Crónica de um professor socorrista – João André Costa

 

O Luís, para além de professor, pai, mãe, polícia, terapeuta e etcétera, lá na escola também presta primeiros-socorros.
Ou melhor, agora também presta primeiros-socorros, ordens superiores, já se sabe, e quando as ordens são superiores são mesmo superiores por aí acima até ao primeiro-ministro, seguindo-se o Rei e depois Sua Excelência Altíssima Deus.
E ninguém desobedece a Deus.
Nem o Luís. Ou melhor, o Luís até desobedece, principalmente quando os outros não vêem e Deus não está em toda a parte.
Adiante.
E, por conseguinte, o Luís presta agora primeiros-socorros de manhã à noite, ao princípio, meio e fim das aulas feitas jardim zoológico enquanto o Luís vai e vem e ai do Luís se as notas dos petizes descerem. Mas isto são contas de outro rosário.
E porque no dia anterior o Jimmy lembrou-se de enfiar o dedo na corrente da bicicleta, lá se foi a ponta do indicador e aqui está o dito cujo mais o respectivo dedo em riste e o Luís a caminho da secretaria.
O dedo, antes de mais, está sujo e por lavar e depois está inchado, infectado e não promete grandes melhoras sem o devido tratamento.
E, já se sabe, para desinfectar nada como uma boa tintura de iodo, uma água-oxigenada ou então, e em casos mais extremos, álcool etílico.
Toda a gente tem pelo menos um destes três itens em casa.
Nada, nada dentro das caixas, umas compressas, muitas compressas, ainda mais compressas, toalhetes sem álcool e porquê toalhetes se não têm álcool, pensos e nada de desinfectante.
Contra as ordens superiores, o Luís sai da escola para comprar o devido produto na farmácia da esquina e a custas próprias para, ao regressar, ter um responso no telefone mais a reunião marcada para o fim do dia ao qual se junta a senhora da secretaria na sua veemência a advertir o Luís para a ilegalidade de administrar qualquer tipo de desinfectante a uma criança neste país.
E o Luís pergunta: “Mas então e o dedo? É suposto ficar assim?”
É, devidamente protegido com uma compressa ou um penso e nada mais quando a desinfeção de uma ferida é um acto médico e caso a coisa corra mal é o Luís quem responde em tribunal.
Sem hesitações do queixoso.
E lá vai o emprego do Luís à vida, ainda para mais quando agora aqui é só bandeiras nacionalistas a perder de vista pelas ruas e a caça ao imigrante declaradamente aberta.
E sem emprego, nunca mais se tem emprego.
Quanto aos desinfectantes, os mesmos são inexistentes neste país para consumo público, e quando eu digo consumo é porque é mesmo para consumir numa terra onde o alcoolismo é tal a pontos de haver quem beba álcool a noventa e seis graus sem esquecer os perfumes da mulher ao pequeno-almoço.
E, por consequência, nem pensar em providenciar tais produtos ao público em geral, público esse incapaz de refrear os impulsos quando a oportunidade surge e o Luís entre esta gente.
No meio disto tudo ainda ninguém se lembrou dos pais do Jimmy, no mínimo negligentes do lado de lá da linha e muito surpresos diante da necessidade de levar o Jimmy ao posto de saúde, e quem diz surpresos diz contrariados pelo óbvio tom de voz.
E a culpa é do Luís, até porque nestas andanças a aula chegou ao fim, os alunos andaram à solta e pendurados das janelas e o Luís feliz da vida por não ter tido de correr atrás de ninguém.
Mais vale prestar primeiros-socorros.

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1 comentário

    • Sara e as terras de Sua Majestade on 5 de Outubro de 2025 at 13:14
    • Responder

    O título do post devia ser” Rir para não chorar nas terras de Sua Majestade”.
    Subtítulo:
    Yess Sir. No Sir!

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