A IA não educa os filhos. Mas há quem espere que a escola o faça

 

Há uma palavra que aparece sempre que um adolescente faz uma coisa particularmente miserável: “brincadeira”. Despiram digitalmente uma colega, fabricaram uma imagem falsa de uma adolescente nua, partilharam-na num grupo de WhatsApp e divertiram-se com a humilhação? Brincadeira. Gravaram alguém a ser agredido? Brincadeira. Expuseram uma fotografia privada? Brincadeira. Insultaram, perseguiram, humilharam? Brincadeira. É extraordinário como a palavra “brincadeira” se tornou uma espécie de detergente moral com que se tenta lavar tudo aquilo que, dito sem filtros, é simplesmente cobardia. A Polícia Judiciária vem agora dizer que estes casos existem, que chegam às escolas, que envolvem sobretudo adolescentes entre os 12 e os 16 anos e que alguns comportamentos podem configurar crime de pornografia de menores. Portanto, talvez seja altura de acabar com a comédia: não estamos perante uma nova forma de entretenimento juvenil. Estamos perante adolescentes a cometer atos que podem ser criminosos e perante adultos que, demasiadas vezes, continuam a procurar uma explicação confortável para não terem de enfrentar a mais incómoda de todas: alguém falhou na educação daquela criança.

E não, a culpa não é da Inteligência Artificial. A IA apenas democratizou a possibilidade de fazer em segundos aquilo que antes exigia algum conhecimento técnico. O problema estava cá antes. A tecnologia apenas lhe deu velocidade, escala e uma aparência de impunidade. Um adolescente que pega na fotografia de uma colega e a transforma numa imagem pornográfica não está a descobrir as maravilhas da tecnologia. Está a descobrir que pode humilhar alguém e que, no grupo de amigos, provavelmente ainda receberá gargalhadas, emojis e palmadinhas virtuais nas costas. O problema não é apenas tecnológico. É cultural. É social. É familiar. É a consequência de uma geração que está a crescer num ambiente em que a exposição pública, a humilhação e a transgressão são frequentemente recompensadas com atenção. E é aqui que começa a conversa que muitos não querem ter.

Porque há uma pergunta bastante simples que devia ser feita antes de convocar mais uma reunião na escola, elaborar mais um protocolo, produzir mais um cartaz sobre cidadania digital ou criar mais uma campanha institucional: onde é que estes miúdos aprenderam que isto era aceitável? Não aprenderam na aula de Informática. Não foi o professor que lhes ensinou. Não foi o diretor que lhes deu a ideia. Não foi o Ministério da Educação que lhes pôs a aplicação no telemóvel. E não foi a escola que lhes explicou que uma colega é um objeto disponível para a sua diversão. A escola pode e deve intervir, prevenir, informar, proteger vítimas e comunicar às autoridades situações graves. Mas há uma diferença colossal entre educar e apagar incêndios. E estamos cada vez mais a exigir às escolas que apaguem incêndios que começaram muito antes de os alunos atravessarem o portão.

É a velha estratégia nacional: quando uma criança não sabe comportar-se, cria-se uma competência para a escola. Quando não respeita o próximo, faz-se uma ação de sensibilização. Quando não sabe utilizar as redes sociais, organiza-se uma palestra. Quando agride, cria-se um protocolo. Quando humilha, convoca-se uma reunião. Quando comete um ato que pode configurar crime, pergunta-se o que fez a escola para prevenir. E os pais? Bom, os pais aparecem muitas vezes no fim, quando já não há nada para prevenir, indignados porque “ninguém avisou”. É curioso. Há pais que querem saber a média, a falta, o teste, a nota e o professor que deu negativa, mas parecem considerar uma invasão intolerável perguntar o que o filho anda a fazer no telemóvel às onze da noite. Sabem quanto custou o aparelho, mas não sabem para que é utilizado. Pagam o pacote de dados, mas aparentemente não têm qualquer interesse no conteúdo dos dados.

E depois descobrimos que um adolescente participa em grupos onde circulam imagens de colegas despidas artificialmente e ficamos todos muito surpreendidos. Surpreendidos como se tivesse acontecido uma invasão extraterrestre. Talvez seja mais cómodo culpar o algoritmo. O algoritmo, afinal, não vota, não protesta e não telefona aos pais. É um excelente culpado. A tecnologia também tem essa vantagem: não tem pais para chamar à responsabilidade.

Durante anos construímos uma ideia extraordinária de parentalidade em que os filhos têm direitos, autonomia, privacidade e liberdade, enquanto os adultos ficam com a obrigação de pagar as contas e aparecer quando há problemas. Há crianças que podem utilizar livremente um telemóvel que custa centenas de euros, ter acesso ilimitado à internet, entrar em redes sociais, conversar com desconhecidos, participar em dezenas de grupos e consumir conteúdos de adultos, mas que, se um professor lhes disser que o comportamento é inaceitável, chegam a casa e ouvem dos pais que “ninguém fala assim com o meu filho”. É esta a esquizofrenia educativa em que nos metemos: queremos filhos autónomos, mas não necessariamente responsáveis; livres, mas não necessariamente conscientes; com direitos, mas cada vez menos familiarizados com a palavra dever.

E depois temos a escola. A escola, essa instituição maravilhosa que serve para tudo. Tem de ensinar Português, Matemática, História, Ciências, cidadania, competências digitais, alimentação saudável, sexualidade, prevenção da violência, educação financeira, segurança rodoviária, saúde mental, sustentabilidade, combate ao discurso de ódio, utilização responsável das redes sociais e, se possível, ainda ensinar os alunos a comportarem-se. Tudo isto enquanto se exige aos professores que cumpram programas, aos diretores que cumpram legislação e às escolas que produzam evidências de que fizeram aquilo que alguém, algures num gabinete, decidiu que deveria ser feito.

E quando tudo falha, lá vem a pergunta: “O que fez a escola?”

Talvez seja tempo de começar a fazer outra pergunta: “O que fizeram os pais?”

Não para retirar responsabilidades à escola. Mas para colocar cada responsabilidade no seu devido lugar. A escola não é uma extensão da família. O professor não é uma espécie de progenitor profissional. O diretor não é o pai coletivo de centenas ou milhares de crianças. E uma escola não consegue substituir, por decreto, aquilo que uma família não ensinou.

Educar uma criança para respeitar os outros não começa numa campanha sobre Inteligência Artificial. Começa muito antes, quando se ensina que não se humilha o colega, que não se goza com quem é diferente, que não se partilham fotografias privadas, que não se mexe no corpo dos outros, que não se usa a intimidade de alguém como moeda de troca para ganhar estatuto no grupo. E começa, sobretudo, quando os adultos percebem que os filhos observam tudo. Observam como falamos dos outros. Observam como tratamos os professores. Observam como reagimos quando somos contrariados. Observam se pedimos desculpa. Observam se respeitamos regras. Observam se achamos normal atropelar alguém quando nos dá jeito.

Os filhos não são educados pelos discursos que lhes fazemos. São educados pelo exemplo que lhes damos.

E talvez seja precisamente essa parte que mais incomoda. É muito mais fácil culpar a IA, o TikTok, o WhatsApp, a escola, os professores, os telemóveis ou os tempos modernos do que admitir que educar dá trabalho. Exige tempo. Exige presença. Exige dizer não. Exige impor limites. Exige contrariar. Exige retirar o telemóvel. Exige acompanhar. Exige, sobretudo, que os pais assumam que ser pai ou mãe não é apenas gostar muito dos filhos. É também dizer-lhes aquilo que eles não querem ouvir.

A tecnologia vai continuar a avançar. Amanhã haverá ferramentas capazes de produzir vídeos falsos, vozes falsas, relações falsas e realidades falsas com uma perfeição que hoje ainda nos parece impossível. Não há regulamento escolar capaz de acompanhar essa velocidade. Não há professor capaz de vigiar todos os ecrãs. Não há polícia capaz de estar dentro de todos os quartos. E não há Ministério da Educação que possa legislar sobre aquilo que devia ser uma coisa elementar: consciência.

Por isso, talvez seja altura de parar de pedir à escola que faça milagres. A escola pode ensinar, prevenir e proteger. Pode identificar sinais de alerta. Pode agir quando tem conhecimento. Pode chamar os pais. Pode chamar as autoridades. Pode fazer tudo o que lhe compete. Mas não pode educar uma criança durante as 24 horas do dia. E muito menos pode ser responsabilizada pela ausência de educação parental que acontece nas restantes horas.

Quando um adolescente diz que despir digitalmente uma colega é uma “brincadeira”, o problema não está apenas no facto de desconhecer a lei. Está no facto de, aparentemente, não compreender que existe um ser humano do outro lado daquela imagem. E isso não se resolve apenas explicando que pode levar três anos de prisão. Uma sociedade civilizada não devia precisar da ameaça da cadeia para ensinar um adolescente a não humilhar uma colega.

Se chegámos ao ponto em que é preciso explicar a adolescentes de 12, 13, 14 ou 15 anos que fabricar uma imagem pornográfica de uma colega e distribuí-la não é uma brincadeira, talvez devêssemos parar de discutir apenas a Inteligência Artificial e começar a discutir a inteligência dos adultos que estão à volta deles.

Porque a IA pode fabricar uma nudez que nunca existiu.

Mas a falta de vergonha, de respeito e de responsabilidade não foi criada por nenhuma máquina.

Essa fomos nós que a deixámos crescer.

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