Medicina do Trabalho: o remédio proibido na escola doente – Paulo Ribeiro

Medicina do Trabalho: o remédio proibido na escola doente

Após o Dia Mundial do Professor e o Dia Mundial da Saúde Mental, é impossível ignorar a realidade: a escola está doente e quem ensina paga a fatura.

A Medicina do Trabalho surge como remédio tardioe, para alguns diretores, indesejado. O que devia proteger é atacado; o que devia ser celebrado é contestado.

No Dia Mundial do Professor, que devia celebrar os professores, fomos presenteados com declarações de diretores que apontam para obstáculosadministrativoscomo se proteger a saúde fosse uma ameaça à escola.

Este tipo de discurso tem uma força reveladora: avisão desumana da escola uma escola que ignora que a saúde, em particular a mental, é condição de trabalho.

A Medicina do Trabalho permite a reintegração e o regresso seguro de professores. Seria melhor continuariam de atestado/baixa, em casa?

Não é (ainda) para todos, apenas e só para os que estão doentes, após: atestados/baixas, acidentes em serviço, uma mobilidade por doença, uma necessidade de avaliação médica devidamente comprovada por relatórios médicos. A maioriapassou por juntas médicas: há o duplo crivo de validação da doença.

Médicos do Trabalho não cortam — protegem

Quem ousa afirmar que “os médicos cortam horários” é injusto, é manipulador e é enganador. Ajusta-se a carga letiva para que o professor regresse com dignidade e segurança. Protege-se a fragilidade, tenta-se a inclusão, acautela-se a Saúde Mental e evita-se a discriminação na doença.

A Medicina do Trabalho não é um problema — é parte da solução

O que alguns diretores chamam de “perturbação”, de “caos” é, na verdade, o reflexo de anos de incumprimento da Lei n.º 102/2009. O espanto devia ser outro: como se aceitou, durante tanto tempo, ignorar a saúde de quem ensina?

Competências e (ir)responsabilidades

Os médicos são contratados pelos diretores, não pelos professores.

Cumprir a lei é um dever do diretor, que deve prevenir riscos e adaptar funções, não pressionar quem está fragilizado.

É preocupante ver alguns diretores a questionar, ignorar ou contestar restrições impostas por médicoscomo se a gestão escolar incluísse competências de diagnósticos e prescrições médicas. Estaremos quiça a ver nascer uma nova carreira: a do diretormédico?!

A inversão do culpado

Há um discurso levianamente proferido que inverte os papéis: o professor é tratado como entrave, a lei como capricho.

Estes professores fazem um esforço extraordinário para continuar a trabalharquando poderiam permanecer legitimamente de baixa.

O professor é válido, é valioso, e quer contribuir. Doente, sim, mas presente.

A verdadeira falha

Falha quem não aplica a lei. Falha quem recusa ajustar horários e tarefas.

Falha quem transforma um direito num incómodo.

A Medicina do Trabalho não criou o problemaapenas o revelou.

A saúde não é obstáculo: é condição de trabalho. Professores doentes não ensinam melhoradoecem mais.

Posição da AJDF

É do nosso conhecimento, devidamente documentado, que alguns diretores adotam práticas ilegais: atuam pro lubitu suo, como se a legalidade fosse opcional.

E não são pequenos lapsos administrativos nem omissões: tratam-se de incumprimentos estruturais e decisões inconcebíveis reveladoras de uma gestão da Medicina do Trabalho digna de um manual sobre “como não fazer”. 

Em vez de diretores com discursos alarmistas sobre médicos e horários, a preocupação devia ser outra: porque estão os meus professores doentes?

Professores adoecem porque o sistema falhou e falha.

A Medicina do Trabalho impede que o sistema continue a afastar quem ainda quer ensinar. Negá-la é perpetuar a doença estrutural da escola pública.

A AJDF não recua nem suaviza posições. Onde houver silêncio cúmplice, fará ouvir os factos. Onde houver abuso, haverá denúncia.

Disponibilizamos apoio, informação e formação aos diretores, para garantir a efetiva implementação da Medicina do Trabalho nas escolas.

A Associação reafirma o compromisso de expor incumprimentos e exigir responsabilização, sustentando cada ação em rigor jurídico, humanidade e responsabilidade institucional.

Porque a lei obriga, a dignidade impõe e o dever é de todos.

O incumprimento não passará impune.

Texto de Paulo Ribeiro, Presidente da AJDF – Associação Jurídica pelos Direitos Fundamentaiswww.ajdf.pt

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15 comentários

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    • Lina on 12 de Outubro de 2025 at 8:48
    • Responder

    Parabéns pelo artigo. Perfeito espelho do que se passa na escola pública.

      • Anónimo on 13 de Outubro de 2025 at 8:16
      • Responder

      A geração que entrou há 20 anos vai lixar-se ainda mais.
      A medicina no trabalho vai dizer-lhes que têm de continuar. Ou vai lixá-los de outra forma qualquer.
      O objetivo é eliminar esta gente. Deixá-los morrer na miséria, já que não vão ter reformas nenhumas ou se as tiverem vai ser pelo salário mínimo.
      Bem estiveram os que já saíram e os que agora entram. Esses têm tudo. Os outros comem mer da.

    • AC on 12 de Outubro de 2025 at 10:13
    • Responder

    Muito bom! Realista e factual!

    • Anónimo on 12 de Outubro de 2025 at 10:23
    • Responder

    A medicina no trabalho nas escolas públicas é uma inexistência ou uma fraude.
    Tal como são muitas coisas.

    Veja-se o caso das SAD, compostas por filhos de pu ta que apenas sabem lixar os colegas que trabalham a sério, para dar de mamar a uns nojentos lambe- c us que nada fazem.

    Gente nojenta.

    É isto o que é a avaliação de desempenho.

      • Raul on 12 de Outubro de 2025 at 13:41
      • Responder

      Nem mais.

      Não percebo é porque esta porcaria não acaba de vez.

      O ministério gosta mais de fingir avaliar professores, do que em avaliar alunos.

      Isto está tudo ao contrário.

    • Mortadela on 12 de Outubro de 2025 at 11:44
    • Responder

    Parabéns pelo artigo, é mesmo isso!
    Mas a lei é clara, é faze lá cumprir se e quem fica nauseado com ela, tome medicamentos para o efeito! Há tantos no mercado!
    A ficha de aptidão passada pelo médico da Medicina do Trabalho é para CUMPRIR, e acabou a novela!!!

    • Laura on 12 de Outubro de 2025 at 12:17
    • Responder

    Excelente artigo e Excel trabalho da associação

    • Alberto Santos on 12 de Outubro de 2025 at 12:35
    • Responder

    Excelente artigo. Nunca um direito dos professores pode ser obstáculo aos diretores. Se não conseguem dar conta do recado que se demitam. Não é andarem a dizer umas baboseiras como acontece com o Filinto.

    • Anónimo on 12 de Outubro de 2025 at 13:02
    • Responder

    Os diretores, coordenadores e outros que tais são uns pulhas!
    Essa é a verdade!

      • Laura on 12 de Outubro de 2025 at 15:18
      • Responder

      As SAD são compostas por gentalha ordinária que nunca fez nada como professores.
      São lambe-botas dos diretores que se usam deles para fazer a sua política desprezível nas escolas.
      Os coordenadores de departamento, e os avaliadores internos (muitas vezes são as mesmas pessoas), são lambe-botas nomeados pelos diretores ou pseudo-eleitos através deles.
      Esta gentalha ordinária não tem competência, capacidade ou seriedade para o cargo que exerce e muito menos para avaliar ninguém.
      Foram os primeiros a protestar contra tudo, mas foram os primeiros a ganhar com o sistema. E os que tramaram os outros com a sua prepotência, mentira, falsidade e compadrio.
      A pulhice existe nas escolas. E está bem viva.

  1. A Medicina do Trabalho tem como objetivo garantir a saúde e segurança dos trabalhadores (neste caso particular, dos Professores) no seu ambiente laboral (Escola).
    Para cada caso, orientamos os ASSOCIADOS da AJDF nos procedimentos e fazemos o acompanhamento até ao final.
    ⬇️ ⬇️ ⬇️
    Ou seja, desde o pedido da consulta, orientação para os relatórios, juntas médicas e consulta de Medicina do Trabalho, análise da Ficha de Aptidão com respetivo controle da sua aplicação e, ainda, a indicação de diferentes médicos especialistas, se necessário.
    ⚠️ ⚠️ ⚠️
    Todos os passos são de extrema importância para que o processo tenha o desfecho pretendido e as recomendações da Ficha de Aptidão sejam as adequadas à sua condição de saúde.
    Se necessitar de ajuda, a AJDF está a fazer o aconselhamento e o acompanhamento nestas questões (relatórios, requerimento para a consulta, preparação da consulta e resolução das questões/situações que muitas vezes surgem após a consulta e a emissão da respetiva Ficha de Aptidão) a todos os seus ASSOCIADOS.
    Envie sff um pequeno relato da situação para o nosso email anexando toda a documentação relevante que daremos feedback assim que tivermos oportunidade.
    NOTA: a prioridade nas respostas é sempre dada aos ASSOCIADOS, como devem compreender.
    [email protected]

    Site: http://www.ajdf.pt
    Facebook: http://www.facebook.com/ajdfundamentais

  2. DIVULGAÇÃO – Grupo de WhatsApp

    ➡️ AJDF – Dúvidas e Questões – 2 ⬅️

    O objetivo deste grupo é esclarecer as dúvidas e questões através da troca e partilha de experiências pessoais e profissionais dos seus membros.
    Temas a serem trabalhados:
    •⁠ ⁠Aplicação correta do Artigo 79.º do ECD;
    •⁠ ⁠⁠Combate ao ASSÉDIO no local de trabalho;
    •⁠ ⁠⁠Implementação da Medicina do Trabalho (Serviços Moderados).

    ⚠️🚨⚠️
    É um grupo aberto onde TODOS os membros podem participar e colocar as suas dúvidas.
    A exigência do cumprimento da lei no Artigo 79.º e na Medicina do Trabalho (com a possibilidade de atribuição de Serviços Moderados), assim como o combate ao ASSÉDIO no local de trabalho (em particular, nas Escolas), são apenas três dos pontos em que estamos a trabalhar neste momento.

    https://chat.whatsapp.com/INVkV3LkEKw4PsDGWvABi9

    • zéi tóxico on 12 de Outubro de 2025 at 16:43
    • Responder

    Vai daí o pulha que costumava estar na sala onde fui votar nas legislativas mudou de sala.

    Que pena pois esse dretouro do meu agrupamento que não é mais do que um feudo da política PS me enviou de baixa prolongada diretamente à junta médica.

    Estamos no feudo de um dretouro e uma corte enorme de PS. É simples a sua actueção : escorraçar e intimidar os contra!

    VIVA A LIBERDADE.

    • José Coelho on 12 de Outubro de 2025 at 22:29
    • Responder

    Concordo com tudo e apoio sobretudo estas frases:
    Falha quem não aplica a lei. Falha quem recusa ajustar horários e tarefas.

    Falha quem transforma um direito num incómodo.

    A Medicina do Trabalho não criou o problema – apenas o revelou.

    A saúde não é obstáculo: é condição de trabalho. Professores doentes não ensinam melhor – adoecem mais.

    • Fernando Alves on 15 de Outubro de 2025 at 13:34
    • Responder

    Excelente artigo. É preferível o professor com problemas diagnosticados ter redução da componente letiva e continuar útil á escola do que meter baixa e contribuir com zero. Alguns diretores deste país têm uma mente tão limitada que não vêm isso.
    Por vezes dizem coisas sem reflectirem minimamente e depois sai bosta.
    O problema está em querer por professores com mais de 60 anos já completamente desgastados a dar aulas. Esse é o cerne da questão. Os políticos deste país não percebem nada sobre a atividade de leccionar neste país

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