Há coisas que, sinceramente, não consigo entender e muito menos aceitar.
Pensar sequer em colocar a remuneração de um diretor de agrupamento de escolas ao nível de um dirigente superior da Administração Pública seria, para mim, um verdadeiro ultraje.
E importa dizer aquilo que todos conhecemos, não temos falta de diretores, mas sim falta de professores.
Os diretores podem permanecer vários mandatos nos cargos e, quando atingem o limite legal, não é raro vermos a continuidade das mesmas pessoas ou das mesmas equipas, o subdiretor que passa a diretor e vice-versa ou o diretor que procura outro agrupamento para continuar a exercer o cargo. Isto diz alguma coisa sobre a atratividade destas funções. Até há diretores que pedem para permanecer nos cargos para lá dos 70 anos.
Acredito que muitos continuariam a querer exercer o cargo, mesmo, sem a atual compensação. Não me parece também que seja a remuneração que explique, por si só, a procura e a permanência nestas funções.
A prioridade é resolver a falta de professores e não aumentar as compensações dos diretores e respetivas equipas.
Faltam professores porque a carreira deixou de ser atrativa. Porque os salários perderam poder de compra. Porque a progressão foi congelada durante anos.
Porque ainda estamos a recuperar o tempo de serviço congelado. A última tranche só chegará em 1 de julho de 2027.
Porque o reposicionamento docente, de acordo com o tempo de serviço efetivamente prestado, continua por concretizar. Foi necessária uma Iniciativa Legislativa de Cidadãos, promovida por nós, para levar esta questão à Assembleia da República.
Foram anos de luta, reuniões, contactos, assinaturas e trabalho voluntário de professores para defender aquilo que consideramos ser um direito.
Neste contexto falar em reforçar significativamente a remuneração dos diretores e das suas equipas é simplesmente um absurdo.
Que prioridades são estas?
Acho, mesmo, que deve haver algum tipo de compensação para as responsabilidades acrescidas dos coordenadores de departamento, dos diretores de turma, dos coordenadores do secretariado de exames e outros colegas que assumem funções adicionais.
Mas uma coisa é compensar responsabilidades,
outra é criar uma diferença tão grande entre a valorização de quem dirige e a valorização de quem ensina.
Não é dando mais poder ao diretor nem aumentando significativamente a sua remuneração que vamos resolver a falta de professores.
Se queremos atrair jovens para a profissão, temos de valorizar a carreira docente.
Se queremos manter os professores que ainda temos, temos de valorizar a carreira docente.
Se queremos que os professores sintam que vale a pena continuar, temos de valorizar a carreira docente.
Uma escola precisa de liderança, naturalmente. Mas precisa, antes de tudo, de professores.
E, quando faltam professores, considero uma completa inversão de prioridades pensar primeiro em aumentar a remuneração de quem dirige as escolas, enquanto quem está diariamente na sala de aula continua à espera de recuperar direitos, tempo de serviço e valorização profissional.
Não faltam diretores. Faltam professores.
…
José Pereira da Silva





12 comentários
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Boa ! Muito bem dito!
O grande problema da escola publica também está nestes “diretores”, 95% deles medíocres!!!
Voltamos ao mesmo!
um dos grandes problemas, para além dos pais, são os diretores (muitos incapazes, prepotentes e sem qualquer noção de gestão e liderança). É o que temos. e já passei por umas quantas escolas
Entre 3 e 5 anos vamos todos tratar do que resta das nossas vidas. Nessa altura, os governantes que empurram o problema com a barriga e a sociedade que se acha melhor do que nós, vão todos levar as mãos à cabeça. E vai ser de rir! Não tenho pena nenhuma.
subscrevo completamente as suas palavras. Uma vez mais, com medidas como esta, o ME continua a mostrar que não quer ajudar a resolver o problema mais premente que é a falta de atratividade da profissão docente. Enquanto o entendimento for que a aposta na melhoria das condições da profissão é uma despesa e não um investimento no futuro dos jovens, continuaremos a assistir a um agravamento dos problemas: alunos sem professores, desgaste e falta de rejuvenescimento na profissão docente.
Ultraje?! Claramente, não sabe o que diz.
Os Diretores andam a ser explorados há anos. Gerem, administram, “grandes empresas”, algumas de mais 400 funcionários, entre professores, assistentes operacionais, técnicos, “aturam” facilmente 2500 encarregados de educação (que acham que têm todos os direitos do mundo e zero deveres com os seus educandos) queixas, denúncias por nada, apenas porque sim (e porque a ignorância é sempre atrevida, não é?), inspetores que obrigatoriamente tem de investigar mesmo que não haja nada investigar (alguns não conseguem esconder o embaraco, pois é, mas tem de ir e chatear, investigar e fazer perder tempo em pronúncias e audições), afundados diariamente em plataformas estéreis, concursos, renúncias a horarios, correção de erros nas progressões de novos colegas no agrupamento (que não tem culpa nenhuma que lhes tenham feito mal as contas e que não tenham sido avaliados – “é a vida das pessoas que está em jogo e eu agora sou responsável por isso” , diz ela), passam facilmente 10 horas na escola todos os dias, não tem noites (porque há sempre um e-mail da tutela a cair à meia-noite, para responder a qualquer coisa até ao meio-dia seguinte) não têm fins de semana porque durante a semana o tempo não chega, reuniões infindáveis (com tutela) em formato solilóquio, sim porque agora com os webinares é ouvir e calar. E podia continuar… Não têm (da tutela) quem lhes responda a coisa nenhuma, não há telefones, não há respostas a e-mails, há apenas plataformas quase sempre inúteis, que vão funcionando a caroços de azeitona… E, como se não chegasse, não têm ninguém que os defenda, qual Filinto qual carapuça – esse papagaio ignorante a quem os OCS continuam a dar palco sem que ninguém saiba afinal quantos diretores representa a sua associação, qual a sua legitimidade para falar em nome dos diretores? Quantos representa? 40, 50? 10% dos diretores? E qual sindicato? (afinal os diretores não são professores também?) Não! Para os professores (professores como este articulista, presumo), os diretores são apenas porreiros quando fazem uns horários fixes, de resto são ditadores, para a tutela são carne para canhão, aqueles que tem de dar a cara perante a opinião pública (os pais, os professores, os funcionários) e resolver problemas que não criaram. Alguns, ainda estão no quarto ou quinto escalão, com a subvenção de diretor sobem de escalão de irs e ainda ganham menos ou tanto quanto os seus colegas de escalão que não são diretores… Podia continuar… Podia continuar porque numa vida longa de casamento com uma diretora no cargo praticamente há 20 anos (com um de interrupção – burnout), continuo a questionar-me, como pode? Como pode alguém aguentar tanto trabalho, tanta pressão, tanta responsabilidade, tanta incompreensão, tanta solidão? Tudo isso, sem, pelo menos, uma compensação mínimamente justa?
E vem falar de ultraje?! Ultrajante é o seu desconhecimento da realidade, é a sua ignorância. E, como sempre, é ultrajante o atrevimento de se falar de cor. Opinião qualquer um tem, agora, opinião estruturada substantiva obriga a investigar um pouco mais e a ser justo. Justo! Meter tudo no mesmo saco não o é! Há seguramente muitos diretores que não merecem aquilo que ganham; mas felizmente para este país, essa é a exceção, não a regra.
Os professores são melhores na função se forem felizes. Claro que sim. Os diretores também! A carreira dos professores, pelas mãos deste governo, foi reparada e entrou nos eixos. Apesar da vertigem reformista atabalhoada, Estes governantes pelo menos tiveram a coragem de pegar neste assunto do estatuto dos diretores. Mais do que merecido! Mas em que é que isso colide com o investimento nos professores? (Também sou, já agora).
Pena que, para alguns, diretor é para abater, tal como eram os patrões no pós 25 de abril, fossem eles bons ou maus. Que tristeza.
Em resposta ao artigo, partilho o que li algures e que traduz a verdade dos diretores a quem tudo se exige:
“O diretor que não consegue tirar férias Num país que valoriza a educação como pilar essencial da sociedade, é paradoxal que um diretor de uma escola pública não consiga usufruir das suas férias merecidas. A lei reconhece-lhe esse direito, mas a realidade diária insiste em negá-lo. Entre processos administrativos que não podem esperar, decisões urgentes que recaem exclusivamente sobre a sua responsabilidade e a constante pressão para garantir que tudo funciona, o diretor vê o seu descanso transformado numa miragem. A escola não fecha quando ele tenta parar. Os e-mails continuam a chegar, os problemas continuam a surgir, e a expectativa — muitas vezes implícita, outras vezes explicitamente exigida — é de que esteja sempre disponível. A sua ausência, ainda que legítima, é tratada como um risco para o funcionamento da instituição. Assim, o direito às férias, que deveria ser um espaço de recuperação física e emocional, converte-se num período de trabalho disfarçado, feito à distância, ao telemóvel, entre interrupções e preocupações. Este cenário não é apenas injusto; é insustentável. Um diretor exausto não lidera melhor, não decide melhor, não protege melhor a comunidade escolar. A sobrecarga contínua compromete a qualidade da gestão, afeta a saúde e cria uma cultura perigosa: a ideia de que quem dirige uma escola deve sacrificar a própria vida pessoal para garantir o funcionamento da instituição. É urgente reconhecer que o descanso não é um luxo, mas uma necessidade. Uma escola pública só é verdadeiramente forte quando quem a dirige tem condições para recuperar energias .”
merecem muito mais do que o abandono e a solidão em que vivem !
Convinha ler o que ontem foi escrito neste Blog: aprendia alguma coisa e não debitava uma verborreia que roça a estultícia. Se está mal resolvido, não escreva em público, pois os disparates não servem de catarse
Discordo profundamente da ideia de que valorizar a remuneração dos diretores escolares representa uma afronta aos professores. Esta é uma falsa escolha. Uma escola de qualidade precisa de professores motivados, mas também de lideranças competentes, capazes de gerir organizações cada vez mais complexas, com milhares de alunos, centenas de profissionais e enormes responsabilidades administrativas e financeiras.
Não devemos cair na tentação de colocar professores e diretores uns contra os outros. É evidente que a carreira docente precisa de ser valorizada, de recuperar atratividade e de reconhecer justamente o trabalho de quem ensina. Mas reconhecer a importância dos professores não obriga a negar a exigência e a responsabilidade de quem dirige as escolas. Um sistema educativo forte exige a valorização de todos os seus profissionais.
O verdadeiro debate não é escolher entre investir nos professores ou nos diretores. O verdadeiro debate é saber como construir escolas mais eficazes, mais atrativas e mais capazes de responder aos desafios do futuro. Transformar esta questão numa guerra entre quem ensina e quem lidera é um erro. O país precisa de bons professores, sem dúvida, mas também precisa de bons diretores. E ambos merecem reconhecimento à altura das funções que desempenham.
Limito-me a responder com o conteúdo do post anterior:
“Porque há uma coisa que já ninguém pode fingir que não sabe. O diretor de um agrupamento de escolas não é hoje o mesmo diretor que existia quando o Decreto-Lei n.º 75/2008 entrou em vigor. O cargo transformou-se profundamente. O diretor passou a ser responsável por uma máquina administrativa, pedagógica, financeira, patrimonial, disciplinar e de recursos humanos de enorme complexidade. Gere milhares de alunos, centenas de trabalhadores, dezenas de estabelecimentos, orçamentos, contratos, obras, horários, turmas, conflitos, segurança, plataformas digitais, famílias e uma interminável sucessão de solicitações vindas de serviços centrais, regionais, municípios e outras entidades.”
Discordo da forma como esta questão é colocada, sobretudo porque me parece partir de uma falsa oposição: como se valorizar quem dirige significasse necessariamente não valorizar quem ensina.
Há uma frase publicada num post anterior neste mesmo espaço que, para mim, coloca a discussão no ponto certo: “Porque há uma coisa que já ninguém pode fingir que não sabe. O diretor de um agrupamento de escolas não é hoje o mesmo diretor que existia quando o Decreto-Lei n.º 75/2008 entrou em vigor. O cargo transformou-se profundamente. O diretor passou a ser responsável por uma máquina administrativa, pedagógica, financeira, patrimonial, disciplinar e de recursos humanos de enorme complexidade. Gere milhares de alunos, centenas de trabalhadores, dezenas de estabelecimentos, orçamentos, contratos, obras, horários, turmas, conflitos, segurança, plataformas digitais, famílias e uma interminável sucessão de solicitações vindas de serviços centrais, regionais, municípios e outras entidades.”
E é precisamente aqui que deve começar o debate.
Hoje, dirigir um agrupamento significa assumir responsabilidades pedagógicas, administrativas, financeiras, patrimoniais, disciplinares e de recursos humanos de uma dimensão que dificilmente pode ser comparada com aquela que existia quando o atual modelo de gestão foi criado.
Não se trata, portanto, de perguntar se devemos valorizar professores ou diretores.
Devemos valorizar os professores, recuperar e dignificar a carreira docente, tornar a profissão mais atrativa e reconhecer adequadamente quem assume responsabilidades adicionais — diretores de turma, coordenadores, responsáveis por exames e tantas outras funções essenciais.
Mas devemos também discutir seriamente se as responsabilidades hoje colocadas sobre diretores, subdiretores e adjuntos têm correspondência no respetivo estatuto, condições de exercício e remuneração.
Uma coisa não exclui a outra.
o malharal vai revoltar-se!
O ministro começa bem. Pelos diretores porque são eles que criam o ambiente na escola, favorável ou desfavorável. É científico. Muitos faltam porque têm burnout causado por erros de gestão. Claro que desde 2015, os diretores foram instigados pela tutela para destruir o funcionamento e relações nas escolas. Funcionou bem.
Agora, é preciso reverter isso. Dar aos diretores mais autonomia e mais salário é necessário para que a paz volte às escolas e a literacia dos alunos comece a recuperar do retrocesso de 25 anos, causado em apenas 8. A seguir virão os professores, mais salário outras condições de trabalho, mas com responsabilização por resultados. Mais literacia desenvolvida nos alunos.
Porque mais literacia significa melhores vidas futuras, com mais saúde e produtividade.