A escola é, cada vez mais, como um ex-amor… – Paula Dias

 

A escola é, muitas vezes, como aqueles parceiros de uma relação que abusam, agridem, manipulam e controlam os seus pares… 

Gritar, humilhar publicamente, culpar e acusar de forma despropositada e excessiva, ignorar o diálogo, desferir críticas destrutivas ou agir de forma discricionária e autoritária são exemplos de alguns comportamentos manifestados pela escola, dentro de cada escola…

 

A escola tem uma interacção perturbada e conturbada com os seus parceiros de relacionamento… Não existe nessa relação a serenidade e o apaziguamento necessários para o estabelecimento de compromissos leais e justos, entre as partes envolvidas…

Na escola, muitas vezes, a paz é falsa e simulada, a tranquilidade é aparente e decorre apenas da inacção, do evitamento ou da indiferença…

A relação tóxica e abusiva, muitas vezes estabelecida entre a escola e os respectivos parceiros, ilustra bem a perturbação relacional existente…

A rejeição ou o divórcio entre a escola e os seus parceiros parece inevitável: 

– Os que ainda permanecem na relação anseiam por poder sair dela o mais rapidamente possível e libertar-se da asfixia constante a que são sujeitos;

– Grande parte dos possíveis novos parceiros desiste da relação, mesmo antes de a ter experimentado… 

Lidar com o desapego e o desencanto dos primeiros e com a rejeição explícita dos segundos talvez não seja fácil para a escola, mas também não a faz mudar a atitude prepotente e doentia, frequentemente observada…

A escola trai, engana e ludibria os seus parceiros de relação. Também não os reconhece nem os valoriza…

A infidelidade é prática comum e corrente, existem muitos parceiros que são despudoradamente “encornados” pela escola… No fundo, a escola adora “saltitar de nenúfar em nenúfar”…

A escola gosta de “flirtar”, mas não tem coragem para assumir compromissos sérios e consumar algumas relações. Para a escola, não há ninguém insubstituível, nem amores incondicionais…

Todos, num certo momento, podem ser descartados, rejeitados, preteridos ou trocados. E sobre isso que não haja qualquer ilusão ou engano…

A escola não sabe namorar porque não consegue manter com os seus parceiros uma relação afectiva baseada no comprometimento, na cumplicidade e na confiança…

Não há reciprocidade de sentimentos entre a escola e os seus parceiros… A escola perdeu a capacidade de seduzir e de atrair. A escola tolera-se, mas não se deseja…

A escola não quer saber de relações saudáveis, nem de Ideais ou de Princípios…

Esses ficam apenas muito bem descritos e defendidos em compêndios teóricos, elaborados por “sábios” que nunca pisaram numa escola, a não ser, talvez, em ilustres cerimónias de inauguração ou em visitas previamente agendadas, sempre muito bem encenadas, dominadas pela artificialidade e preparadas com todo o brilho e devoção…

A escola é como um amante manhoso, interesseiro e desleal: as juras de amor e a sedução só duram o tempo necessário para se encontrar um substituto…

A escola rege-se por aquela desculpa esfarrapada, frequentemente utilizada para justificar o fim de um relacionamento e para esconder ou mascarar a rejeição: “o problema não és tu, sou eu”…

Dessa forma, a escola procura o indulto, ao mesmo tempo que assume uma postura profundamente egocêntrica, hipócrita e cobarde… Trata-se de uma estratégia ardilosa que, à primeira vista, pretende suavizar a culpa dos parceiros e retirar-lhes o ónus da responsabilidade da separação, mas, também, e intencionalmente, esvaziar de pertinência qualquer argumento apresentado com o objectivo de reverter a ruptura e o afastamento…

Nessas condições, não há reatamento possível porque não há nada que os parceiros possam fazer para evitar a separação, a causa da mesma não é controlável por eles, está fora do seu alcance…

Mas a submissão que a Escola exige aos seus parceiros é tão intolerável quanto o é a inércia e a resignação destes últimos face a tal exigência…

Na escola não se vive, funciona-se e nem sempre se sobrevive…

A escola, como muitos agressores, regozija-se e “esfrega as mãos de contente” pelo silêncio tácito dos que permanecem neutrais e conta com a sua irrevogável cumplicidade e conivência…

A escola não é um parceiro de Bem e por isso não é recomendável… Como se fosse um parceiro clandestino, a escola, cada vez mais, se confronta com dificuldades para ser vista como alguém que se apresenta à família ou que se assume perante os amigos…

A escola espera ser amada, mas não consegue amar ninguém… A escola só ama a si própria…

Mas essa condição também não impede que se estabeleça com ela uma espécie de relação amor-ódio, repleta de ambivalência emocional e de sentimentos contraditórios, que naturalmente tendem a entrar em conflito… 

Não adianta romantizar a relação com a escola:

– No momento actual, a escola é um agente potencialmente patogénico, para aqueles que com ela se cruzam…

E espanta a forma como, muitas vezes, se reage à intimidação ou à agressão, perpetradas pela escola: 

– Idolatria, cumplicidade e dependência face aos agressores, plausivelmente pelo medo de eventuais retaliações… 

Raios partam a tolerância à manipulação e a atração por relacionamentos abusivos e tóxicos, evidenciadas por tantas pessoas…

Raios partam a hipocrisia, a cobardia e a ausência de solidariedade, tantas vezes observadas, quando algum parceiro tenta libertar-se do agressor, recusando “vender a alma ao diabo”… 

Sendo este texto um assumido devaneio, saturado de metáforas, pergunta-se:

– Quem nunca fingiu prazer, tendo a escola como parceiro?

Cada vez mais, o “casamento” com a escola se parece com isto:

– “Casaste por amor ou por interesse?”

– “Deve ter sido por amor, que interesse não lhe vejo nenhum…”

A escola perfeita não consome álcool, não fuma, não ingere açúcar nem gorduras saturadas, não engana, não mente e, principalmente, não existe…

A escola é, cada vez mais, como um ex-amor:

“Gostaria que tu soubesses

O quanto que eu sofri

Ao ter que me afastar de ti”

Nos desgastamos

Transformando tudo em dor

(Martinho da Vila, Ex-Amor).

Escrevi este texto há alguns anos, em circunstâncias muito particulares. O Blog DeAr Arlindo publicou-o, pela primeira vez, em Agosto de 2023. Relendo-o hoje continua a fazer sentido para mim, ainda que as circunstâncias que me levaram a escrevê-lo se tenham alterado…

Fará sentido para mais alguém?

Paula Dias

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3 comentários

    • Mainada on 11 de Abril de 2026 at 11:12
    • Responder

    Claro que faz todo o sentido de muitas maneiras. “Gritar, humilhar publicamente, culpar e acusar de forma despropositada e excessiva, ignorar o diálogo, desferir críticas destrutivas ou agir de forma discricionária e autoritária são exemplos de alguns comportamentos manifestados pela escola, dentro de cada escola…” parece-me bastante exagerado.

      • Anónimo on 11 de Abril de 2026 at 11:14
      • Responder

      A mim não me parece nada exagerado.
      Mas pior do que esses, são os que são feitos pela calada, fingindo que é tudo na brincadeira … não sendo.

    • Anónimo on 11 de Abril de 2026 at 11:13
    • Responder

    Para mim faz todo o sentido.
    É isso o que existe numa escola que conheço (e em muitas mais). Nesta, uma que aparece nas noticias para as inaugurações e exames, com políticos à mistura, a fantasia não acaba. E é uma fantasia perversa. Então desde que começaram a chegar uns artistas que só se sabem pavonear e dizer disparates aos alunos, nem se fala.
    A pouca vergonha aumenta a cada dia.
    A falta de agradecimento a quem trabalha loucamente há anos para que as coisas vão para a frente é grassa.
    A escola já foi. Agora o que conta é o espetáculo…triste.

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