julho de 2027.
Porque o reposicionamento docente, de acordo com o tempo de serviço efetivamente prestado, continua por concretizar. Foi necessária uma Iniciativa Legislativa de Cidadãos, promovida por nós, para levar esta questão à Assembleia da República.
Foram anos de luta, reuniões, contactos, assinaturas e trabalho voluntário de professores para defender aquilo que consideramos ser um direito.
Neste contexto falar em reforçar significativamente a remuneração dos diretores e das suas equipas é simplesmente um absurdo.
Que prioridades são estas?
Acho, mesmo, que deve haver algum tipo de compensação para as responsabilidades acrescidas dos coordenadores de departamento, dos diretores de turma, dos coordenadores do secretariado de exames e outros colegas que assumem funções adicionais.
Mas uma coisa é compensar responsabilidades,
outra é criar uma diferença tão grande entre a valorização de quem dirige e a valorização de quem ensina.
Não é dando mais poder ao diretor nem aumentando significativamente a sua remuneração que vamos resolver a falta de professores.
Se queremos atrair jovens para a profissão, temos de valorizar a carreira docente.
Se queremos manter os professores que ainda temos, temos de valorizar a carreira docente.
Se queremos que os professores sintam que vale a pena continuar, temos de valorizar a carreira docente.
Uma escola precisa de liderança, naturalmente. Mas precisa, antes de tudo, de professores.
E, quando faltam professores, considero uma completa inversão de prioridades pensar primeiro em aumentar a remuneração de quem dirige as escolas, enquanto quem está diariamente na sala de aula continua à espera de recuperar direitos, tempo de serviço e valorização profissional.
Não faltam diretores. Faltam professores.
…

José Pereira da Silva

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4 comentários

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    • carlos moreira on 24 de Setembro de 2026 at 19:17
    • Responder

    Boa ! Muito bem dito!
    O grande problema da escola publica também está nestes “diretores”, 95% deles medíocres!!!
    Voltamos ao mesmo!

    • Mainada on 24 de Setembro de 2026 at 22:00
    • Responder

    Entre 3 e 5 anos vamos todos tratar do que resta das nossas vidas. Nessa altura, os governantes que empurram o problema com a barriga e a sociedade que se acha melhor do que nós, vão todos levar as mãos à cabeça. E vai ser de rir! Não tenho pena nenhuma.

    • FilipeSRPinto on 24 de Setembro de 2026 at 23:58
    • Responder

    Ultraje?! Claramente, não sabe o que diz.
    Os Diretores andam a ser explorados há anos. Gerem, administram, “grandes empresas”, algumas de mais 400 funcionários, entre professores, assistentes operacionais, técnicos, “aturam” facilmente 2500 encarregados de educação (que acham que têm todos os direitos do mundo e zero deveres com os seus educandos) queixas, denúncias por nada, apenas porque sim (e porque a ignorância é sempre atrevida, não é?), inspetores que obrigatoriamente tem de investigar mesmo que não haja nada investigar (alguns não conseguem esconder o embaraco, pois é, mas tem de ir e chatear, investigar e fazer perder tempo em pronúncias e audições), afundados diariamente em plataformas estéreis, concursos, renúncias a horarios, correção de erros nas progressões de novos colegas no agrupamento (que não tem culpa nenhuma que lhes tenham feito mal as contas e que não tenham sido avaliados – “é a vida das pessoas que está em jogo e eu agora sou responsável por isso” , diz ela), passam facilmente 10 horas na escola todos os dias, não tem noites (porque há sempre um e-mail da tutela a cair à meia-noite, para responder a qualquer coisa até ao meio-dia seguinte) não têm fins de semana porque durante a semana o tempo não chega, reuniões infindáveis (com tutela) em formato solilóquio, sim porque agora com os webinares é ouvir e calar. E podia continuar… Não têm (da tutela) quem lhes responda a coisa nenhuma, não há telefones, não há respostas a e-mails, há apenas plataformas quase sempre inúteis, que vão funcionando a caroços de azeitona… E, como se não chegasse, não têm ninguém que os defenda, qual Filinto qual carapuça – esse papagaio ignorante a quem os OCS continuam a dar palco sem que ninguém saiba afinal quantos diretores representa a sua associação, qual a sua legitimidade para falar em nome dos diretores? Quantos representa? 40, 50? 10% dos diretores? E qual sindicato? (afinal os diretores não são professores também?) Não! Para os professores (professores como este articulista, presumo), os diretores são apenas porreiros quando fazem uns horários fixes, de resto são ditadores, para a tutela são carne para canhão, aqueles que tem de dar a cara perante a opinião pública (os pais, os professores, os funcionários) e resolver problemas que não criaram. Alguns, ainda estão no quarto ou quinto escalão, com a subvenção de diretor sobem de escalão de irs e ainda ganham menos ou tanto quanto os seus colegas de escalão que não são diretores… Podia continuar… Podia continuar porque numa vida longa de casamento com uma diretora no cargo praticamente há 20 anos (com um de interrupção – burnout), continuo a questionar-me, como pode? Como pode alguém aguentar tanto trabalho, tanta pressão, tanta responsabilidade, tanta incompreensão, tanta solidão? Tudo isso, sem, pelo menos, uma compensação mínimamente justa?
    E vem falar de ultraje?! Ultrajante é o seu desconhecimento da realidade, é a sua ignorância. E, como sempre, é ultrajante o atrevimento de se falar de cor. Opinião qualquer um tem, agora, opinião estruturada substantiva obriga a investigar um pouco mais e a ser justo. Justo! Meter tudo no mesmo saco não o é! Há seguramente muitos diretores que não merecem aquilo que ganham; mas felizmente para este país, essa é a exceção, não a regra.
    Os professores são melhores na função se forem felizes. Claro que sim. Os diretores também! A carreira dos professores, pelas mãos deste governo, foi reparada e entrou nos eixos. Apesar da vertigem reformista atabalhoada, Estes governantes pelo menos tiveram a coragem de pegar neste assunto do estatuto dos diretores. Mais do que merecido! Mas em que é que isso colide com o investimento nos professores? (Também sou, já agora).
    Pena que, para alguns, diretor é para abater, tal como eram os patrões no pós 25 de abril, fossem eles bons ou maus. Que tristeza.

    • Zesemfiltro on 25 de Setembro de 2026 at 0:27
    • Responder

    Em resposta ao artigo, partilho o que li algures e que traduz a verdade dos diretores a quem tudo se exige:
    “O diretor que não consegue tirar férias Num país que valoriza a educação como pilar essencial da sociedade, é paradoxal que um diretor de uma escola pública não consiga usufruir das suas férias merecidas. A lei reconhece-lhe esse direito, mas a realidade diária insiste em negá-lo. Entre processos administrativos que não podem esperar, decisões urgentes que recaem exclusivamente sobre a sua responsabilidade e a constante pressão para garantir que tudo funciona, o diretor vê o seu descanso transformado numa miragem. A escola não fecha quando ele tenta parar. Os e-mails continuam a chegar, os problemas continuam a surgir, e a expectativa — muitas vezes implícita, outras vezes explicitamente exigida — é de que esteja sempre disponível. A sua ausência, ainda que legítima, é tratada como um risco para o funcionamento da instituição. Assim, o direito às férias, que deveria ser um espaço de recuperação física e emocional, converte-se num período de trabalho disfarçado, feito à distância, ao telemóvel, entre interrupções e preocupações. Este cenário não é apenas injusto; é insustentável. Um diretor exausto não lidera melhor, não decide melhor, não protege melhor a comunidade escolar. A sobrecarga contínua compromete a qualidade da gestão, afeta a saúde e cria uma cultura perigosa: a ideia de que quem dirige uma escola deve sacrificar a própria vida pessoal para garantir o funcionamento da instituição. É urgente reconhecer que o descanso não é um luxo, mas uma necessidade. Uma escola pública só é verdadeiramente forte quando quem a dirige tem condições para recuperar energias .”
    merecem muito mais do que o abandono e a solidão em que vivem !

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