12 de Setembro de 2026 archive

Os selvagens aprenderam. – João André Costa

 

Durante anos ouvimos falar deles.
Dos ingleses.
Dos alunos ingleses, quero dizer.
Como se fossem uma espécie particular de adolescente produzido pela geografia para testar a paciência dos professores: indisciplinados, mal-educados, agressivos, incapazes de permanecer sentados cinco minutos sem transformar uma sala de aula numa pequena guerra civil, criaturas indomáveis a chegar à escola (isto quando vão à escola) de telemóvel na mão, auscultadores nos ouvidos e nenhuma intenção de aprender.
Selvagens, ou quase, filhos de um sistema permissivo, de professores sem autoridade e de escolas onde ninguém consegue mandar verdadeiramente em ninguém.
E, no entanto, há qualquer coisa de profundamente desconcertante quando se olha para os recentes resultados do PISA.
Porque aqueles selvagens, aqueles adolescentes supostamente impossíveis, aqueles alunos na boca de tantos como exemplo de tudo quanto a escola não deve ser, estão entre os dez melhores do mundo.
Sim, entre os dez melhores do mundo e não, não é uma realidade paralela.
Sou português, ensino em Inglaterra e esta posição tem qualquer coisa de esquizoide ao obrigar a olhar para dois lugares ao mesmo tempo.
Trago comigo a escola portuguesa: os corredores, o ruído das salas, os professores extenuados, as reuniões, os programas em mudança constante, para não dizer rotativa, mais as reformas anunciadas como se trouxessem dentro delas a salvação para desaparecerem logo de seguida com a discrição de quem nunca chegou a ser.
E sim, encontro aqui muitos dos mesmos problemas.
Alunos constantemente atrasados à escola, atrasados às aulas, atrasados para esta vida nem por isso sua, para de imediato e ainda à porta da sala perguntarem se podem ir à casa de banho enquanto olham para o relógio como se o relógio estivesse em dívida para consigo.
E de outro modo não poderia ser quando se passa a noite de volta da PlayStation, do TikTok e do Snap em telemóveis topo de gama mais o ChatGPT para lhes dizer tudo quanto deveriam aprender.
Não são génios, são adolescentes em tudo distantes de Shakespeare ou de uma epifania sobre a fotossíntese depois de resolverem uma equação quadrática.
São miúdos. Alguns maravilhosos, outros difíceis, muitos indiferentes, outros tantos perdidos.
Alguns são capazes de nos surpreender numa Terça-feira às dez e vinte da manhã só para fazer perder a cabeça de quem vos escreve às dez e vinte e cinco.
Juntemos a isto professores sobrecarregados, falta de recursos, desigualdade social, pobreza, absentismo e não temos apenas crianças a entrar numa sala, mas vidas incapazes de caber numa ficha de matemática, vidas sem saber como fugir quando se pede mais pensamento crítico, e crítico é o fim do dia de quem não quer voltar a casa.
E talvez esta seja precisamente a questão.
Como consegue uma escola obter resultados tão bons com alunos nem por isso diferentes dos alunos portugueses?
Comecemos pela insistência institucional de como uma escola deve ensinar entre literacia, numeracia, história, factos, regras e conceitos.
Sem medo.
Foi essa uma das mudanças associadas aos governos de David Cameron e, particularmente, a Michael Gove e Nick Gibb: maior peso curricular, maior exigência académica, reforço das disciplinas fundamentais, maior importância dos exames do final do Ensino Secundário (GCSEs), numa cultura de avaliação e responsabilização.
Não foi uma revolução, foi uma mudança de direcção.
E as direcções, quando mantidas durante tempo suficiente, chegam sempre ao sítio aonde as esperam.
A Inglaterra deu maior importância ao inglês, à matemática, às ciências, à história, à geografia, às línguas.
Reduziu em muitos GCSEs a importância do trabalho ao longo do ano e devolveu aos exames uma parte do seu peso.
E sim, é possível criticar isto tudo.
Eu próprio não posso estar plenamente de acordo se a escola olha para os alunos como percentagens e tabelas.
Uma criança não é um dezassete, muito menos um quatorze e nunca um oito.
Não obstante, olhemos para a cultura e deixemos os rankings de lado.
Isto porque em Inglaterra ouço muitas vezes uma pergunta:
“What does the evidence say?“
O que dizem os factos?
Não o que penso.
Não aquilo que sempre fizemos.
O que dizem os resultados?
O que é que funcionou?
Com quem?
Em que circunstâncias?
Durante quanto tempo?
É uma pergunta irritante.
Ainda bem.
Porque a didáctica educativa precisa, de vez em quando, de um confronto com a realidade.
Portugal tem professores extraordinários. Conheci professores portugueses capazes de ensinar uma turma inteira com quase nada, capazes de inventar materiais, ficar depois da aula, depois do dia, depois da noite, sempre disponíveis para os pais enquanto corrigem trabalhos e exames ao fim-de-semana, durante as férias, e tudo isto para poderem chegar à escola na Segunda-feira na certeza de não faltar absolutamente nada.
Mas um sistema educativo não pode depender eternamente do heroísmo.
Não podemos construir uma escola como quem constrói um barco e depois esperar ser o professor simultaneamente o motor, o leme e o salva-vidas.
E os números portugueses estão aí: em 2025, os resultados em matemática, leitura e ciências regressaram aos níveis de 2006.
Isto não é uma estatística, são salas de aulas com crianças incapazes de compreender um problema ou perceber quanto está escrito enquanto chegam ao Secundário sem conhecimentos de base.
E por isso talvez a pergunta esteja mal formulada.
Em vez de perguntarmos a razão para a queda de Portugal, talvez devêssemos perguntar qual a razão para Inglaterra não cair da mesma maneira?
A diferença é pequena na frase, mas enorme na consequência.
Porque por terras de Sua Majestade uma reforma pode ser discutida, combatida, aplicada, avaliada.
Depois o governo muda, algumas coisas mudam, é inevitável, mas nem tudo começa outra vez.
Os ideais permanecem: avaliação, exigência, responsabilização, expectativa.
Sim, expectativa.
Porque a questão nunca é “Será que ele consegue?”, mas antes “Como é que o vamos levar até lá?”.
E a expectativa muda o professor.
Muda a aula.
Muda o aluno.
E, ao fim de dez anos, talvez mude um sistema inteiro.
Temos também cada vez menos certezas sobre a tecnologia. Se um computador pode ser uma ferramenta extraordinária, também pode ser uma maneira extraordinariamente eficiente de não aprender nada. A inteligência artificial pode explicar uma matéria a um aluno, mas também pode substituir o pensamento e fazer o trabalho inteiro por ele.
E aqui regressamos ao professor. Aquele professor a quem durante anos disseram não mais ser necessário neste advento tecnológico.
Talvez estejamos finalmente a descobrir o contrário e quanto mais ferramentas temos, mais precisamos de alguém para dizer: fecha o computador, fecha os olhos, imagina, sonha, descreve, realiza.
Um bom professor é, entre outras coisas, um porteiro: sabe quem entra e quem não entra, sabe quando facilitar e quando desafiar. Sabe reconhecer a diferença entre o aprender e o papaguear.
Portugal tem bons professores. A questão é saber se o sistema deixa ensinar.
E depois existe o tempo, o envelhecimento, a falta de professores, a dificuldade na formação e recrutamento.
O cansaço, invisível nas estatísticas lusas.
E é talvez aqui onde a comparação é mais desconfortável.
Porque a escola inglesa, durante tantos anos descrita como permissiva, caótica, povoada por adolescentes impossíveis e professores sem autoridade, conseguiu resultados em tudo contrários à sua história e reputação.
Ou seja, os selvagens aprenderam, e tudo porque alguém insistiu em ensiná-los. Porque alguém decidiu ser a criança capaz apesar de difícil num sistema onde desistir não é opção.
Portugal não precisa, nem deve, ser Inglaterra. E se por um lado não é preciso importar uma escola, por outro para quando o dia onde sejamos capazes de olhar para os outros sem este complexo de inferioridade?
Porque uma criança não se preocupa com o resultado das eleições ou com a mudança de ministro.
Uma criança não deixa de dormir porque o currículo foi reformulado. A criança, a nossa criança, chega à aula, senta-se (se tivermos sorte), e espera (cinco, quatro, três…) para alguém lhe ensinar qualquer coisa no mesmo espaço de tempo deste TikTok.
Agora a sério, não existem crianças inglesas naturalmente melhores, assim como não existem crianças portuguesas condenadas ao fracasso. Existem sistemas, decisões e, sobretudo, tempo. A capacidade de uma escola repetir durante anos, sem se envergonhar da repetição.
Porque quando fechamos a porta da sala de aula, já não temos nem Inglaterra nem Portugal. Temos uma criança diante de nós, e ela não trouxe consigo a culpa de nenhum ministro.

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