A medida veio do nada. Ninguém estava à espera. Não tinha sido anunciada formalmente. Não fará parte de um plano maior?
Melhorar a aprendizagem: um currículo exigente e flexível para contextos de incerteza (pags. 166,167 e 168 do Programa d o XXV Governo Constitucional)
“Reestruturar os ciclos do ensino básico, integrando os 1.º e 2.º ciclos, de forma a alinhar com as tendências internacionais e garantir uma maior continuidade nas abordagens e um desenvolvimento integral dos alunos;”




7 comentários
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Uma medida para calar a, cada vez mais depauperada, classe dos professores primários que, imaginem, querem comparar o seu trabalho com o dos professores dos restantes ciclos. Turmas com 100 ou praticamente 100% de classificações positivas, um currículo simples e simplista, uma só turma com vinte ou vinte e poucos alunos…
A medida que estava anunciada no programa de governo (extensão do ensino de inglês aos 1° e 2° anos), essa, nem cheta… Não há professores para tal. A Ed. Física é só para tapar os olhos aos incautos… Sem balneários, chuveiros e material adequado. Os alunos vêm de casa equipada, ficam transpirados o tempo restante, pós aula, e aprendem com bolas de trapos e afins…
SERÁ QUE É DESTA QUE OS COLEGAS DE EDUCAÇÃO FÍSICA VÃO COMEÇAR A TRABALHAR EFETIVAMENTE???
Educação fisica um grande lobie
Não estou a entender a indignação,por causa da educação física.
As minhas filhas com 18 e 15 anos, sempre tiveram educação física, na escola, dada por um professor de educação física, e nunca pelo professor titular do 1° ciclo.
A educação física era dada ao abrigo das AEC s.
Agora só passou para decreto de lei, uma prática que existe há anos, dando agora a hipótese aos professores de educação serem contratados pelo ministério da educação, por concurso nacional de professores e assim contar para os anos e progressão de carreira, em vez de serem contratados pelas câmaras municipais.
Não entendo o alarido todo.
Poderá haver outras mudanças ou alterações, com que se devem preocupar,
Mas a Educação física é um não assunto.
Os professores do 1ciclo são a Base e o pilar para todo o percurso académico e de vida das nossas crianças, estejam mais preocupados com o ensino da leitura, escrita e da matemática.
Estejam bem atentos as dificuldades das crianças em aprender, as pequenas falhas e tentem entender se realmente é por distração ou será por alguma deficiência ou síndrome.
Há problemas que quando detectados no 1 ciclo são mais fáceis de tratar do que depois na adolescência.
A construção de uma casa deve começar sempre pelas fundações (não esquecendo o pré escolar que, na minha opinião deveria ser obrigatório a partir dos 3 anos)!! Muita gente nem imagina o que é pôr uma criança a ler!!
A metáfora das fundações é muito pertinente, e é precisamente por isso que a investigação em desenvolvimento infantil defende que, aos 3 anos, as “fundações” vão muito além da aprendizagem da leitura. Estudos da psicologia do desenvolvimento e das neurociências (como os de Piaget, Vygotsky e investigações mais recentes da OCDE e da AAP) mostram que, nesta idade, o cérebro da criança está sobretudo focado no desenvolvimento da linguagem oral, da motricidade, da autorregulação emocional, das competências sociais e do brincar simbólico.
Forçar a leitura precoce não traz benefícios comprovados a longo prazo e pode até gerar frustração e desmotivação. Pelo contrário, crianças que brincam, exploram, comunicam, resolvem conflitos e desenvolvem a curiosidade constroem bases muito mais sólidas para aprender a ler e a escrever mais tarde, de forma natural e com prazer. O pré-escolar é essencial, sim — mas como espaço de desenvolvimento global da criança, e não como antecipação formal do ensino académico.
Há um certo tipo de discurso que só prospera à custa da ignorância — ou da má-fé. Diminuir o trabalho do professor do 1.º Ciclo comparando números crus, percentagens de sucesso ou caricaturas de currículo revela um profundo desconhecimento da realidade da escola básica e, sobretudo, do que significa ensinar crianças.
Comecemos pelas famosas “turmas com 100% de classificações positivas”. Isso não é sinal de facilitismo, como se quer fazer crer, mas sim de acompanhamento diário, contínuo e exaustivo. No 1.º Ciclo, o professor não avalia apenas resultados finais: avalia processos, evolução, maturidade, autonomia, linguagem, pensamento lógico, comportamento e competências sociais. Um aluno não “aparece feito” no 2.º Ciclo. Se chega lá a ler, escrever, raciocinar e respeitar regras, alguém fez esse trabalho invisível — e foi o professor do 1.º Ciclo.
Quanto ao “currículo simples e simplista”, só quem nunca o leccionou pode afirmá-lo. Ensinar a ler e a escrever não é simples. Ensinar matemática básica não é simplista. Pelo contrário: é a fase mais exigente de todo o percurso escolar, porque é ali que se constroem — ou se comprometem — todas as aprendizagens futuras. Um erro no 1.º Ciclo propaga-se durante anos. Um bom trabalho no 1.º Ciclo sustenta todo o edifício educativo.
Falar de “uma só turma com vinte e poucos alunos” é outro argumento revelador de desconhecimento. O professor do 1.º Ciclo tem uma só turma, sim — mas tem-na o dia inteiro, todos os dias, durante anos. É professor de Português, Matemática, Estudo do Meio, Expressões, Cidadania, Apoio individual, mediador de conflitos, gestor emocional, técnico administrativo improvisado e, muitas vezes, assistente social informal. Não muda de turma, não muda de contexto, não tem pausas entre aulas. Gere vinte realidades diferentes em simultâneo, do primeiro minuto ao último.
A verdade é simples e incómoda: só quem já leccionou no 1.º e no 2.º Ciclos pode comparar com justiça. E quem o fez sabe que o desgaste físico, emocional e pedagógico do 1.º Ciclo é profundo. Sabe que ali não se “debitam matérias”: constroem-se pessoas, hábitos, bases cognitivas e emocionais. Sabe que não há glamour, mas há responsabilidade total.
Desvalorizar o professor do 1.º Ciclo é desvalorizar o início de tudo. É esquecer que nenhum aluno chega ao 2.º, 3.º ou Secundário sem ter passado por aquelas mãos. E é, acima de tudo, falar sem conhecimento de causa — algo que, ironicamente, a boa escola do 1.º Ciclo tenta evitar desde o primeiro dia.