Não quero ser Professor – Alfredo leite

Há dias, em Sintra, uma professora disse-me uma frase que me ficou na cabeça:
 
“O meu filho não quer ser professor.”
 
E depois acrescentou:
 
“Ele vê o meu cansaço.”
 
Isto devia preocupar-nos muito mais do que preocupa.
 
Durante décadas, os professores foram vistos como pessoas respeitadas, importantes e emocionalmente estáveis. Hoje, muitos filhos cresceram a ver:
 
• pais exaustos;
• fins de semana ocupados;
• desgaste emocional;
• pressão constante;
• críticas permanentes;
• pouca valorização social.
 
E as crianças aprendem muito mais pelo que observam… do que pelo que lhes dizem…
 
Nenhuma profissão sobrevive muito tempo quando os próprios filhos de quem lá está deixam de a desejar.
 
E talvez o problema mais grave não seja os jovens não quererem ensinar!
 
É começarem a acreditar que cuidar, educar e orientar pessoas… deixou de valer a pena.
 
Sinto esta crise violenta em várias profissões que envolvem pessoas. 

E digo isto hoje, em Vila Real, onde daqui a pouco vou falar para alunos e onde volto a sentir aquilo que os professores sentem todos os dias: jovens cansados, acelerados, muitas vezes emocionalmente perdidos, mas desesperadamente à procura de adultos estáveis que não desistam deles.

Professores precisam de equipas, não apenas de exigências. Precisam de autoridade protegida, tempo para respirar e permissão para continuar humanos.

Porque um professor emocionalmente mal,  dificilmente  consegue ensinar esperança.

Alfredo Leite

Link permanente para este artigo: https://www.arlindovsky.net/2026/05/nao-quero-ser-professor-alfredo-leite/

4 comentários

Passar directamente para o formulário dos comentários,

  1. Efetivamente, ninguém deseja aos seus as suas próprias doenças e agonias…

    • Sandra on 20 de Maio de 2026 at 12:33
    • Responder

    Boa tarde… é tudo verdade!!! Infelizmemte!
    Tasmbém sinto isso! É triste, mas é verdade. E ainda por cima, me sinto mal, por sentir tudo isso!!!!! O que fazemos?????

  2. Não é efetivamente fácil e está cada vez mais difícil! Mas eu, com 34 anos de serviços, ainda quero ser professor! Ainda acho que vale a pena e que, por vezes, ainda conseguimos fazer a diferença!

  3. Eu quis ser professor.
    Uma dúzia de colegas meus com quem terminei a profissionalização também quiseram.
    Éramos 13 e só ficaram 4, salvo erro.

    Saímos da profissão – não necessariamente pelo stress e a carga de trabalho, mas porque os salários auferidos não nos permitiam sequer sair das casas dos nossos pais (pelos menos dos que tinham essa benesse). Um quarto partilhado nos arredores de Lisboa custa mais de 500 euros e a rede de transportes públicos é uma miséria.

    Esperar 4 anos para ganhar mais uns 90 parrecos enquanto a inflação consome os nossos míseros salários reais? Nem daqui a 20 anos nos safamos!

    Vamos acordar para a vida, ok? Quem quer ser professor apenas o é porque tem dinheiro para o ser. Ironicamente voltou a tornar-se numa profissão destinada exclusivamente a uma determinada classe social.

Deixe um comentário

Your email address will not be published.

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

Discover more from Blog DeAr Lindo

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading