Nas últimas horas voltaram a circular, pelas redes sociais, mensagens sobre o processo de revisão do Estatuto da Carreira Docente, o ReCAP e o acordo celebrado na Administração Pública. Mensagens alarmistas, tecnicamente vagas, emocionalmente carregadas. O género de comunicado que não explica, intimida. Que não informa, inocula desconfiança. E que, por isso mesmo, merece ser lido com a mesma frieza com que se lê qualquer outro instrumento político disfarçado de defesa laboral.
Portugal viveu, durante o período revolucionário dos anos 70, uma das manobras mais sofisticadas e mais cinicamente eficazes, da história sindical europeia. Forças políticas com representação directa no governo provisório utilizavam simultaneamente as suas correntes sindicais para mobilizar a rua contra esse mesmo governo. Não era contradição ideológica. Era estratégia de pinça, estar dentro para condicionar, estar fora para desestabilizar, e fazê-lo em simultâneo, com a mesma mão que assinava despachos e a outra que convocava greves. O objectivo nunca foi resolver os problemas dos trabalhadores. Foi controlar o ritmo da mudança, vetar soluções que não passassem pelo seu crivo organizativo, e manter a conflitualidade como instrumento de pressão permanente.
Quando o argumento principal não é o texto do acordo mas o medo de o ler, convém perguntar a quem serve o pânico.
Não é preciso recuar décadas para reconhecer o padrão. O comunicado que hoje circula sobre os professores exibe uma estrutura retórica que qualquer analista político identifica de imediato, não pelo que diz, mas pela forma como o diz. Primeiro, cria-se urgência emocional antes de se apresentar qualquer facto verificável, o medo precede a evidência e, frequentemente, substitui-a. Depois, inverte-se a responsabilidade, acusa-se o processo negocial de gerar instabilidade, quando é precisamente a desinformação organizada que a produz. Quem ateia o fogo queixa-se do fumo. Por fim, estabelece-se o monopólio da interpretação, a mensagem implícita é sempre a mesma, só nós dizemos a verdade, os outros mentem. O acordo não é para ser lido. É para ser temido. E quem o teme não o questiona, aceita a mediação de quem o apresentou como ameaça.
A estratégia de dupla pressão que marcou o período revolucionário acabou por ser contraproducente a médio prazo. Desgastou a credibilidade das próprias estruturas sindicais junto de uma base que, gradualmente, percebeu estar a ser instrumentalizada para fins que não eram os seus. Os trabalhadores, mais cedo ou mais tarde, distinguem quem os representa de quem os usa. E essa distinção é tanto mais nítida quanto mais evidente se torna a distância entre o alarme proclamado e a realidade dos documentos que ninguém incentiva a ler.
O professor de hoje tem acesso directo aos textos. Tem capacidade de comparação. Tem memória institucional. E tem, acima de tudo, o direito, e o dever, de fazer a pergunta mais simples e mais incómoda de todas, se o acordo é tão mau, por que razão o argumento principal não é o texto do acordo, mas o medo de o ler? O sindicalismo genuíno ilumina. O sindicalismo instrumentalizado encadeia. E a diferença entre os dois nunca foi tão fácil de medir como quando alguém nos pede para ter medo antes de lermos uma única linha do que nos pretendem vender como ameaça.




5 comentários
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Um texto excelente e atual.
Parabéns!
É o PCP no seu melhor.
A utilização de uma retórica alarmista pelo PCP e pelo sindicato sob a sua influência (FENPROF) é uma ferramenta de controlo social e político, desenhada para manter os professores num estado de constante sobressalto. Esta estratégia de focar o discurso no perigo de perdas catastróficas serve, frequentemente, para mobilizar através do receio em vez da proposta inovadora.
Num cenário de declínio eleitoral acentuado, o PCP encontra na “tática do medo” e na agitação laboral o oxigénio necessário para manter a sua relevância política.
Num ambiente onde o PCP e os seus sindicatos utilizam uma retórica de alarme para garantir a sua própria sobrevivência política, o filtro individual torna-se a única defesa contra a manipulação emocional. Ao analisarmos criticamente os discursos, conseguimos distinguir o que é uma reivindicação legítima por melhores condições de trabalho daquilo que é apenas propaganda ideológica desenhada para alimentar o conflito e manter estruturas partidárias vivas.
Cabe a cada um de nós ter a capacidade de filtragem e decidir com base em factos e não no medo. É importante garantir que a luta dos professores sirva os interesses de quem trabalha e não a agenda de quem precisa do caos para não desaparecer.
Tenho dito.
O melhor será utilizar a IA para analisar os textos dos acordos…sempre teremos uma analise imparcial, não politizada ou instrumentalizada. Talvez como a pergunta ao ChatGpt …”Querido chat podes verificar se este acordo é bom ou mau para os professores?”. 😏😏
E com que parâmetros analisaria o chat GPT um acordo no sentido de saber se era bom ou mau?
O que quereria isso dizer?!
Se a proposta governativa fosse absolutamente clara daria margem para diferentes interpretações pelos sindicatos? Na minha opinião a primeira proposta era claramente lesiva para a equidade e carreira docente.