Há em Portugal, como há tantas coisas em Portugal, e, aliás, há tudo em Portugal incluindo não só a árvore dos Patafúrdios, mas também uma engrenagem invisível a exigir aos docentes, na delicadeza burocrática de um carimbo, uma formação contínua e incessante, eterna, e o saber, ou a falta dele, é uma dívida para sempre por saldar.
Dizem-lhes: é um direito e um dever. E a frase, tão redonda, tão perfeita, é uma armadilha.
É uma patranha. Das grandes.
Porque se o direito vem com o reconhecimento, já o dever é esta hera a crescer pelas paredes da vida, a nossa vida tantas vezes espoliada e vilipendiada noite dentro e depois das horas de trabalho, quando o corpo, e com o corpo a cabeça, grita por silêncio e repouso.
Qual repouso? Não há repouso.
A lei, discreta como um burocrata a evitar olhar-nos de frente, sublinha ser a formação contínua essencial para a qualidade do ensino, para a melhoria dos resultados, para o aperfeiçoamento permanente do docente.
E ninguém discorda.
E todos anuem.
Atire a pedra o primeiro professor contra o aperfeiçoamento!
E o problema não está na ideia, mas na geografia da mesma: cursos espalhados pelo país, inscrições pagas do próprio bolso, deslocações a somar quilómetros como contas de um rosário, horas roubadas ao jantar, aos filhos, ao sono.
Professores a conduzir a noite, faróis como pequenas confissões na estrada a caminho de uma outra escola ou um qualquer centro de formação no meio de um baldio no meio de nenhures, Bem-Vindo a Nenhures, para ouvir falar de metodologias activas enquanto o sono cabeceia contra a parede mais o meu reino por uma cama, o meu reino por uma cama e o meu reino por uma cama agora.
Uma formação independente das necessidades da escola e dos alunos, ao invés liberalizada e transformada num verdadeiro mercado pago por quem ensina para poder progredir na carreira. E há nisto há qualquer coisa de ironicamente cruel: para ensinar melhor é preciso primeiro sobreviver ao sistema concebido para ensinar melhor.
Depois atravessamos o mar, esse intervalo salgado a separar não só territórios, mas maneiras de pensar, e encontramos o Reino Unido, onde a palavra formação não vem carregada de culpa, mas de calendário.
Ali, cinco dias por ano, cinco dias inteiros, são retirados às aulas como quem abre as janelas de uma casa fechada. Chamam-lhes “INSET days”, dias sem alunos, dias nos quais os professores continuam a trabalhar mas trabalham para si próprios, para a escola, para o colectivo. Não são horas clandestinas roubadas à noite, são horas reconhecidas, inscritas no tempo de serviço e no horário de trabalho.
Nesses dias, a escola pára para pensar. A Direção observa, escuta, decide quanto faz falta aprender, não por capricho mas por necessidade real, alinhando a formação com os alunos, com as dificuldades concretas, com o futuro possível daquela comunidade. Não é o professor quem anda à procura da formação como quem procura água no deserto, é a formação ao encontro da escola numa resposta organizada.
E talvez o mais estranho para nós seja isto: não pagam por isso. Não pagam para aprender aquilo exigido pelo sistema. Não atravessam o país em peregrinação pedagógica. Estão no seu horário, no seu espaço, no seu lugar.
E no meio disto tudo fica uma pergunta por enunciar em voz alta, talvez por pudor, talvez por hábito: desde quando o tempo dos professores não tem valor? Desde quando alguém confundiu vocação com disponibilidade infinita?
E assim, os professores neste Portugal dos Pequenitos, continuam a ensinar, com uma coragem silenciosa, quase teimosa.
O contrário é esta ideia a preto e branco e em papel à espera da sua hora lusitana: cinco dias por ano, cinco dias apenas, um gesto de respeito, uma pausa para reconhecer como ensinar também é aprender, e aprender não é um castigo.
João André Costa




3 comentários
Também a estúpida fusão do 1º/2º Ciclo irá trazer mais formação imposta, mesmo que, em termos de progressão, o profissional dela não necessite…
Será mais um rosário de dias a sair do trabalho entre as 20 e as 21h00 para, depois, estar bem fresquinho às 08h30 do dia seguinte à frente de n alunos (faz lembrar aquele “palhaço feliz”, que tem que fazer rir os outros mesmo estanto a sua alma devastadamente triste…).
Não sei se o autor do artigo se lembra mas chegou a haver um artigo específico para faltas ao abrigo da formação contínua. O modelo funcionava e possibilitava uma variabilidade e liberdade de escolha muito maior em função do caminho que cada docente entendia trilhar. Ou seja, não há aqui ignorância ou desconhecimento da tutela, nem são precisos exemplos do estrangeiro. Se eles nos tomam por parvos não façam o mesmo com eles, eles sabem o que fazem e o que fazem é lavagem cerebral com a convivência e beneplácito das autarquias que gostam de ver as summits cheias de carneirada.
A formação contínua de professores tem servido muito bem os negócios da formação que , em Portugal, consomem milhões de euros dos contribuintes europeus e portugueses. Ganham os grupos minoritários dos modelos escola moderna e do digital (métodos ” interativos”=o aluno aprende sem professor). Os modelos que travam o desenvolvimento da literacia, sem a qual os alunos não conseguirão, no seu futuro, incluir-se e gerar boas vidas, com saúde e produtividade. Como comprova a descida dos resultados dos testes internacionais. Por exemplo, os resultados PISA Portugal desceram em 2022 aos níveis de 2006. Ou seja, a formação tem servido para enriquecer esses grupos, apesar de hipotecarem o futuro dos alunos, famílias e país. Para além de contribuírem para o esgotamento de professores e, por consequência, para a falta de professores. É caso para perguntar: Para que querem os professores uma carreira especial? Se depois, têm de pagar formação e fazê-la fora do horário de trabalho? Se ficam sem Medicina de Trabalho? Se trabalham em três turnos num dia? Se milhares de professores são mantidos em precariedade durantes dezenas de anos? Se ganham menos do que nas carreiras superiores da administração pública? Se são enxovalhados publicamente por políticos? E muito mais abusos. Mais vale estar abrangido pela lei geral para as carreiras públicas.