Quando a realidade obriga: o 1.º Ciclo e o fim da indiferença político-pedagógica – Manuel Alho

A Escola Pública portuguesa, especialmente no 1.º Ciclo, vive entre o discurso da estabilidade e a prática da estagnação. Já o escrevi em Sobre a organização do próximo ano letivo e o calendário escolar: estabilidade ou estagnação? : decidir o calendário escolar até 2028 é um exercício de fé às cegas, que ignora o desgaste crescente de alunos e professores. O prolongamento da carga letiva semanal e o arrastar do calendário até ao fim de junho não são apenas absurdos pedagógicos, são atentos à saúde física e mental de quem faz a escola acontecer.

Quando a realidade obriga: o 1.º Ciclo e o fim da indiferença político-pedagógica

As desigualdades apontadas, como sublinhei em Abaixo-assinado por melhores condições de trabalho , não se resolvem com discursos piedosos. A experiência dos professores, tantas vezes desvalorizada, é central, como defender em Valorizar a experiência: a importância do tempo . O envelhecimento da classe docente, aliado às comorbidades e à exaustão, não é um detalhe : é um aviso à navegação política. E se dúvidas restarem, basta reler Monodocência: pedido de fiscalização de constitucionalidade .

A verdade é que serão as estatísticas, e não a clareza dos decisores, a obrigar a corresponder desigualdades gritantes. Se nada mudar,ficaremos sem professores. A escola não é um depósito de crianças, nem os docentes são complementares.

Chegados aqui, importante, no início de mais um ano letivo, alertar para o óbvio: a Escola Pública está a aproximar-se perigosamente do seu ponto de rutura. Os decisores políticos, muitas vezes entretidos com reformas cosméticas e anúncios de calendário, parecem ignorar o essencial: sem professores motivados, saudáveis ​​e respeitados, não há futuro para o 1.º Ciclo. O envelhecimento acelerado do corpo docente e a ausência de renovação geracional são sintomas de um sistema que já não seduz, antes repele. A cada ano que passa, a exaustão acumula-se, as baixas médicas multiplicam-se e o desânimo alastra.

A ironia maior é que, enquanto se discute a inteligência artificial e a escola do futuro, se esquece o mais básico: ninguém quer ser professor nestas condições. A Escola Pública corre o risco de se tornar um deserto humano, onde as promessas políticas permanecem sem resposta. E, quando finalmente faltar quem queira ensinar, talvez então, tardiamente, se perceba que a indiferença foi o maior erro estratégico da Educação em Portugal.

Link permanente para este artigo: https://www.arlindovsky.net/2025/09/quando-a-realidade-obriga-o-1-o-ciclo-e-o-fim-da-indiferenca-politico-pedagogica-manuel-alho/

4 comentários

Passar directamente para o formulário dos comentários,

    • Agnelo on 14 de Setembro de 2025 at 19:14
    • Responder

    Estamos a passar uma fase muito complicada, pela chegada da idade de aposentação a um elevado número de professores.
    Esta fase vai manter-se mais alguns anos.
    Entretanto, vão formar-se novos professores, porque a carreira é atrativa. Mil e quinhentos euros à entrada é mais do que se ganha na maioria dos setores. E este valor vai, certamente, aumentar, pressionado pela carência atual.
    Professor é uma profissão de futuro.

      • Dani on 14 de Setembro de 2025 at 23:49
      • Responder

      Profissionalizei-me há 2 anos junto com mais 12 do meu curso. Eu já saí e só restam 2 que mesmo assim acham isto uma bosta a nível de condições.

      Vejamos, 1500 euros à entrada – do quê? De cinco anos de faculdade e mesmo assim esses 1500 são com o IRS Jovem.
      É verdade que há muitos mestrados neste país que são ligeiramente pior pagos, mas vamos ser realistas aqui:

      Quem termina só a licenciatura em português ou de uma língua estrangeira já ganha mais num call centre logo à entrada do que aqui.
      Quem tira matemática e ou qualquer uma das ciências… Bem, o céu é o limite lá fora e mesmo cá dentro.
      E o mesmo diz-se para o resto dos cursos que conferem habilitação própria.

      Sabia que um trabalhador do Mercadona, logo à entrada, já ganha quase 1200 euros limpos por mês? São menos cento e poucos que um professor. E não precisa sequer de licenciatura.

      Não nos iludamos nem entremos em negação. Os 1300 (ou 1500 para quem pode usufruir da medida) não valem o mesmo que sequer 1000 há 5 anos atrás.

      Ainda vão entrando uns alunos ingénuos no Ensino porque ainda corre por aí o mito do professor bem pago, que não faz nada e só gosta de resmungar de barriga cheia, mas quando entendem que isto é afinal mau e mau pago, saltam fora.

      Até o desafio a ir ao centro comercial mais próximo e perguntar a 10 jovens quantos deles têm uma linciatura e porque não vêm para o Ensino. A resposta será esta mesma – vinda de alguém a chegar aos 30 e filha de professores.

        • Dani on 14 de Setembro de 2025 at 23:53
        • Responder

        * Ficaram uns erros por corrigir porque perdi a mensagem 4 vezes. Este website é uma catástrofe a nível de funcionamento com tantos pop-ups e malware.

    • carlos moreira on 15 de Setembro de 2025 at 11:01
    • Responder

    E sublinho e subscrevo esta parte:
    “sem professores motivados, saudáveis ​​e respeitados, não há futuro para o 1.º Ciclo. O envelhecimento acelerado do corpo docente e a ausência de renovação geracional são sintomas de um sistema que já não seduz, antes repele. A cada ano que passa, a exaustão acumula-se, as baixas médicas multiplicam-se e o desânimo alastra.”
    Só corrijo que não é só no 1º ciclo, para mim, é em todos os ciclos! Para mim o ensino tornou-se horrivel,está de fugir!

Deixe um comentário

Your email address will not be published.

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

Discover more from Blog DeAr Lindo

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading