Há uma espécie particularmente resistente no ecossistema escolar. Não consta dos documentos orientadores, não aparece nas plataformas do Ministério e, tanto quanto se sabe, ainda não foi criada uma formação financiada para a combater. Mas está por aí. Circula livremente pelas salas de professores, pelos corredores, pelas reuniões, pelos grupos de mensagens e, em alguns casos, até pelas caixas de correio eletrónico institucionais. É a síndrome do coitadinho.
Na escola, o coitadinho profissional é uma criatura fascinante. Nunca é responsável por nada, mas é sempre vítima de alguma coisa. Se há excesso de trabalho, alguém tem culpa. Se há falta de pessoal, alguém devia ter previsto. Se há indisciplina, alguém não fez o que devia. Se há uma decisão com a qual não concorda, foi tomada contra si. Se lhe pedem colaboração, estão a abusar. Se não lhe pedem colaboração, estão a excluí-lo. Se é chamado a assumir uma responsabilidade, é porque “só se lembram dele”. Se não é chamado, “não valorizam o seu trabalho”.
É um verdadeiro prodígio administrativo: consegue transformar qualquer circunstância numa perseguição pessoal.
E há sempre um culpado. A direção, os coordenadores, os colegas, os pais, os alunos, o Ministério, a tutela, os sindicatos, a legislação, o calendário escolar, o computador, o SIGRHE, a plataforma que não funciona, a plataforma que funciona, a reunião que demorou demasiado, a reunião que foi curta, o colega que falou, o colega que não falou e, em última instância, o inevitável “sistema”.
Nunca, mas mesmo nunca, aparece a hipótese de olhar para o espelho.
Convém dizer uma coisa antes que alguém comece a preparar a indignação: as escolas têm problemas reais. Muitos. Há falta de assistentes operacionais, burocracia absurda, excesso de tarefas, falta de recursos, decisões administrativas difíceis de compreender, mudanças legislativas constantes e uma pressão enorme sobre quem trabalha diariamente nas escolas. Há motivos legítimos para reclamar, protestar e exigir melhores condições.
Mas reclamar de problemas reais não é ser coitadinho.
Ser coitadinho é outra coisa.
É transformar a reclamação numa identidade. É fazer da queixa uma profissão. É passar mais tempo a explicar porque não se pode fazer do que a procurar uma forma de fazer. É colecionar injustiças antigas como quem coleciona cromos e repetir as mesmas histórias durante anos, sempre com os mesmos protagonistas, sempre com a mesma conclusão e, sobretudo, sempre com a própria pessoa no papel principal de vítima.
Há professores que sabem exatamente tudo aquilo que lhes fizeram. Curiosamente, têm uma memória bastante menos eficiente quando chega a hora de recordar aquilo que fizeram aos outros.
“Eu não devia ter sido tratado assim.”
“Eu não devia ter ficado com isto.”
“Eu não devia ter sido chamado.”
“Eu não devia ter sido prejudicado.”
“Eles deviam ter-me perguntado.”
“Eles deviam ter percebido.”
“Eles deviam ter feito.”
Devia. Devia. Devia.
A palavra preferida de quem acredita que o mundo inteiro tem obrigações para consigo.
E depois existe o clássico “sempre fiz assim”.
Esta frase devia ser inscrita no frontispício de algumas salas de professores. É o lema perfeito para quem descobriu que a mudança é uma coisa maravilhosa desde que aconteça aos outros.
Sempre fiz assim.
Sempre funcionou.
Nunca ninguém reclamou.
No meu tempo não era assim.
Antigamente é que era.
E pronto. Está encontrada a justificação. O mundo mudou, os alunos mudaram, as famílias mudaram, a sociedade mudou, a tecnologia mudou, a escola mudou, a legislação mudou, mas há quem continue religiosamente agarrado ao “sempre fiz assim” e ainda espere que sejam os outros a adaptar-se.
Depois admiram-se de os resultados continuarem iguais.
Há também os especialistas em indignação. Aqueles que conseguem transformar uma decisão banal numa crise institucional, uma divergência numa afronta e uma exigência profissional numa perseguição. Não precisam de factos. Precisam apenas de um grupo de WhatsApp.
A partir daí, nasce imediatamente uma narrativa.
“Estão contra nós.”
“Querem prejudicar-nos.”
“É sempre a mesma coisa.”
“Ninguém nos ouve.”
“Ninguém nos respeita.”
E, quando se pergunta concretamente o que aconteceu, começa a segunda parte do espetáculo: a recuperação de todos os acontecimentos dos últimos dez anos.
Porque o coitadinho profissional nunca trabalha apenas com o presente. Trabalha com um arquivo histórico de ressentimentos.
O problema é que uma escola não pode funcionar permanentemente em modo terapêutico.
Uma direção não pode passar os dias a distribuir certificados de reconhecimento emocional.
Um coordenador não pode ter como principal função garantir que ninguém fica contrariado.
Um colega não pode ser obrigado a concordar para provar que respeita.
E uma comunidade educativa não pode confundir democracia com a obrigação de todos pensarem da mesma maneira.
Discordar faz parte.
Questionar faz parte.
Criticar faz parte.
Até estar zangado faz parte.
O que não pode fazer parte da cultura profissional é transformar a vitimização num método de funcionamento.
Porque existe uma diferença enorme entre dizer “isto está mal” e dizer “tudo está sempre contra mim”.
A primeira frase pode iniciar uma discussão.
A segunda encerra-a.
E talvez seja aqui que esteja uma das grandes doenças silenciosas das organizações escolares: há demasiada energia consumida a discutir quem teve culpa e demasiado pouca a procurar quem pode resolver.
É muito fácil apontar o dedo.
Mais difícil é apresentar uma solução.
É muito fácil dizer que a direção devia ter feito.
Mais difícil é aceitar uma responsabilidade quando somos nós a ter de fazer.
É muito fácil exigir respeito.
Mais difícil é praticá-lo quando discordamos.
É muito fácil falar de colaboração.
Mais difícil é colaborar quando não somos nós a decidir.
É muito fácil defender a escola.
Mais difícil é deixar de defender exclusivamente o nosso pequeno território dentro dela.
Talvez a pergunta que cada profissional deveria fazer de vez em quando não fosse “o que é que estão a fazer comigo?”, mas “o que é que eu estou a fazer para que isto funcione melhor?”.
É uma pergunta incómoda.
Precisamente por isso, é uma boa pergunta.
Porque obriga a sair do confortável papel de vítima e a entrar no muito menos confortável papel de profissional.
E profissionalismo implica responsabilidade.
Implica reconhecer erros.
Implica aceitar críticas.
Implica mudar procedimentos.
Implica aprender.
Implica perceber que nem todas as decisões contrárias à nossa vontade são ataques pessoais.
Implica perceber que uma direção não existe para agradar a todos, que um coordenador não existe para validar todas as opiniões e que um colega não tem obrigação de concordar connosco apenas porque trabalhamos no mesmo edifício.
E implica uma coisa ainda mais difícil: perceber que podemos ter razão sobre determinada questão e, simultaneamente, estar a contribuir para tornar o ambiente pior.
Nas escolas não precisamos de menos pensamento crítico. Precisamos é de menos vitimização automática.
Precisamos de pessoas capazes de dizer “isto está mal” e imediatamente acrescentarem “e proponho isto”.
Precisamos de quem questione sem destruir.
De quem critique sem humilhar.
De quem discorde sem transformar a discordância numa guerra.
De quem assuma responsabilidades sem esperar aplausos.
E, sobretudo, de quem compreenda que trabalhar numa escola significa fazer parte de uma organização e não apenas defender a sua própria trincheira.
Porque a escola não melhora quando todos descobrem quem é o culpado.
Melhora quando alguém decide fazer diferente.
Talvez seja essa a verdadeira diferença entre quem quer apenas ter razão e quem quer que as coisas funcionem.
No final, a pergunta é simples e suficientemente incómoda para merecer ser feita:
Eu estou a acrescentar valor à escola ou estou apenas a acrescentar mais uma queixa à lista?
Cada um que responda por si.
Mas, por favor, desta vez sem culpar a direção.





1 comentário
Excelente artigo com o qual estou inteiramente de acordo. Aproveito para referir que não é apenas na escola que aparece, mas agora é o pão nosso de cada dia nos dois grandes grupos de professores do facehole e mesmo nas caixas de comentários deste mesmo site. É só tadinhos e vítimas, que depois clamam por respeito, mas nunca se dão a ele nem respeitam os demais.