Há um silêncio estranho a instalar-se nas margens da nossa memória coletiva. Um silêncio que não é feito de ausência de palavras, mas de excesso de versões, de repetições gastas, de narrativas embaladas para consumo rápido. Falo do 25 de Abril de 1974, não o da efeméride, não o dos cravos estilizados nas lapelas institucionais, mas o outro, o vivido, o imperfeito, o humano.
A memória viva está a desaparecer. Não de forma abrupta, mas como quem se retira devagar de uma sala, fechando a porta sem ruído. São os homens e as mulheres que souberam o que era medir as palavras, desconfiar das paredes, sentir o peso da censura antes mesmo de ela se materializar. São aqueles que sabiam o que significava viver numa ditadura sem precisar de o explicar, porque o corpo já o sabia.
Hoje, até aqueles que rondam os cinquenta anos vivem numa espécie de fronteira nebulosa. Nasceram demasiado tarde para recordar, demasiado cedo para não ouvir. Cresceram com fragmentos: histórias contadas à mesa, relatos emocionados ou ressentidos, versões que se contradizem e que, no fundo, revelam mais sobre quem as conta do que sobre o que realmente aconteceu.
E depois há a narrativa oficial. Aquela que se repete, ano após ano, com a solenidade de um ritual. Uma história limpa, organizada, quase confortável. Uma história onde os papéis parecem definidos com clareza: heróis de um lado, sombras do outro. Mas a História, a verdadeira , raramente é assim tão linear. E, ainda assim, insistimos em ouvi-la como se fosse.
Há interesses, claro que há. Há sempre. Partidos, ideologias, agendas que se apropriam do passado para legitimar o presente. E, nesse processo, a memória transforma-se em instrumento. Molda-se, seleciona-se, simplifica-se. Porque uma história complexa incomoda; uma história simples mobiliza.
É aqui que a velha máxima ganha corpo: da História consta, muitas vezes, a versão dos vencedores. Não porque seja necessariamente falsa, mas porque é incompleta. Porque deixa de fora as zonas cinzentas, os dilemas, as contradições humanas que não cabem em discursos comemorativos.
O problema não é apenas esquecer. É lembrar mal. Ou lembrar de forma condicionada. Quando a memória viva desaparece, ficamos dependentes do que foi registado, e do que foi escolhido para ser registado. E isso exige de nós um esforço maior, quase arqueológico: escavar, comparar, duvidar.
Talvez o maior desafio do 25 de Abril, hoje, não seja celebrá-lo, mas compreendê-lo. Não como um símbolo imóvel, mas como um acontecimento vivo, feito de múltiplas experiências. Um dia que não pertence apenas aos livros, mas às pessoas, às que ainda podem falar e às que já só sobrevivem nas palavras dos outros.
Porque, no fim, a liberdade que tanto evocamos também passa por isto: pela liberdade de questionar a própria memória.




1 comentário
E isso quer dizer o quê exatamente? Tivemos a ditadura mais longa da Europa, a qual manteve Portugal à margem do desenvolvimento europeu e envolveu os jovens numa longa guerra com muitas vítimas, quer no ultramar, quer na metrópole. O 25 de abril veio libertar-nos ao instaurar um regime democrático com que muita gente não podia sequer sonhar. Claro que houve excessos durante um ano, ano e meio. Como poderia não ter havido? Seria sequer normal? No entanto, foi mais uma aventura para quem por lá passou do que o que é comum nas revoluções e que é pouco bonito. Atualmente, muito graças ao corno do oportunista Ventura, anda para aí muito idiota a berrar que não celebra o 25 de abril, como se isso fosse um feito. A burrice, a ignorância e os impulsos primitivos instalaram-se. Portanto, celebre-se o 25 de abril e não se branqueie e o 24 e os os 48 anos de escuridão, pobreza e violência que o antecederam. 51 anos de corrupção? Isso não passa de um mantra imbecil para enganar totós zangados.