54 Ainda um 31, por Lina Fernandes

…E lá vamos nós para mais uma formação sobre o Dec. Lei nº 54/2018 de 6 de julho.

 

Após tantos anos, o “54” continua a ser, para muitos professores, umautêntico “31”.

 

Colegas da Educação Especial e do Ensino Regular, escrevo-vos não apenas como alguém que habita os corredores da escola há largos anos, mas como quem sente, na “pele”, a resistência que este Decreto-Lei n.º 54/2018 ainda levanta. No meu duplo papel — ora como professora de educação especial no terreno, ora como formadora que percorre centros de formação a tentar “descomplicar” a lei — sinto que precisamos de ter uma conversa de coração aberto, mas profundamente crítica.

Já passaram quase oito anos. O que era para ser o nosso farol da Educação Inclusiva transformou-se, na gíria dos nossos conselhos de turma, num autêntico”31″. Como formadora, esforço-me diariamente para desmistificar este diploma, tentando mostrar que ele não nasceu para nos castigar com papelada, mas para nos validar a autonomia. Contudo, a realidade é teimosa: o “54” continua a ser encarado como um problema, um estorvo e uma fonte de ansiedade.

O Hiato entre a visão e a realidade: O olhar de quem forma e de quem faz

O paradoxo que encontro nas minhas formações é gritante. O DL 54/2018 preconiza um paradigma transformador, centrado na resposta a qualquer aluno. Mas, no terreno, as deficiências na implementação e a interpretação pouco assertiva da lei criam um muro de rejeição.

A armadilha da burocracia vs. A minha luta como formadora: Nas minhas sessões de formação, a primeira pergunta é quase sempre sobre “como preencher o documento/anexo X”. É desolador ver que a inclusão foi reduzida a um cumprimento documental. O foco excessivo nos documentos consome o tempo que devia ser de intervenção. Como sublinham Monteiro, Sanches-Ferreira, & Alves (2020), a falta de tempo para articulação é uma barreira crítica. Eu tento explicar que o documento deve servir a prática, mas percebo o cansaço dos colegas que sentem que estão a trabalhar para a inspeção e não para o aluno.

A resistência cultural e a necessidade de mudança: Com os anos de experiência que levo, dói-me ver que ainda não quebrámos a barreira do “teu aluno da especial”. O 54 veio dizer que todos os alunos são de todos os professores. Como refere David Rodrigues (2018), o decreto é uma oportunidade para a escola assumir que a resposta está no coletivo. Nas formações, passo esta ideia: o 54 é um aliado que nos dá base legal para
sermos criativos. Mas sem recursos, os colegas olham para mim com um ceticismo que eu, como professora, compreendo, pois também o vivo diáriamente.

A Fragilidade das Estruturas e o Papel do Docente: A criação da EMAI e dos CAA deveria ter sido o suporte que nos faltava. No entanto, o trabalho colaborativo acaba por ser atropelado pelo toque de saída. É aqui que recordo o pensamento da Professora Clarinda Barata (2019), que nos alerta para o facto de que a inclusão exige uma reconfiguração da identidade profissional do professor. Para a autora, a escola inclusiva
só se efetiva se houver uma reflexão partilhada e uma mediação constante entre os diversos atores educativos. Não basta a lei dizer que somos parceiros; a prática tem de validar essa parceria através de comunidades de aprendizagem reais. Ainscow (2020) corrobora esta visão, recordando que a inclusão é um processo contínuo de mudança na cultura das escolas. Conclusão: O compromisso ético e a escola como farol da sociedade Eu não desisto. Como diz a canção de Jorge Palma, “enquanto houver estrada para andar, a gente vai continuar”. Assumo esta máxima como o meu lema de vida no terreno e na formação: enquanto houver alunos que precisem de nós, a nossa caminhada não para. Continuo a entrar na sala de aula com a mesma premissa: o Decreto-Lei 54/2018 não vai desaparecer. O paradigma da educação inclusiva é um caminho sem retorno, pois é o único caminho ético possível. Temos de ser nós, professores, a assumir este papel diferenciador. Se não formos nós a acreditar, quem acreditará?

A escola é o ensaio geral para uma sociedade aberta, democrática e que nos aceite a todos nas nossas especificidades. Hoje, mais do que nunca, este papel é vital: recebemos diariamente inúmeros alunos migrantes que nos procuram com o mundo na bagagem e a esperança de uma vida melhor nos olhos. Para estas crianças, para as quais a língua é uma barreira mas o desejo de aprender é uma ponte, o “54” tem de deixar de ser um “31” burocrático para passar a ser a ferramenta que lhes garante dignidade. Como afirma
Boaventura de Sousa Santos (2003), “temos o direito a ser iguais quando a diferença nos inferioriza; temos o direito a ser diferentes quando a igualdade nos descaracteriza”. É nesta dialética que se constrói uma verdadeira escola e sociedade inclusivas. Enquanto houver estrada, enquanto houver alunos e enquanto houver escola, o meu compromisso será transformar este desafio numa oportunidade de justiça social.

Referências Bibliográficas (APA 7.a Edição)

Ainscow, M. (2020). Promoting inclusion and equity in education: Lessons from international experiences. Nordic Journal of Studies in Educational Policy, 6(1), 7-16.

Assembleia da República. (2018). Decreto-Lei n.o 54/2018, de 6 de julho: Estabelece o regime jurídico da educação inclusiva. Diário da República n.o 129/2018, Série I.

Barata, C. (2019). A Educação Inclusiva em Portugal: Desafios e perspetivas para a construção de uma escola para todos. Revista do Politécnico de Coimbra.

Monteiro, R., Sanches-Ferreira, M., & Alves, S. (2020). A implementação do Decreto-Lei n.o 54/2018: A perspetiva dos docentes sobre as condições facilitadoras e as barreiras à educação inclusiva em Portugal. Revista Portuguesa de Educação, 33(2), 54-72.

Palma, J. (1982). A gente vai continuar. In Antissemita [Álbum]. PolyGram.

Rodrigues, D. (2018). Educação Inclusiva: As prioridades no Decreto-Lei n.o 54/2018. Plátano Editora.

Santos, B. S. (2003). Reconhecer para libertar: Os caminhos do cosmopolitismo multicultural. Civilização
Brasileira.

Lina Fernandes

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19 comentários

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    • maria alves on 15 de Janeiro de 2026 at 15:51
    • Responder

    O “54” é de facto um “31”. As evidências mostram que não acrescentam valor às crianças, em termos de literacia. Se assim não fosse, nos testes PISA 2022 não teria subido o número de alunos que não não conseguem compreender textos nem fazer cálculos, por mais simples que sejam. Também não teria aumentado a violência nas escolas. E isto porque, tal como o “55”, assenta em princípios e práticas escola moderna que geram facilitismo e permissividade. Para além de ser prolixo, o que orienta para o “vale tudo” que resulta no caos.
    O caminho a seguir é respeitar as orientações evidenciadas pela ciência (não confundir com “ciências da educação” das ESEs=escola moderna/escola da Ponte) que acrescentam literacia aos alunos. Medida por testes internacionais, como o PISA, TIMMS e PIRLS. Cujos resultados não param de descer desde 2018, ano de publicação dos DL “54” e “55”.

    • Estêvão on 15 de Janeiro de 2026 at 16:06
    • Responder

    Peço desculpa, mas o que escreve esta senhora, recorda-me aquela paródia da Ivone Silva ” A Patroa e a Empregada/Criada”

    • PTR on 15 de Janeiro de 2026 at 16:42
    • Responder

    Mas o que é que na escola em Portugal não é burocracia? Só falta preencher um documento com 3 dias de antecedência para ir ao WC!

    • FF on 15 de Janeiro de 2026 at 17:19
    • Responder

    A educação especial, o 54, o 55, as EMAI os CAA, etc, não serão em si mesmos a evidência de que as escolas não são contextos inclusivos? Se fossem não seria necessário acrescentar-lhes toda uma estrutura que pouco acrescenta e cria uma quantidade enorme de tarefas e rotinas desnecessárias.

    Não seria mais eficaz, em vez de criar uma legislação específica com estruturas especificas, assumir que a escola (todos os profissionais e serviços da comunidade) deveriam garantir as condições para que todos pudessem aprender?

    Os professores sempre fizeram o seu trabalho pedagógico, por vezes para além do que seria exigível. E o que se observou desde 2018 foi à eliminação dos recursos especializados que davam suporte às crianças com necessidades mais severas. Foram medidas económicas de controlo da despesa, que provavelmente ate criaram outras despesas sem qq resultado.

    Uma verdadeira escola inclusiva não tem necessidade de ter tanto palavreado sobre inclusão. Será “apenas” uma ESCOLA.

    • Manuel, o impoluto on 15 de Janeiro de 2026 at 17:26
    • Responder

    Venham as passagens administrativas e parem de pressionar e perseguir os professores para atribuirem notas a quem não está apto.
    Os professores de ensino especial nada fazem por comparação com os outros. Essa é que é verdade. 7 ou 8 turmas, 200 alunos? Nã. Suas excelências só fazem relatórios chapa 3, dão uns apoios em que nada ensinam da vertente científica e só chateiam os colegas para passarem os alunos de qualquer maneira, mesmo que nada façam. Querem cruzinhas e setinhas nos testes do secundário, sala à parte, leitura de enunciados e o diabo a 4, letra assim, espaçamento assado….Por acaso. os exames nacionais são adaptados aos disléxicos/hiperativos/autistas, etc? Claro que não.
    Já não há pachorra. Venham as passagens administrativas e parem de chatear!

      • Mic on 15 de Janeiro de 2026 at 17:46
      • Responder

      Pois…mais vale a tutela ter txxxxxs e admitir que o que se pretende, em muitos casos, é mesmo isso: uma passagem administrativa para a estatística não ficar mal na chapa . Mas como não os têm, apontam os dedos aos “culpados” docentes. É mais fácil…

    • Lucas on 15 de Janeiro de 2026 at 18:44
    • Responder

    A geração do 54 e do 55 vai ser uma geração maravilhosa…

    • TOP on 15 de Janeiro de 2026 at 21:09
    • Responder

    Os miudos fo CAA não deveriam estar nas escolas… o pessoal de educação especial não tem formação nem vocação… fizeram um formação curta, com uns trabalhos online…
    E fizeram a formação para arranjar colocação…
    As escolas não têm condições físicas e os miudos são negligênciados….
    Ja passeis por mais de 20 escolas e constatei isto….
    A escola não tem competências fisicas e humanas.

    • anónimo on 15 de Janeiro de 2026 at 23:32
    • Responder

    O 54 e o 55 são lixo e como lixo que são nunca deveriam ter existido. Vieram substituir o que estava antes melhor e por isso nunca deveriam ter existido, mas já que existiram e se verificou que são uns valentes erros, há muito que deveriam ter sido revogados e substituídos por algo que , verdadeiramente, inclua.

    • Carmo Pinho on 16 de Janeiro de 2026 at 7:33
    • Responder

    Cara Lina Fernandes,
    Muito obrigada pela partilha.
    Finalmente vi neste blogue uma ideia que não seja dos velhos do Restelo.
    O problema é que em primeiro lugar tem de haver vontade e espírito colaborativo.
    Se houvesse mais empatia pelos alunos seria diferente.
    Bem haja!

    • José on 16 de Janeiro de 2026 at 10:20
    • Responder

    … Dogmas…

    • Ed. Especial vocação versus desilusão on 16 de Janeiro de 2026 at 12:17
    • Responder

    Como professora de Ed. Especial há 18 anos muito tenho a dizer sobre este tema…. O que se passa é vergonhoso. Cada escola faz como lhe apetece, uma lei com uma interpretação em cada esquina. Acabaram com recursos, colocaram tudo “no mesmo saco” , tudo sobre professores titulares / professores das disciplinas. Os professores sobrecarregados rejeitam a inclusão e rejeitam os docentes de Ed. Especial a quem reconhecem não competências nem vocação… No entanto, muitos docentes de educação especial, a maioria dos meus colegas, está impedido de fazer mais. Não faz porque as estruturas assim o ditam , porque estas equipas que prescrevem medidas a olho, impedem a correta intervenção… Tanto havia a dizer. Anseio por uma revisão séria, responsável, que tenha em conta o aluno e não medidas economicistas.

    • deadshot.oi on 16 de Janeiro de 2026 at 14:14
    • Responder

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  1. Sinceramente, ainda não acordou! Ainda não percebeu que se as barreiras continuam tão latentes é porque na prática, o Dec. Lei não é exequível. O ser humano, necessita de continuar a viver com as suas diferenças, elas não podem, nem devem ser impostas. Por isso é que não avançam, o paradigma está a apontar o dedo à diferença e não a torná-la como algo natural.

    • João Carlos on 16 de Janeiro de 2026 at 20:06
    • Responder

    Enquanto continuarmos a teimar neste velho e gasto paradigma de escola que está mais interessada em classificar para reprovar alunos e não para educar… continuaremos a adiar a verdadeira Educação!

    • Isabel on 16 de Janeiro de 2026 at 20:10
    • Responder

    Os maiores inimigos da educação especial são os próprios professores.
    Nao querem os alunos dentro da sala de aula e pedem aos professores de educação especial que os levem para fora e quanto mais tempo melhor.

      • Manuel, o impoluto on 17 de Janeiro de 2026 at 17:10
      • Responder

      Claro! É suposto fazerem alguma coisa, não? Não têm turmas, não têm testes, pavoneiam-se pela escola, passam noites e fins de semana descansados sem testes para corrigir… Ainda querem melhor?

        • Isabel on 17 de Janeiro de 2026 at 20:34
        • Responder

        O professor de educação especial não e assistente operacional e não toma conta de ninguem, é professor.

    • Pensadoiro on 18 de Janeiro de 2026 at 19:43
    • Responder

    De facto, para esta formadora/ professora ainda não se fez luz. Não basta a bibliografia, nem os princípios maravilhosos de inclusão e de que somos professores de todos os alunos. Tudo choca na exiguidade dos recursos e precisamente nos direitos de todos.
    Qualquer professor, perante a turma, é colocado perante um dilema insanável: dedico mais tempo a este (ou estes) que precisam de mais tempo, que estão distantes do nível médio dos restantes, e assim prejudico a maioria, ou dou prioridade ao que planifiquei, às aprendizagens previstas para aquele ano, e assim, inevitavelmente, deixarei alguém para trás.
    Não é justo culpar os docentes por abandonarem alunos, nem a Escola por se verificar que os princípios do 54 não se cumprem. Cumprem-se, claro, nos papéis, nos discursos dos diretores, nas respostas nos painéis da avaliação externa.

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