Tommy ou a má sorte de ser criança – João André Costa

 

Para nascer neste mundo é preciso ter muita sorte e sorte não é, nem nunca foi, o nome do meio do Tommy.
Aluno do oitavo ano na escola do Luís, o Tommy já viu de tudo e tudo é desde a mãe vítima de violência doméstica à toxicodependência dos pais, tudo é um par de anos em casa dos avós enquanto a mãe recupera e o pai não, e tudo é o falecimento do irmão mais novo vítima de leucemia e a hospitalização da mãe depois de mais uma intoxicação e quem diz intoxicação diz overdose.
Dir-se-ia estar o Tommy traumatizado e está, bastando a ausência de um professor ou um novo aluno na escola para levar a mais um episódio de auto-mutilação e a ansiedade na ponta das canetas, nos lápis, nas unhas, compassos e nos famosos afias a nascer do chão independentemente dos mil cuidados levados a cabo pela escola ao melhor estilo de um filme de terror.
E às vezes o Luís pensa não ter sido esta a razão para um dia se entregar ao ensino: não só para ensinar mas para cuidar do outro, a começar no aluno e a acabar na família e sociedade em redor.
E o Luís não queria ser enfermeiro, mas é, e de caminho tudo o resto e o Luís nem sequer tem filhos. Não precisa, basta ir para a escola.
Escusa é de trazer os “filhos” para casa e para as noites sem sono.
Voltando ao Tommy, a mãe teve alta hospitalar e o Tommy voltou a casa para mau grado dos serviços sociais.
Isto porque dia sim, dia não, o Luís recebia chamadas ininterruptas da assistente social a perguntar sobre o bem-estar do Tommy e se mãe está à altura da tarefa mais todas as responsabilidades intrínsecas.
De caminho, a esmerada assistente social convocou a mãe para o tribunal com o único objectivo de colocar o Tommy numa família de acolhimento e o Luís sem perceber o porquê de querer tanto mal a uma criança.
Mas com o aproximar da data do julgamento o Luís recebeu uma chamada da advogada oficiosa a perguntar da justiça do Luís e o Luís disse de sua justiça: a mãe traz o Tommy todos os dias à escola e todos os dias vem ao portão esperar pelo Tommy; sim, o Luís já foi lá a casa entregar trabalhos de casa quando o Tommy esteve doente e a casa está arrumada e em condições; não, a mãe não sabe como fazer ou reagir e a ansiedade da mesma e dos demais professores é uma constante a cada episódio de auto-mutilação; e sim, a mãe pede ajuda e, mais importante ainda, aceita a ajuda e os conselhos de quem na escola trabalha com o Tommy o dia por inteiro; sem esquecer aquando da hospitalização do Tommy a achar-se um peso para todos e a não querer mais estar presente e a mãe prontamente no hospital para render o Luís, e é sempre o Luís, como representante legal da criança.
Em suma, a mãe não tem mãos a medir nem as respostas todas, e quem são os pais com as respostas todas, e na ausência de respostas mil e uma perguntas e a mãe do Tommy pode não saber mas quer saber e está a tentar cuidar e amar apesar dos anos perdidos e por causa dos anos perdidos.
A advogada oficiosa agradeceu para dar lugar à assistente social na caixa de correio electrónico, mas como o Luís já tinha dito de sua justiça à advogada “por favor entre em contacto com a mesma” e por escrito podemos ser quem quisermos e dizer tudo quanto queremos (até começar a liberdade do outro).
Uma semana depois a advogada oficiosa foi lá à escola: estava só de passagem e queria dizer olá e obrigada em nome do Tommy à guarda da mãe por decisão do tribunal.
Por decisão do tribunal e graças ao testemunho do Luís e não é apenas uma questão de bom senso, faz sentido e é justo.
E se como professores olvidamos tantas vezes o nosso papel diante do frenesim dos dias e dos petizes ao nosso cuidado, a verdade é só uma: estamos a mudar a vida das crianças, um aluno de cada vez.
Naquele dia o Luís mudou a vida do Tommy e o Tommy nunca se esqueceu. Apesar de não dizê-lo. Não é preciso, está aqui escrito.

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4 comentários

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  1. Quer dizer então que o Tommy continuou a viver com os Pais toxicodependentes e exposto á violência doméstica que há em casa.
    Só porque a mãe ia buscá-lo á escola todos os dias o Luís pensa que sabe o que é melhor para a criança?
    Não seria melhor encontrar alguém, dentro da famiília restrita ou alargada que pudesse tomar conta do Tommy. Um avó, um tio?
    Não seria melhor encaminhar os pais para um centro de tratamento para a toxicodependência para que posteriormente reunissem condições para tomar conta da criança?
    Em último recurso, institucionalizar a criança, caso ninguém da familia pudesse tomar conta do Tommy, para a afastar do perigo, somente até os pais se conseguirem recompor e é claro nunca cortar os laços do Tommy com os Pais?
    Porque razão acha o Luís que sabe mais que as pessoas que lidam todos os dias com estas situações e as resolvem?
    É a velha história do coitadinho e de quem tem complexo de Salvador.
    Infelizmente existem professores assim.

    1. Cada caso é um caso.
      Conheço casos parecidos em que não faria sentido fazer o que o Luís fez.
      Neste caso acho de todo pertinente.
      Mas também sei que a maior parte não o faria.
      E até conheço que o faria com segundas intenções, pensando só em si. Há muitos “professores” que são uns biltres nojentos e apenas fingem cuidar para interesse pessoal disfarçado.
      Quanto ao que afirma, de o Luís saber mais ou menos do que quem lida com estas situações … conheço muitos que o fazem e que nunca o deveriam ter feito. Nem servem para assistentes sociais. Já para não falar daqueles que o dizem ser, mas que também andam a mamar pela gamela de fora.

    • Carnavais on 15 de Junho de 2025 at 8:05
    • Responder

    Mais uma historieta de meninos.., já aborrece! Li o título por ser uma inevitabilidade…

  2. Parabéns sinceros ao João André Costa.

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