Mudar para melhor ou para pior?

Parece legítimo inferir que o actual MECI decidiu recuperar o protagonismo que já havia sido concedido às Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR) pelo Governo do Partido Socialista que, no final de 2022, tinha previsto o reforço da capacidade de intervenção dessas Comissões, nomeadamente na Área da Educação (Resolução nº 123/2022 do Conselho de Ministros, em 14 de Dezembro de 2022)…

No sentido anterior, já em Junho passado o actual titular da Pasta da Educação tinha expressado a intenção de aprofundar a descentralização de competências para as autarquias, sendo essa uma das prioridades elencadas pelo Ministro Fernando Alexandre, a propósito da Conferência “Educação e Futuro”, promovida pela Fundação Belmiro de Azevedo (Jornal Público, em 26 de Junho de 2025)…

A alegada descentralização administrativa na Área da Educação, pretendida em 2022, pelo Governo do Partido Socialista, parece que foi, assim, renovada pelo Governo liderado por Luís Montenegro, dando particular destaque àscompetências atribuídas às CCDR, no âmbito da Educação:

O MECI extinguiu as cinco Delegações Regionais de Educação, transferindo as respectivas competências para as Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR), nomeadamente o planeamento da rede escolar. As CCDR passam a integrar cinco vice-presidentes que poderão transitar das Delegações Regionais. (Jornal Correio da Manhã, 31 de Julho 2025)

E se em 2022 as pretensões expressas pelo Governo liderado por António Costa suscitaram muitas inquietações junto de parte significativa dos profissionais de Educação, em 2025 o mais certo é que se reiterem outros tantos receios e desconfianças, desde logo pelos seguintes motivos, em forma de perguntas:

– Alegadamente, serão extintos diversos órgãos e cargos que faziam parte da estrutura do Ministério da Educação, mas com a transferência das respectivas competências para as CCDR, quantos novos cargos poderão vir a ser criados?

– A referida transferência de competências acabará ou não por propiciar aquilo que comummente se costuma designar por jobs for the boys”?

Com a mencionada transferência de competências para as CCDR, assistiremos a uma efectiva extinção de estruturas ou apenas à mudança dos respectivos nomes e dependência?

Sabendo que cada CCDR apresenta uma estrutura orgânicacomplexa, composta por diversos órgãos com diferentes funções e múltiplos cargos, que garantias poderão ser dadas no sentido da agilização e da simplificação dos procedimentos administrativos e burocráticos, no que à Educação/Escola Pública respeita?

Pela Lei Orgânica das CCDR (Decreto-Lei n.º 36/2023 de 26 de Maio), o Presidente de cada uma das cinco Comissões (Norte, Centro, Lisboa e Vale do Tejo, Alentejo e Algarve) é eleito por um colégio eleitoral composto pelos seguintes eleitos locais da área geográfica da respetiva CCDR: Presidentes das Câmaras Municipais, Presidentes das Assembleias Municipais,Vereadores eleitos e Deputados Municipais, incluindo os Presidentes das Juntas de Freguesia

– No contexto anterior, conseguirão as CCDR, agora investidas de novos poderes e de uma renovada orgânica, agir como órgãos efectivamente independentes e isentos de eventuais interesses e directrizes partidários, no que concerne a grande parte da gestão da Escola Pública?

– Havendo cinco CCDR, em termos gerais, passarão a existir cinco formas diferentes de gerir parte significativa da Escola Pública, consoante a respectiva área geográfica?

Convirá não esquecer que, na prática, a nova jurisdição concedida às CCDR poderá significar a entrega de parte significativa da Escola Pública ao Poder Regional ou Local, designadamente a competência da gestão dos respectivos recursos humanos

Na prática, mudará realmente alguma coisa, de preferência para melhor, ou assistiremos à repetição desta “sina”: “algo deve mudar para que tudo fique na mesma”?

Respostas cabais às perguntas anteriores dificilmente existirão, neste momento

Aguardar por novos desenvolvimentos será talvez a forma mais sensata de se poder aferir acerca da qualidade da mudança agora concretizada, concedendo, por enquanto, o benefício da dúvida

Sim, é preciso ser paciente, mas, e apesar disso, paira no ar um certo pessimismo quanto a esta pretensa “regionalização” da Educação, sobretudo porque a descentralização, tão apregoada e defendida por sucessivos Governos, acabou por, muitas vezes,submeter, a Escola Pública a interesses sombrios, tornando-a refém de alguns Poderes Autárquicos, nem sempre capazes de se absterem da partidarização e do enleio em teias de relações duvidosas…

Talvez esta seja a manifestação de um “pessimismo chato, nas palavras de Ariano Suassuna

Lamentavelmente, a realidade conhecida não permite, neste momento, pensar de outro modo…

Mudar para melhor ou para pior?

Veremos o que o futuro trará

Paula Dias 

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9 comentários

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    • zéi tóxico on 3 de Agosto de 2025 at 8:31
    • Responder

    Escrutínio da selvática gestão nos agrupamento de NEO-FEUDALISMO PARTIDÁRIO parece-me BEM!

  1. Isto é um passo de gigante para a municipalização e para que os presidentes de Câmara e Junta metam nas escolas mais boys e girls.
    O compadrio, o favorecimento e a corrução sairão a ganhar.
    É mais um acelerador de corruptos e de destruição da escola enquanto lugar de aprendizagem e de liberdade democrática.

      • zéi tóxico on 3 de Agosto de 2025 at 13:18
      • Responder

      Servos da Gleba for ever!

      • Mustang Horse on 3 de Agosto de 2025 at 13:25
      • Responder

      Ah, pois é… Mas poucos se deram conta disso ou se deram fizeram de conta que não deram. Desconfio que quando “acordarem” será tarde de mais. Mas, por agora, está tudo bem, o importante é não levantar grandes ondas.

        • Nos Cascos on 3 de Agosto de 2025 at 16:39
        • Responder

        Isto vai ruir tudo!
        Os servos estão fartos de carregar os parasitas às costas!
        Justiça!!!

    • vilna on 4 de Agosto de 2025 at 21:14
    • Responder

    “…órgãos efectivamente independentes e isentos de eventuais interesses e directrizes partidários…”
    Só quem não conhece uma CCDR considera isto possível. Basta ver como o presidente é nomeado. Na legislação pode ser interessante mas na realidade deixa muito a desejar.

    O facto de poder haver 5 formas de gerir a escola pública até pode ser bom. Os territórios são diferentes não são iguais. E depois pode haver troca de conhecimentos e boa práticas. Pode ser positivo.

    1. Preocupados com as CCDR quando as escolas são geridas por KAPOS?🤣🤣🤣
      Parafraseando o Tiririca, pior não fica! Já não é possível.

        • vilna on 6 de Agosto de 2025 at 16:04
        • Responder

        Pode ser, pode ser sim

    • M. João on 5 de Agosto de 2025 at 8:10
    • Responder

    Qualquer dia os que trabalham são menos do que os chefes…
    É só coordenadores de coisas da treta, que dão muito trabalho a quem tem de trabalhar (diretamente com os alunos), com relatórios anuais do faz de conta, tudo para ficar bem na foto.

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