No corredor estreito da escola, onde o cheiro a giz se mistura com o do café queimado da sala de professores, caminha este professor de olhos postos no chão como quem pede desculpa por existir.
Junto ao corpo, qual bóia de salvação, segura a pasta cheia de cadernos corrigidos com uma letra paciente, quase carinhosa, e a bóia é uma metáfora para as vidas dos alunos com quem o professor pára aqui e ali para ouvir um e depois outro mais os seus receios e anseios tantas vezes à deriva.
Não era amado, não era odiado, era temido, e temer é uma forma mais prática de solidão. Diziam dele trabalhar demais, como se a dedicação fosse um vício secreto, desses praticados às escondidas, e, no entanto, fazia-o à vista de todos através do simples mester de ensinar.
Minto, pois, havia mais, e mais era ser o primeiro a chegar à escola e o porteiro ainda com o cigarro da manhã a meio, para preparar uma aula sobre Camões.
E não, não bastam os livros e como não bastam os livros toca de trazer mapas e outros tantos versos copiados à mão no entusiasmo de quem gosta verdadeiramente, quase inocentemente, um autêntico arauto de estandarte em punho cheio de perguntas e os alunos à procura das respostas.
Os alunos, surpreendidos por alguém capaz de ver em cada um deles um igual, um colega, igualmente adulto, pensante, dialogante e dialogar é falar de literatura e outras tantas obras ainda no intervalo, e porquê ir para a sala se a vida está cá fora e os livros não foram escritos dentro do colete de forças destas quatro paredes.
Os outros professores, ao ouvirem aquilo, franziam o sobrolho, porque de repente os seus alunos perguntavam por que razão as aulas deles não eram assim, e ninguém gosta de se ver reflectido ao espelho, ainda para mais se esse espelho está agora na rua.
Para toda a gente ver.
E ver o professor ficar para trás depois das aulas com um rapaz mal capaz de ler, sentado ao seu lado como um pai improvisado, soletrando palavras simples, exercitando-as ao melhor estilo dos ginastas até as mesmas ganharem peso e sentido.
O rapaz passou da retenção, tão impossível nos dias de hoje, mas ainda assim certa, para a transição esperada mas suada, e a notícia correu a escola toda, não como milagre, mas como uma acusação muda.
Se ele conseguiu, os outros professores também conseguem, e se não conseguem é porque não querem, ou então não são capazes.
E ao lado do professor, todos os colegas mal vistos.
O professor não é um colega, caso contrário não nos faria isto…
Mal vistos diante dos testes do professor, corrigidos com rigor, para não dizer primor, um rigor atento de quem não procura contar os erros, e atire a primeira pedra quem nunca errou, ao invés escrevendo longos comentários nas margens, explicando, sugerindo caminhos, oferecendo hipóteses.
E, maior milagre, os alunos não só melhoraram no seu desempenho como também queriam saber e, de repente, o mundo virado do avesso.
E os colegas, a distribuir notas como quem distribui rebuçados, são agora os murmúrios nos corredores, são este veneno discreto e infiltrado.
O mesmo veneno quando o professor se recusa a participar na “pequena” fraude coletiva de facilitar notas em nome das estatísticas e dos rankings e a escola não é uma fábrica de números.
O silêncio consequente não foi apenas pesado, foi terminal. Alguém tossiu, alguém mexeu em papéis, e ficou decidido, sem ata nem assinatura, ser aquele professor incapaz de trabalhar em equipa, um Dom Quixote a teimar com moinhos e demandas, ainda para mais se a demanda é ensinar e, pior, ensinar crianças.
Em primeiro lugar a escola, a reputação da escola, a reputação dos professores.
Em primeiro lugar os adultos, e só depois as crianças.
Em suma: o professor criava mau ambiente e o ambiente, consequentemente, fedia. O professor aborrecia os colegas e aborrecer significa elevar a fasquia, como se o problema estivesse na altura da fasquia e não na languidez de quem não quer dar o salto.
Tornou-se persona non grata sem nunca levantar a voz, sem nunca acusar ninguém, apenas insistindo em fazer bem quanto fora contratado.
Quando o professor, por escolha dos alunos, discursou na cerimónia de final de ano, fê-lo pela última vez. Falou de esforço, de tentativas e erros, de resiliência, paciência, método e o método não é apenas para os alunos, mas para os colegas ali sentados a ouvir aquelas palavras de pedra e de pau a bater-lhes no corpo.
Quando o despediram, falaram em reestruturação, em falta de encaixe no projeto pedagógico, falaram em palavras ocas e as palavras ocas são salas vazias.
Saiu com a mesma pasta, agora mais leve, deixando para trás uma escola a respirar de alívio, onde tudo voltou ao normal, essa normalidade confortável e medíocre onde ninguém se destaca e ninguém é obrigado a olhar para si próprio.
Porque só através do método consegue o Homem atingir a imortalidade, rematou, mas não aqui, não nesta escola, não com estes professores.
E, no entanto, vá-se lá saber porquê, para os alunos este professor ficou para sempre.




12 comentários
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Como se diz em inglês: when you pay peanuts, you get monkeys.
Tudo é medíocre neste sistema – desde o desempenho dos professores, aos salários que auferem para o trabalho que é esperado deles.
Qual destes é a causa e a consequência é algo debatível.
Mas hoje em dia ninguém com dois dedos de testa vem para esta profissão para ser um missionário condenado a ou viver em casa dos pais até herdar a casa, ou a alugar quartos por o vencimento nem para um estúdio chegar nas zonas geográficas onde a procura de focentes é mais acentuada.
Sei que somos um país socioculturalmente cristão, mas já podíamos ultrapassar esta narrativa da escolha de vida de bosta pelas recompensas no Além.
Excelente texto ! Graças a Deus ainda há quem observe a mediocridade que se vai instalando , devagarinho, nas Escolas e quem, apesar disso, siga sendo resiliente. Parabéns ao autor!
Pertence a um grupo de docentes, contratados ou efetivos, acabam por ser penalizados por não se enquadrar nos moldes estabelecidos. Os apelidados de “fora da caixa”, que são os « professores de vocação». Estes Professores não passam despercebidos aos alunos pois eles sentem, reconhecem e sabem distinguir quem ensina por dever, de quem ensina por verdadeira entrega. Paradoxalmente, essa proximidade e reconhecimento tornam-se, muitas vezes, motivo de incómodo, inveja e marginalização no seio do próprio sistema e leva que muitos ainda se arrastem ao longo do tempo, numa vida de contratado precário e ainda são penalizados. Não é um caso isolado, pertence ao grupo daqueles que fazem a diferença. Estes docentes são aqueles que elevam a fasquia da profissão docente, os que deixam marca, os que permanecem na memória dos alunos da melhor maneira e deviam ser valorizados.
Totalmente certa. Obrigada pelas suas palavras! Descrevem uma realidade de assédio e de mediocridade imposta. Apresentada, falsamente, como “moderna” , inovadora e fomentadora de liberdades e autonomia. Na verdade, tem-se revelado o oposto. Evidências? O caos instalado na escola pública, a falta de professores e a descida dos resultados de literacia (capacita para gerar vidas saudáveis e produtivas) dos alunos, nos testes internacionais, entre 2015 e 2022. Os que os governos geringonça de esquerda não puderam influenciar. Situação que urge reverter. Para bem do futuro dos alunos, famílias e país.
Mas que dramalhão.
Até me vieram lágrimas aos olhos.
Não há paciência para tanta tragédia.
PS:
Não se esqueçam de ir votar.
Meu Deus, tanta prosa poética! Não há paciência!
É bem verdade. E é uma triste realidade quando se quer normalizar a mediocridade. Quem faz a diferença é tido como não saber trabalhar em equipa, de não se encaixar nos supostos objectivos e metas. Todavia, significa que está a fazer caminho e que acredita nas possibilidades de todas as crianças.
Acrescento ainda mais uma coisita: quem é empenhado, dedicado, amado e faz a diferença é muitas vezes vítima de assédio laboral. Sei do que falo e vivi nesse contexto com a convivência de um departamento e conhecimento da parte da Direção.
É esta uma autobiografia?
Ou um mea culpa?
Sinceramente, é de uma pieguice atroz e confrangedora.
Se é ficção, é má, se é retrato da realidade, que não acredito, é um sisifo.
Foi exatamente assim como este texto retrata um professor dedicado e exigente que leva o ensino a sério, trata os alunos com respeito intelectual e obtém resultados reais. Essa excelência, porém, expõe a mediocridade dos colegas e do sistema escolar, gerando medo, inveja e rejeição. Por se recusar a facilitar notas e a alinhar com práticas injustas, é visto como um problema e acaba afastado ( no meu caso, instaurado um processo disciplinar injusto e cobarde) . A escola regressa à sua normalidade confortável, enquanto o professor, embora excluído, permanece imortal na memória dos alunos – foi extamente o que aconteceu.
Ah! O fim da estória – o diretor e o conselho geral acabaram sendo substituidos.
gerando medo, inveja e rejeição. Por se recusar a facilitar notas e a alinhar com práticas injustas, é visto como um problema e acaba afastado ( no meu caso, instaurado um processo disciplinar injusto e cobarde) . A escola regressa à sua normalidade confortável, enquanto o professor, embora excluído, permanece imortal na memória
Mas hoje em dia ninguém com dois dedos de testa vem para esta profissão para ser um missionário condenado a ou viver em casa dos pais até herdar a casa, ou a alugar quartos por o vencimento nem para um estúdio chegar nas zonas geográficas onde a procura de focentes é mais acentuada.