Há um novo fenómeno a instalar-se à porta das escolas e, desta vez, não é o telemóvel, não é a Internet, não são as redes sociais e muito menos a inteligência artificial. É o adulto que decidiu que o seu filho tem sempre razão.
É o pai que, perante uma chamada de atenção, pergunta imediatamente “mas o que é que fizeram ao meu filho?”. É a mãe que chega à escola preparada para defender a criança antes sequer de saber o que aconteceu. É o encarregado de educação que transforma qualquer consequência numa injustiça, qualquer regra numa perseguição e qualquer reparo num ataque pessoal à criança. É o adulto que, em vez de perguntar ao filho “o que fizeste?”, pergunta “o que é que te fizeram?”.
E assim começa o problema.
Há pais e encarregados de educação que parecem ter assumido como missão de vida impedir que os filhos enfrentem as consequências dos seus próprios comportamentos. Se a criança faltou ao respeito, alguém a provocou. Se teve um conflito com um colega, foi o outro que começou. Se perturbou a aula, estava aborrecida. Se não cumpriu uma regra, a regra é exagerada. Se teve uma consequência disciplinar, a escola está a persegui-la. Se teve uma avaliação menos positiva, o professor não gosta dela. Se não fez o trabalho, houve seguramente uma razão extraordinária que justifica a exceção.
O filho nunca erra. Quando muito, “tem reações”.
E quando erra, a culpa já está devidamente distribuída: professor, diretor de turma, escola, colegas, sistema educativo, regras, circunstâncias, Lua, marés e, se necessário, a própria escola pública.
Há aqui uma confusão que precisamos de desfazer rapidamente: proteger um filho não significa protegê-lo das consequências de tudo aquilo que faz.
Pelo contrário.
Educar é precisamente prepará-lo para perceber que as escolhas têm consequências, que existem regras, que há direitos mas também deveres, que nem sempre terá razão, que nem sempre será tratado como gostaria e que, sobretudo, não pode esperar que alguém apareça permanentemente para limpar as consequências dos seus atos.
Uma criança que nunca ouve um “não” em casa não fica mais preparada para a vida. Fica menos preparada.
Um jovem a quem nunca dizem que errou não se torna mais confiante. Torna-se simplesmente menos capaz de reconhecer o erro.
E um aluno que aprende que basta telefonar aos pais para contestar qualquer decisão da escola pode rapidamente concluir que as regras são negociáveis desde que encontre um adulto disposto a negociá-las por ele.
É aqui que alguns pais, provavelmente com as melhores intenções do mundo, acabam por prestar aos filhos um dos piores serviços educativos que lhes podem prestar.
Transformam-se nos seus advogados permanentes.
E há uma diferença enorme entre ser pai e ser advogado do filho.
Um pai deve proteger.
Mas também deve ensinar.
Deve ouvir.
Mas também deve questionar.
Deve defender quando é necessário.
Mas também deve ter a coragem de dizer: “Se fizeste isso, estiveste mal.”
Esta frase, aparentemente tão simples, começa a tornar-se perigosamente rara.
Há pais que chegam à escola indignados porque o filho foi chamado à atenção por interromper uma aula. Outros porque recebeu uma ocorrência. Outros porque um professor lhe pediu respeito. Outros porque foi aplicada uma regra que, segundo entendem, “não faz sentido”. E há ainda aqueles que aparecem na escola já com a sentença escrita, sem terem sequer escutado a outra versão.
O filho falou.
Logo, é verdade.
A escola falou.
Logo, está errada.
É uma equação extraordinariamente conveniente.
Mas educar não pode ser isto.
A escola não é inimiga dos pais. E os professores não são adversários dos alunos. Quando uma escola estabelece regras, exige respeito, responsabiliza um aluno pelos seus comportamentos ou comunica uma situação aos encarregados de educação, isso não significa que esteja contra a criança.
Significa, muitas vezes, precisamente o contrário.
Significa que ainda há adultos a fazer aquilo que compete aos adultos: estabelecer limites.
E os limites não são uma forma de violência educativa. São uma forma de segurança.
Uma criança precisa de saber onde começa e acaba o comportamento aceitável. Precisa de perceber que não pode insultar porque está zangada, agredir porque foi provocada, interromper porque está aborrecida ou desrespeitar porque “não gosta do professor”.
E precisa, sobretudo, de perceber que o facto de os pais a amarem incondicionalmente não significa que tenham de considerar corretos todos os seus comportamentos.
Talvez uma das maiores dificuldades da educação atual seja esta: há pais que confundem amor com desculpabilização.
Amar um filho não é dizer-lhe sempre que tem razão.
Amar um filho também é contrariá-lo.
É dizer-lhe não.
É exigir responsabilidade.
É fazê-lo pedir desculpa.
É permitir que enfrente uma consequência adequada.
É ensinar-lhe que os outros também têm direitos.
É fazê-lo perceber que respeito não é uma coisa que se exige aos outros enquanto se considera que as próprias atitudes estão sempre justificadas.
E talvez seja tempo de recuperarmos uma palavra que parece ter ficado esquecida algures entre a parentalidade moderna e a cultura da indignação permanente: responsabilidade.
Responsabilidade dos alunos, naturalmente.
Mas também responsabilidade dos adultos.
Porque não há escola capaz de educar sozinha uma criança quando, fora dela, todos os comportamentos são desculpabilizados.
Não há professor que consiga ensinar respeito se o aluno chega a casa e ouve que “ninguém manda nele”.
Não há diretor de turma que consiga trabalhar autonomia se, perante cada dificuldade, aparece um adulto para resolver tudo.
Não há medida disciplinar que produza efeito se a mensagem transmitida em casa for “não te preocupes, eu vou à escola tratar disso”.
E não há projeto educativo que resista quando família e escola deixam de ser parceiros e passam a comportar-se como duas equipas adversárias.
Os pais não precisam de concordar sempre com a escola.
Aliás, não devem.
Devem questionar quando têm dúvidas, pedir esclarecimentos quando consideram necessário e exigir que os seus filhos sejam tratados com justiça e respeito.
Mas também devem estar disponíveis para ouvir a escola.
Porque educar é uma responsabilidade partilhada.
E, às vezes, a melhor coisa que um encarregado de educação pode fazer pelo seu filho não é defendê-lo.
É dizer-lhe:
“Conta-me exatamente o que aconteceu.”
E depois:
“E o que fizeste tu?”
Esta segunda pergunta pode ser muito mais educativa do que uma dezena de telefonemas indignados.
Porque talvez o verdadeiro problema não esteja apenas nos telemóveis, na Internet ou nas redes sociais.
Talvez esteja também nos adultos que, com medo de ver os filhos sofrer, decidiram que eles nunca devem ser contrariados.
Só que a vida vai contrariá-los.
Vai dizer-lhes não.
Vai fazê-los perder.
Vai obrigá-los a pedir desculpa.
Vai confrontá-los com pessoas de quem não gostam.
Vai mostrar-lhes que nem sempre têm razão.
Vai exigir responsabilidade.
E, quando esse momento chegar, será muito mais difícil aprender aquilo que em casa nunca lhes permitiram experimentar.
Por isso, pais e encarregados de educação, talvez valha a pena trocar uma pergunta.
Em vez de perguntarmos sempre “o que estão a fazer ao meu filho?”, talvez devêssemos começar, algumas vezes, por perguntar:
“O que está o meu filho a fazer?”
Não é abandonar os filhos.
Não é deixar de os defender.
Não é aceitar tudo o que a escola diz.
É algo muito mais difícil.
É educá-los.
Porque educar não é criar crianças que acreditam que nunca erram.
É preparar pessoas capazes de reconhecer quando erraram, assumir as consequências, aprender com elas e fazer melhor da próxima vez.
E isso, por muito que alguns adultos não gostem, continua a ser uma das funções mais importantes da família e da escola.
Educar é amar. Mas também é ensinar limites, responsabilidade e respeito.





3 comentários
O maior problema, acho, é que mesmo que os EE de Educação lessem este texto (partindo do princípio de que tinham capacidades cognitivas para o entender) sentiriam, na sua maioria, que o texto não era sobre eles, mas sim sobre outros. Nunca conheci ninguém que não tivesse razão… Assim, ou a sociedade muda radicalmente ou é absolutamente inútil estar a discorrer sobre o que todos nós sabemos perfeitamente.
E depois queixam-se que não há professores…
Que se continue a passar as crianças sem saber… Que se continue impune às ameaças e agressões de encarregados de educação sem qualquer impunidade imediata aos alunos e encarregados de educação.
Que se continue a dizer que poderão ser problemas sociais ou o que as rodeas…
Iremos ter um futuro bem pior … assim ninguém quererá ser professor!
Perdemos autoridade por culpa das lideranças governativas e diretivas!