Diretores escolares e poder político – Ana Mercedes Pescada

A escola é um espaço político, na medida em que replica as pulsões sociais e é onde se ensinam os valores que permitem desenvolver o pensamento crítico e assumir e defender ideais de liberdade, responsabilidade e humanidade; mas não é – nem pode ser – um espaço partidário

Diretores escolares e poder político – Ana Mercedes Pescada

Andam por aí alguns diretores escolares muito incomodados com uma corrente de opinião que considera que, face à escassez de professores, bem que podiam os diretores ter uma turma.

Todos sabemos que o problema da falta de professores passa por outras questões que implicam medidas estruturais de revitalização da carreira, com a criação de medidas geradoras de atratividade, que vão demorar anos a surtir os seus efeitos, mas que têm de ser levadas a cabo no imediato. Esta não resolveria o problema, mas serviria para demonstrar o exemplo que é pedido aos docentes quando lhes atribuem horas extraordinárias e mantê-los-ia perto da realidade de sala de aula de que muitos já estão ausentes há décadas.

Revolta os diretores que o comum dos professores não entenda a responsabilidade e a magnitude do cargo que desempenham, embora se esqueçam de mencionar que se candidataram ao lugar, recebem suplemento remuneratório e que raros querem regressar ao seu anterior papel de professor terminados os seus mandatos (até ao limite de 4).

Nos meus quase 40 anos de serviço, vi diretores muito bons, que nunca esqueceram que eram professores e não meros gestores de recursos humanos e financeiros, reconhecendo e valorizando os limites e as competências funcionais da sua profissão, respeitando os seus colegas. Mas também alguns muito maus que se encostaram ao poder político e o usaram para se promover e perseguir professores em nome de interesses que nada tinham de pedagógico ou de ação social humanitária.

Estes últimos conheci-os quando a contaminação aconteceu e as fronteiras entre as escolas e as autarquias se esbateram, dando às últimas poder de decisão em órgãos como o Conselho Geral. Os poucos que vi recusar esta contaminação foram exonerados ou demitiram-se. E, pasme-se, muita da opinião pública que fica surpreendida quando ouve dizer que há direções que pedem aos professores que sejam parcos na utilização do papel higiénico, porque a estes últimos – aos que se recusam a deixar entrar a política pelo espaço do que deveria ser eminentemente pedagógico – será negado e atrasado o pagamento destas contas de necessidades básicas por parte das autarquias e isso diz tudo sobre todo o resto, que é o essencial.

A escola é um espaço político, na medida em que replica as pulsões sociais e é onde se ensinam os valores que permitem desenvolver o pensamento crítico e assumir e defender ideais de liberdade, responsabilidade e humanidade; mas não é – nem pode ser – um espaço partidário, de defesa de cores políticas e perseguição aos que, democraticamente, instituem espaços de reflexão diferentes dos que detêm o poder.

Tenho, por isso, alguma incapacidade para entender todos os diretores professores que se encostam ao poder político para prosseguir caminho nas suas carreiras. Será interessante percorrer as listas candidatas às próximas eleições autárquicas e verificar a quantidade de diretores que constam delas e até aqueles que, de anteriores campanhas, se encontram agora em funções, quando a lei refere o caráter de exclusividade em que devem manter o desempenho do seu cargo de diretores.

Serão estes seres mutantes que se adaptaram e entenderam que já não é possível à escola sobreviver sem esta contaminação? É que parece-me mais lógico que, face à escassez de professores qualificados e ao facto de terem tempo para outras funções, estes optassem por assumir uma turma, dando continuidade à pulsão pedagógica que anima intrinsecamente qualquer professor. Existe, aliás, um ou dois (num universo de cerca de 800), que já começaram a dar o exemplo, provando que afinal é possível continuar a ser professor, apesar de ser diretor.

Por isso, perdoem-me as falsas virgens ofendidas, mas perante esta “sobrequalificação” de tantos diretores, não consigo compreender como pode o MECI (Ministério da Educação, Ciência e Inovação) desperdiçar o recurso de um diretor, face ao deserto em que se está a tornar a Escola Pública.

A menos que já tenha assumido o seu carácter híbrido, a caminho de um outro ser que está longe de ser professo

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8 comentários

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    • Luigi on 14 de Outubro de 2025 at 7:08
    • Responder

    OS diretores são uns crápulas. Não vale a pena nenhum queixar-se do trabalho. Estão lá porque querem. Ninguém os obrigou a nada.
    A grande maioria, para não dizer todos, não gosta de dar aulas e deu muito poucas durante a vida.
    Alguns serviram-se do lugar e chegaram lá por cunhas, compadrios e favorecimentos de amigos e apaniguados.
    Conheço até aqueles que não querem sair de lá, mesmo depois de reformados, porque têm telhados de vidro e querem manter a pose para com os amigos do poder.
    Alguns são uns aldrabões. Mentem e aldrabam os próprios colegas de direção e os professores, prometendo-lhes e não cumprindo.
    Outros servem-se de quem mais trabalha na escola e depois são os primeiros a espetar-lhes facas nas costas na SAD. Aliás, conheço um caso na zona oriental de Lisboa que é gritante, graças aos apaniguados coordenadores de departamento e outros roçadores de cadeiras que estão na SAD, que mais não são do que verbos de encher do diretorzeco fingidor.
    Esta gentalha ordinareca não devia ser exonerada. Devia, isso sim, ser expulsa da função pública sem direito a nada. São uns incompetentes que vivem à sombra das amizades políticas e maçónicas que os desgovernos de Portugal produzem.

    • Cenoura on 14 de Outubro de 2025 at 8:07
    • Responder

    Boa observação! Se os diretores e afins têm tempo para andar na política, aqui, ali e acolá, armados em ilustres, porque é que nos os fazem assumir umas turmas, agora que estamos a precisar de mão de obra na sala de aula??

  1. Gostei! Espero que o papel higiénico seja reciclado! Dizem que é mais macio!😂

    • KlarBestoni on 14 de Outubro de 2025 at 12:21
    • Responder

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    • Jorge Gama on 14 de Outubro de 2025 at 13:44
    • Responder

    🎶 Hino ao Senhor Diretor 🎶
    Senhor Diretor, guia firme e leal, Com olhar atento e postura sem igual.
    Nos corredores ecoa tua voz, Comanda com classe, inspira a todos nós.

    Refrão Oh, Senhor Diretor, nosso farol, Com tua sabedoria brilhas como o sol. Na pauta ou no plano, és sempre o mentor, Erguemos o hino ao Senhor Diretor!

    a hora do aperto, tens solução, Com café na mão e muita convicção.
    Reuniões tens mil, mas nunca perdes o tom, És mestre da calma, do Excel e do dom.

    Refrão Oh, Senhor Diretor, nosso farol, Com tua sabedoria brilhas como o sol. Na pauta ou no plano, és sempre o mentor, Erguemos o hino ao Senhor Diretor!

    Ponte Se há confusão, tu trazes ordem e paz, Com tua gravata e teu passo audaz. És lenda viva, exemplo de valor, Nosso eterno e nobre Senhor Diretor!

    Refrão final Oh, Senhor Diretor, nosso farol, Com tua sabedoria brilhas como o sol. Na pauta ou no plano, és sempre o mentor, Erguemos o hino ao Senhor Diretor!

    • prof on 14 de Outubro de 2025 at 16:21
    • Responder

    Em todos os países em que tenho estado, no âmbito do Projeto Erasmus, os Diretores têm componente letiva, geralmente uma turma. É importante, porque primeiro são professores, não são gestores; segundo, não se esquecem do que é ser professor!

      • CAR on 14 de Outubro de 2025 at 16:24
      • Responder

      Os de cá julgam-se uns sinhores, carago!

    • Paolos on 15 de Outubro de 2025 at 18:24
    • Responder

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