As Reserva de Recrutamento a esgotarem-se

Estabilidade no sistema, estabilidade nas escolas, estabilidade nas políticas. Pois a estabilidade chegou, mas foi a das prateleiras vazias.

Estamos no fim de setembro. O ano letivo mal arrancou e a Reserva de Recrutamento, essa lista nacional que devia ser a rede de segurança de quem precisa de repor um docente em falta, já parece o frigorífico de um estudante deslocado no dia 29 do mês: uma luz acesa e pouco mais.

Vamos aos números, que são teimosos e não entendem de comunicados. Há grupos de recrutamento com menos de cem candidatos disponíveis em todo o país. Em todo o país! Menos de cem pessoas para cobrir escolas do Minho ao Algarve, passando pelas ilhas, se as ilhas se lembrarem de existir no mapa de quem decide. Falamos do 420 (Geografia), do 400 (História), do 120 (Inglês do 1.º ciclo), do 200 (Português e Estudos Sociais/História do 2.º ciclo), do 240 (Educação Visual e Tecnológica do 2.º ciclo) e do 290 (Educação Moral e Religiosa Católica) com apenas dois candidatos, o 930 (Educação Especial 3, cegueira e baixa visão) também com dois candidatos, o 920 (Educação Especial 2, surdez), o 350 (Espanhol), o 410 (Filosofia), o 430 (Economia e Contabilidade), o 530 (Educação Tecnológica), o 540 (Eletrotecnia), o 550 (Informática) e o 600 (Artes Visuais).

Detenhamo-nos um instante na Educação Especial, porque é aqui que a ironia deixa de ter graça. Discursa-se muito sobre inclusão. Fazem-se leis, decretos, roteiros e “abordagens multinível”. Mas quando é preciso um docente especializado para apoiar um aluno cego ou surdo, a resposta do sistema é uma lista com dois nomes, que, se estiverem colocados, aceitem, e não tiverem entretanto arranjado outra vida, permitirão que a inclusão aconteça. A inclusão passou a depender de um golpe de sorte.

E notem: estamos no início do ano letivo. Esta é a fase em que a reserva deveria estar mais recheada, quando ainda ninguém adoeceu, ninguém engravidou, ninguém pediu licença, ninguém desistiu, ninguém se aposentou a meio do período. Se as listas já estão assim em setembro, o que dirá dezembro, quando a gripe fizer o que a gripe faz e a baixa médica bater à porta de escolas que não têm a quem ligar? O que dirá março? A previsão é fácil: turmas sem professor, horários “cobertos” com o que houver, e a habitual criatividade das direções, que fazem milagres com o que não têm e depois ainda ouvem dizer que a gestão é que falha.

Convém não esquecer o percurso que trouxe até aqui. Durante anos congelaram-se carreiras, empurraram-se professores para a precariedade, ofereceram-se colocações a centenas de quilómetros de casa por salários que mal pagam a renda, e depois espantou-se o país por os jovens não quererem ser professores. É como fechar o restaurante, despedir o cozinheiro e queixar-se de que ninguém vem jantar. Os candidatos não desapareceram por magia: fizeram contas, e as contas não dão.

Entretanto, o discurso oficial continua no piloto automático: medidas, planos, “soluções inovadoras”, uma ou outra flexibilização de habilitações para tapar buracos, como quem cobre uma fuga de água com um postal ilustrado. Nenhuma delas resolve o problema de fundo, que é simples e desconfortável: a profissão deixou de ser atrativa e o sistema deixou de ter quem lhe acuda.

Se as reservas de recrutamento são o termómetro do sistema, a temperatura está a descer para valores que nenhum comunicado consegue aquecer. E quem acredita que isto se resolve com mais uma reunião, mais um grupo de trabalho e mais uma portaria vai continuar a acreditar até que a última turma fique à espera do último professor.

Que, pelo andar das coisas, já está de saída.

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