Opinião – Prioridade às Barbies

… sobre a vinculação extraordinária dos Açores.

PRIORIDADE ÀS BARBIES

 

Li agora a proposta de alteração assinada pelos líderes parlamentares do PS e do PCP para o concurso externo extraordinário de pessoal docente e eis como se me afigura que foram paridas as prioridades para o concurso que aí se adivinha: “senhores, vamos lá magicar em pré-requisitos do arco-da-velha, daqueles que apenas meia dúzia de almas consiga reunir, e assim só temos que encaixar essa triste meia dúzia nos quadros”, seguido de “vamos esquecer todas as outras situações que não satisfazem cabalmente as nossas exigências e depois dizemos que nem Nosso Senhor conseguiu agradar a toda a gente.” Espero sinceramente que o pensamento tenha sido este porque, se fizeram a porcaria que fizeram de forma consciente e ainda estão convencidos de que fizeram um lindo serviço, pois que estamos bem mal servidos com vossas excelências, meus senhores.

Eu encontro-me a lecionar há 10 ANOS, na MESMA escola (com apenas um ano de intervalo, mas bem lá para trás, o que não me beliscaria no concurso em apreço), na MESMA ilha, no MESMO arquipélago, MAS, heresia!, uma vez que mudei temporariamente de grupo de docência e fiz uma perninha a dar inglês nos anos letivos de 2010/ 2011 e 2011/2012 – e fi-lo com toda a pertinência porque nunca foi penalizável a mudança de grupo disciplinar e porque a lei mo permite -, perco a prioridade por não satisfazer o critério (?!) dos últimos 3 anos no mesmo grupo disciplinar. Relembremos que a minha entidade patronal é A MESMA há um ror de anos, independentemente da disciplina que eu tenha lecionado. E eu, de facto, lecionei, não fiz praia. Eu trabalhei a lecionar português e a lecionar inglês. 10 ANOS. Se 10 anos não são suficientes para merecem estabilidade, então eu não percebo onde é que se pretende chegar com este concurso. Não obstante, se não quisermos atender a isto, atendamos então aos outros quatro ou cinco anos em que lecionei português de empreitada precisamente na mesma escola. Então e estes? Não me servem para nada? E mais! Considerando os presentes critérios, só daqui a 3 anos volto a reunir os 3 anos de serviço no mesmo grupo. Isto se tiver sorte, porque agora o cerco vai apertar cada vez mais, acredito piamente.

Já tinha ouvido dizer que a vida era injusta. Já dei comigo a usar esta frase, mas agora vejo que eram só letras juntas que formavam palavras e palavras que formavam frases… Ou seja, a frase saía-me da boca, mas não do espírito. Desta vez, estou danada. Porquê? Porque andei 10 ANOS a trabalhar, ao abrigo de SUCESSIVOS CONTRATOS A TERMO, para a MESMÍSSIMA ENTIDADE, numa SITUAÇÃO DE EMPREGO PRECÁRIO, a desempenhar FUNÇÕES COMUMMENTE ATRIBUÍDAS AO PESSOAL EFETIVO e A GANHAR MENOS QUE ELES, e agora há uma mente brilhante que acorda e decreta “ah, se não tivesses ensinado inglês aqueles dois anos…” Mas que raio de argumento é este?! Eu lá adivinhava que iam parir essa exigência dos 3 anos no mesmo grupo disciplinar uns anos depois?! Que iam pegar em algo que era um direito de um professor – e salutar, até, porque refrescar saberes é bom e recomenda-se e mudar de grupo permite precisamente essa riqueza! – e vilmente distorcer esse direito de forma a torná-lo um embaraço na carreira dos docentes?! Se sim, tivessem avisado atempadamente que eu tinha-me deixado estar quietinha onde estava e efetivava agora num ápice! Esta foi, a meu ver, mais uma maneira de eliminar uns quantos da corrida aos quadros, nada mais que isso. Este critério da permanência no grupo disciplinar é tão válido como alvitrar que “vamos efetivar apenas os louros, com altura mínima de 1,80m, olhos azuis e uma tatuagem na omoplata.” Ridículo demais? Específico demais? “Não, é só porque podemos e há que afunilar esse rio de gente que vem por aí abaixo a querer efetivar.” Meus senhores, NÃO É QUERER, É MERECER.

Acho que ninguém duvida de que estamos perante uma injustiça sem tamanho. Ainda se fosse a única… Mas não. Como a “minha”, há outras. Maiores até. Gente que anda com a casa às costas por estas nossas ilhas há mais tempo que eu e que vê agora fecharem-lhe a porta – e escancararem-na a outros – porque não cumprem uma das imposições recém-paridas. Vejamos um caso concreto (o meu e o de muitos): professor tem habilitação para dois grupos – o que antes dava muito jeito e que agora é quase crime – e vai alternando entre os dois. Está fora. “Lamentamos, é considerado promiscuidade profissional.”

Acredito – faço por acreditar – que estas prioridades não foram delineadas por professores, porque evidenciam um desconhecimento atroz da realidade docente. É certo que não se pode agradar a todos, mas há que ser-se minimamente correto com aqueles que, mais que todos, há uma pequena eternidade, reúnem condições para deixar de tratar a precaridade laboral por tu. Estes pré-requisitos, da maneira que se apresentam, farão com que muitos docentes que andam por cá há menos tempo consigam entrar nos quadros e que os outros, os que acabaram por cair nas rachas do sistema, fiquem a olhar de fora, como a menina dos fósforos. Senhores, por favor, verifiquem as vossas rachaduras.

Fedra Machado

[email protected]

 

P.S.- Este texto, até pelo tom que lhe subjaz, vai trazer-me 0 amigos novos e ainda menos pessoas a telefonarem-me a dizer que a proposta foi alterada por causa dele. No entanto, quem o ler fica a saber que, neste processo, muitos docentes foram abalroados por um conjunto de critérios redigidos à la minute e sem tarelo nenhum por quem denota desconhecer a realidade dos professores.

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18 comentários

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    • Maria on 18 de Fevereiro de 2014 at 11:00
    • Responder

    O texto que a Fedra escreveu é “tão excelente” (forma e conteúdo) que digo-lhe já que, só por isso, não me importava nada de ser sua amiga.

      • carama on 18 de Fevereiro de 2014 at 14:42
      • Responder

      Parabéns pelo texto

    • ... on 18 de Fevereiro de 2014 at 11:13
    • Responder

    Concordo, em pleno, consigo. Bem haja! E daqui por uns tempos veremos quem são os que têm 1075 dias, mas não têm os 1095 dias e descobriremos os iluminados. É que menos uns dias que o correspondente aos 3 anos só pode querer dizer que há alguém que, ainda não os tem, mas já tem 1075 dias…

    • Professora on 18 de Fevereiro de 2014 at 11:50
    • Responder

    Penso que esta situação deverá ser apresentada aos sindicatos regionais (spra/fenprof e sdpa/fne) e eventualmente pedir uma audiência ao Sr. Secretário Regional ou noutras instâncias, a fim de expor o caso. Pois ficarão prejudicados todos os que têm habilitação do tipo;
    – Português + língua estrangeira;
    – 1º Ciclo com uma especialização no 2º ciclo;
    – um grupo de recrutamento + educação especial;
    – etc.

    Numa altura em que existem menos horários para contratação (também nos Açores) é natural que as pessoas apostem em vários grupos a fim de conseguirem uma colocação, pelo que não devem ficar prejudicadas dado assegurarem o serviço em escolas públicas.

    Quanto à questão dos 1075 dias, ou é um claro favorecimento, ou então baixaram 20 dias para não prejudicar eventuais atrasos da Secretaria Regional na saída das colocações no início de setembro (!!??).

    Como o diploma está aprovado e não publicado aconselho-a a mexer-se o mais depressa possível, a reuniar mais casos, não perca tempo e não se cale.

    Boa sorte!

    Já agora é preciso ter atenção com o que vai ficar aqui no Continente. Acho que é preferível aumentar a tempo de serviço (em escola públicas) como requisito de admissão a concurso do que limitar a candidatura a um grupo (embora não me pareça que seja isso que está na proposta).

    • Marmelo on 18 de Fevereiro de 2014 at 11:54
    • Responder

    Cara Fedra,

    Também sou seu amigo se concordar que os recém-licenciados/”bolsistas” do arquipélago não deveriam ter prioridade sobre os continentais com dezenas de anos de serviço docente. Pessoas sem experiência profissional com graduação de 11 e 12 à frente pessoas com graduações de 24, 25 e 26 só mesmo na República dos Ananases. Nem na Madeira têm esse critério…

    Sobre os 1075 dias (em vez de 1095 = 365×3), como escrevi num outro post deve ser para algum deputado que está farto do parlamento regional ou então os deputados tiveram aulas de matemática com um recém-licenciado do arquipélago.

    Amigos, preparem-se pois quando forem as autarquias a colocar os docentes os critérios serão ainda mais “estranhos”… Sim, porque provavelmente Lisboa, Porto, V.N. Gaia, Sintra, etc… devem ter mais professores a lecionar do que as Regiões Autónomas. Vamos ter dezenas de concursos injustos em vez de apenas esta promiscuidade regional.

      • Cristina on 19 de Fevereiro de 2014 at 15:43
      • Responder

      Acho uma piada, falam mal da “República dos Ananases” mas querem todos cá trabalhar…

      • EPFC on 19 de Fevereiro de 2014 at 21:22
      • Responder

      Todos nós puxamos a brasa à nossa sardinha… Neste caso, só pensam nos Açores, quando cá querem vir encher a pança e depois bazam… Tenha juízo. Você não sabe o que diz… nem de longe… e pense (se conseguir) que um burro calado passa por discreto…

      • André Faustino on 20 de Fevereiro de 2014 at 0:04
      • Responder

      Caro Marmelo. Apesar da forma insultuosa a que se refere à região, vou-me centrar nos “bolsistas”… Se uma região investe numa pessoa durante anos, depois vai por o seu investimento para o lixo? Não estou nessa situação e por isso nunca usufruí dela. Até pelo contrário fui prejudicado pela mesma… Sou açoriano e não estive na prioridade durante 6 anos… Até que juntei 3… De qualquer maneira, o seu comentário não é de uma pessoa formada e se Lisboa e Porto têm mais docentes que os Açores esqueça-nos… e centre os seus concursos lá… A prioridade já existe à mais de 10 anos e neste momento é que os continentais se aperceberam dela? Será coincidência por as coisas terem “apertado” aí pelas suas bandas? Sabe porque apareceram estas prioridades? Porque continentais como você vinham efetivar aqui aos Açores apenas para servir de trampolim aí para o continente… O “marmelo” acabou e agora andam todos revoltados… Sabe porque apertaram com faltas, atestados, etc? Porque muitos abusaram… É sempre assim… Existe sempre aquele que pensa que é mais iluminado que o outro…

        • cromo iluminado on 20 de Fevereiro de 2014 at 22:47
        • Responder

        «…já existe há mais de dez anos…» (verbo haver)

        • Marmelo on 21 de Fevereiro de 2014 at 21:40
        • Responder

        André,

        Peço desculpa… Não foi minha intenção insultar os açorianos. Aliás, apesar de continental, já visitei os Açores várias vezes e só tenho pena de as viagens serem tão caras para que pudesse conhecer as 4 ilhas que me falta conhecer. Já agora, se me puder enviar Bolo Levado aqui para o continente agradeço… Que saudades! 🙂

        Também não sou docente, pelo que os comentários sobre se os continentais só pensarem nos Açores agora, sobre os trampolins e afins não me afeta diretamente.

        Deixe-me apenas comentar a sua frase ” Se uma região investe numa pessoa durante anos, depois vai por o seu investimento para o lixo?”. Afinal não somos todos portugueses? É a região que investe no investimento ou é o país inteiro? Por essa ordem de ideias os portuenses e lisboetas também deveriam favorecer os licenciados da sua “região”, e os aveirenses, bracarenses, etc… Francamente!

        É por este tipo de pensamento de pequenez que este país não vai para a frente.

    • gin on 18 de Fevereiro de 2014 at 12:26
    • Responder

    Fedra fez uma exposição de nota 20.
    Tanta mudança de regras para quê? Como é possível haver deputados numa assembleia que, para dar seguimento à queixa apresentada na comissão europeia, inventam de tal forma, que só vêm destabilizar todo o concurso externo e por consequência, todos os contratos vindouros, que serão escassos.
    E quanto às tão criticadas prioridades regionais, com 8 anos lecionados no continente e 4 na região, consigo ter a perspetiva de que vão aniquilar o único concurso que permitia dar ao corpo docente alguma estabilidade, onde tem prioridade quem cá quer lecionar e lecionou durante anos a fio, com justiça e clareza, e não quem pensa vir aos Açores apenas lecionar para à primeira oportunidade regressar ao continente. Conheço vários colegas que já lecionavam há 2 e 3 meses e dp abandonaram a escola, dando-se ao luxo de pagar uma indemnização às escolas, porque ao mesmo tempo continuavam mal e muito provavelmente ilegalmente com a sua candidatura no continente ativa à espera de colocação Se estes colegas não cá querem trabalhar não concorram.
    Completamente intolerável.
    São deputados que mais nada têm para fazer, logo vão mexer na pasta da educação que estava tão arrumadinha para mostrar trabalho MAL FEITO!

    • João Bento on 18 de Fevereiro de 2014 at 13:50
    • Responder

    Também estou na mesma situação. Leciono nos Açores desde 2004 e consecutivamente desde setembro de 2008. Sou inclusive o número 2 da lista do meu grupo (200), mas como lecionei noutro grupo (300) nos últimos 3 anos tb não posso concorrer em 1.ª prioridade. É ridículo concorrer na 1.ª prioridade no concurso externo ordinário e não poder concorrer no concurso externo extraordinário. Ao contrário tb é possível, não ter a prioridade no ordinário (pq não tem os 3 anos completos – 1095 dias) e tê-la no extraordinário (1075 dias). Lá pq investi na formação e em opções de carreira, tenho habilitação profissional para 3 grupos (200, 300 e 700), não deveria ser prejudicado por isso. Já fiz a minha exposição e enviei para os emails dos deputados regionais, da SREC, da DRE, Presidente e Vice-Presidente, sindicatos, … Vamos ver no que dá, mas não ponho de lado a tentativa de interpor uma providência cautelar

    • ana on 18 de Fevereiro de 2014 at 13:52
    • Responder

    O que nos espera não é melhor!A avaliar pela proposta do MEC.Afinal o minimo de 365 dias nos últimos 3 anos nada têm a ver com ANOS de serviço!

    • António Vinhas on 18 de Fevereiro de 2014 at 16:04
    • Responder

    Excelente texto, com excelente argumentação. Não acredito que o líder parlamentar do PS tenha assinado esta proposta.

    • João on 18 de Fevereiro de 2014 at 22:11
    • Responder

    Concordo e subescrevo com o que está no texto da Fedra. Passa-se o mesmo comigo, 15 anos de serviço, sempre horário completo, e, pelas mesmas razões, ainda não é desta!!!

    • crio on 18 de Fevereiro de 2014 at 22:50
    • Responder

    concordo 100%

    • Carmo on 18 de Fevereiro de 2014 at 23:53
    • Responder

    Carmo

    Tem de certeza mais uma amiga com 22 anos de serviço e sempre em contrato.
    Obrigada pelas suas palavras.Excelente!

    • Domingos Fontoura Fernandes on 20 de Fevereiro de 2014 at 20:11
    • Responder

    Já dei pessoalmente os parabéns à Fedra pelo texto e pela nforma não passiva como reagiu à situação, mas não posso deixar de vir aqui dar-lhe o meu total apoio e solidariedade!
    Os governos, com estas medidas insanas, parecem ser compostos por elementos sem visão social ou qualquer sentido de justiça. São dotados de um qualquer alelo mutante que os capacita a engendrar artimanhas político-legais que não lembram nem ao inquisidor mais macabro!
    “ora deixa cá ver como é que eu vou chacinar mais uns cidadão úteis à sociedade com novas medidas que temos de aprovar….”.
    Estas regras que nos deixam a (quase!) todos em perfeita atonia têm todos os contornos de favorecimento bem esculpidos no fac-simile (para não dizer testa!), como se houvesse um filho de uma amiga de um cunhado de um primo de uma nora da tia do sogro do irmão de alguém mesmo ali na orla à espera de apenas poder subir um lugar numa lista e conseguir entrar em quadro.
    Fazes bem, Fedra, não te cales, não te fiques, não te deixes levar por lorpa, passando o vernáculo,

    Cumprimentos solidários!

    Mingos

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