Há palavras pequenas que provocam grandes histerias. Sumários é uma delas. Duas ou três linhas sobre o que se fez numa aula conseguem, na escola portuguesa, gerar mais polémica do que salários, horários ou carreiras congeladas. É obra.
Comecemos pelo Ministério da Educação, Ciência e Inovação (MECI), essa entidade que governa por sugestão e legisla por nevoeiro. Elabora despachos e exportações de dados que, curiosamente, passam a ser obrigatórias. É o admirável mundo da obrigação informal, não é obrigatório, mas tem de ser feito.
Do outro lado surgem os professores que não fazem sumários, não por esquecimento, mas por convicção. São os resistentes da pedagogia pura, para quem escrever o que foi feito numa aula é uma violência epistemológica, um atentado à criatividade ou um insulto à complexidade do acto educativo. Curiosamente, muitos destes docentes conseguem produzir planos, relatórios, grelhas, matrizes e reflexões intermináveis, mas ficam subitamente sem vocabulário quando chega a hora de registar o essencial. A aula foi riquíssima, dizem. Tão rica que não cabe em texto algum.
No terceiro vértice deste triângulo de absurdo estão os diretores que ainda não chegaram ao século XXI. Defendem a digitalização com entusiasmo retórico, mas continuam a gerir escolas como se fossem repartições dos anos 80. O digital é frágil, falha, “não é fiável”. Já o papel, esse sim, é eterno, excepto quando se perde, se extravia ou aparece incompleto. Exigem sumários digitais, mas aceitam folhas soltas. Falam em plataformas, mas vivem do dossiê.
E assim se constrói a grande farsa:
– um ministério que quer controlo;
– professores que confundem autonomia profissional com ausência de registo;
– diretores que pedem modernidade com práticas arcaicas.
Entretanto, os sumários, esses textos modestos e mal-amados, são tratados como instrumento de vigilância ou burocracia inútil. Quando, na verdade, são apenas isso, registos mínimos de trabalho efetivamente realizado. Não são pedagogia. Não são avaliação. Não são censura. São memória, organização e responsabilidade profissional.
Não, os sumários não resolvem a crise da escola. Não melhoram aprendizagens por despacho. Mas a sua ausência diz muito sobre o estado da instituição. Uma escola que não consegue registar o que faz dificilmente consegue explicar o que é, justificar o que acontece ou melhorar o que falha.
Talvez esteja na altura de todos crescerem um pouco.
O MECI, escrevendo normas claras e assumidas.
Os professores, aceitando que profissionalismo também se escreve.
E os diretores, percebendo que digital não é um capricho, é uma obrigação de gestão.
Até lá, continuaremos neste teatro educativo onde todos têm razão, ninguém escreve nada, e o sumário… fica sempre para amanhã.




18 comentários
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Parvoíces.
O problema é quando não há net ou a plataforma está em baixo.
Isso é mesmo um não assunto… não conheço nenhum professor que não faça sumários.
Se existem resolvam o problema com eles.
Se não trabalharem não lhes paguem.
Se não escrevem sumários mas deram a aula não podem ser penalizados no vencimento mas de outra forma. Instalem processos disciplinares … se for o caso.
Quantas vezes não temos acesso ao inovar ou desaparecem sumários e outros documentos dos alunos…
Mais uma vez, os professores são achincalhados na praça pública, como se fossem incompetentes ou como se não fizessem, ou não quisessem fazer, os sumários. Atacar a classe docente todos os anos com insinuações e acusações que denigrem a sua imagem, ao mesmo tempo que se recusa pagar dignamente aos professores, é uma prática recorrente que parece estar enraizada na atuação de sucessivos governos do PS e do PSD e no fundo, deste país.
Tens toda a razão.
Concordo, não conheço professores que não escrevam sumários, até porque se não o fizerem têm falta. Aqui há história…
Foram professores que publicaram publicamente a nota do MECI aos diretores sobre oa sumários
Desculpa lá, camarada, mas onde é que foste inventar que os professores não querem escrever sumários? Onde é que estão esses professores? Eu não conheço nenhum, sinceramente, não conheço.
Quem inventou esta história ridícula dos sumários foi este governo ridículo. Só um ministro de um governo ridiculo pode produzir coisas tão ridiculas.
Quando falas dos professores, também és ridículo. Quanto ao resto, concordo.
👍🏻
👍
Na Escola da Ponte e subsidiárias seguidoras do modelo escola moderna (MEM) não escrevem sumário pelas razões apresentadas.
Não é tão descabido assim
Eu acho muitíssimo bem. Os passeios dos cursos profissionais davam direito a escrever 8 sumários por cada professor acompanhante. Quando os acompanhantes da turma eram 4 lá se escreviam 32 sumários à borla. No primeiro escrevia se visita de estudo. É nos outros? Está bandalheira de não ensinar os garotos não é imaginação minha.
Está bandalheira de não ensinar nada, ainda mais se nos pagam para o fazer.
Ou eu estou a ficar lerda, e a não conseguir interpretar o que está escrito ( mas são 65 anos , mais 40 de servço com secundário, o cansaço aumenta) ou há falhas nas interpretações.
Leio algumas (muitas) barbaridades, e vejo muita ingnorância por parte de quem é professor.
Os colegas não escrevem sumários? Não escreverem sempre?
Estive a ler as informações enviadas para as escolas, sobre os sumários, e não vi onde é que os sumários têm ligação com os salários !!!??? como disse deve estar a ficar senil… mas se alguem conseguir explicar-me devida e fundamentadamente agradeçia.
Haja paciência para aturar !
agradecia
Fico feliz pela evolução dos nossos alunos: transportam nos seus cadernos sumários (registos e memórias) da sua inteira responsabilidade. O professor nem queria que o fizessem, mas esta geração é muito autónoma, criativa, responsável e atenta. Não seria melhor serem os alunos a enviarem o registo mensal dos seus sumários?
[…e se todos nós…docentes…enviarmos também, mensalmente, o histórico dos sumários, para os emails do MEC e do DGAE? Não vá o “diabo tece-las” e a informação não chegar ao destino. Chegar em triplicado seria bastante interessante e uma FORMA DE LUTA!]
Ainda bem que estamos aqui a discutir sumários! Houve tempos em que discutia o ECD (MLR), o (des)congelamento da carreira, etc… Coisas insignificantes…
Os sumários deveriam ser escritos e disponibilizados na plataforma Inovar Sige para professores, alunos e encarregados de educação.
O meu filho esteve doente uma semana, mas com capacidade para ler um livro.
Pedi, à escola, os sumários para que ele pudesse estudar em casa os tópicos lecionados nessa semana e ser mais fácil recuperar quando voltasse. A resposta do agrupamento foi que os alunos que faltam e encarregados de educação não têm acesso aos sumários. Apesar do menu “sumários” existir na APP original, o mesmo não aparece no agrupamento onde o meu filho estuda.
Se calhar esta necessidade de escrever sumários não serve para controlar professores, mas para garantir o direito de outros intervenientes do ambiente escolar ter acesso a informação necessária e facilitadora do seu trabalho…
É óbvio que devemos escrever sumários. Ponto final