Professores Portugueses: Satisfeitos… só falta descobrir com quê

Há gráficos que valem mais do que mil discursos.

Este, publicado pela OCDE no Education at a Glance 2026, é um deles. E tem uma particularidade curiosa: quanto mais olhamos para ele, mais percebemos que talvez os professores portugueses estejam a praticar uma forma particularmente avançada de satisfação profissional.

Uma satisfação quase espiritual.

Porque, segundo os dados de 2024, apenas cerca de 13% dos professores portugueses do ensino secundário inferior dizem estar satisfeitos com os salários.

Treze por cento.

É reconfortante saber que existem. Não sabemos exatamente quem são, mas existem.

Talvez sejam pessoas muito desprendidas dos bens materiais. Ou talvez tenham descoberto uma técnica revolucionária de pagar a prestação da casa com realização profissional.

Mas há mais.

Quando a pergunta passa dos salários para os termos de emprego, Portugal também aparece muito abaixo da média da OCDE: cerca de 39% dos professores manifestam satisfação.

Ou seja, conseguimos a proeza de ter professores pouco satisfeitos com o salário e, simultaneamente, pouco satisfeitos com as condições em que exercem a profissão.

Uma espécie de pacote completo.

E depois há Espanha

Aqui começa a parte verdadeiramente interessante.

Do outro lado da fronteira, os números são bastante diferentes.

Em Espanha, aproximadamente 54% dos professores manifestam satisfação com os salários e cerca de 72% com os termos de emprego.

Portugal apresenta aproximadamente 13% e 39%, respetivamente.

É difícil não olhar para o gráfico e pensar que, em algum momento, alguém terá colocado a seta do mapa no sítio errado.

Talvez os professores portugueses estejam a ensinar numa versão experimental da profissão docente.

Uma versão em que trabalha-se muito, ganha-se pouco e ainda se pode acrescentar um módulo opcional de burocracia.

Mas calma: os professores portugueses estão satisfeitos

Há uma boa notícia.

O texto da OCDE diz que, em média, 85% dos professores da OCDE afirmam estar satisfeitos com o seu trabalho.

Excelente.

Podemos, portanto, respirar de alívio.

O professor pode não estar satisfeito com o salário.

Pode não estar satisfeito com os termos de emprego.

Mas gosta do seu trabalho.

É quase como perguntar a alguém:

— Está satisfeito com o carro?

— Não.

— E com o preço que pagou?

— Não.

— E com as prestações?

— Também não.

— Mas gosta de conduzir?

— Muito.

Problema resolvido.

Talvez seja este o segredo da profissão docente

O professor português aparentemente desenvolveu uma extraordinária capacidade de separar o amor pela profissão das condições em que é obrigado a exercê-la.

Gosta de ensinar.

Gosta dos alunos.

Gosta da escola.

Gosta de ver um aluno aprender alguma coisa que antes não sabia.

Gosta de acompanhar um jovem durante anos e perceber que, de alguma maneira, contribuiu para aquilo que ele se tornou.

E depois recebe o vencimento.

E volta à realidade.

É precisamente por isso que o gráfico merece atenção.

Porque ele mostra que gostar de ser professor e estar satisfeito com as condições para ser professor são duas coisas diferentes.

E talvez estejamos há demasiado tempo a confundir as duas.

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