A Escola Pública portuguesa, especialmente no 1.º Ciclo, vive entre o discurso da estabilidade e a prática da estagnação. Já o escrevi em Sobre a organização do próximo ano letivo e o calendário escolar: estabilidade ou estagnação? : decidir o calendário escolar até 2028 é um exercício de fé às cegas, que ignora o desgaste crescente de alunos e professores. O prolongamento da carga letiva semanal e o arrastar do calendário até ao fim de junho não são apenas absurdos pedagógicos, são atentos à saúde física e mental de quem faz a escola acontecer.
Quando a realidade obriga: o 1.º Ciclo e o fim da indiferença político-pedagógica
As desigualdades apontadas, como sublinhei em Abaixo-assinado por melhores condições de trabalho , não se resolvem com discursos piedosos. A experiência dos professores, tantas vezes desvalorizada, é central, como defender em Valorizar a experiência: a importância do tempo . O envelhecimento da classe docente, aliado às comorbidades e à exaustão, não é um detalhe : é um aviso à navegação política. E se dúvidas restarem, basta reler Monodocência: pedido de fiscalização de constitucionalidade .
A verdade é que serão as estatísticas, e não a clareza dos decisores, a obrigar a corresponder desigualdades gritantes. Se nada mudar,ficaremos sem professores. A escola não é um depósito de crianças, nem os docentes são complementares.
Chegados aqui, importante, no início de mais um ano letivo, alertar para o óbvio: a Escola Pública está a aproximar-se perigosamente do seu ponto de rutura. Os decisores políticos, muitas vezes entretidos com reformas cosméticas e anúncios de calendário, parecem ignorar o essencial: sem professores motivados, saudáveis e respeitados, não há futuro para o 1.º Ciclo. O envelhecimento acelerado do corpo docente e a ausência de renovação geracional são sintomas de um sistema que já não seduz, antes repele. A cada ano que passa, a exaustão acumula-se, as baixas médicas multiplicam-se e o desânimo alastra.
A ironia maior é que, enquanto se discute a inteligência artificial e a escola do futuro, se esquece o mais básico: ninguém quer ser professor nestas condições. A Escola Pública corre o risco de se tornar um deserto humano, onde as promessas políticas permanecem sem resposta. E, quando finalmente faltar quem queira ensinar, talvez então, tardiamente, se perceba que a indiferença foi o maior erro estratégico da Educação em Portugal.




4 comentários
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Estamos a passar uma fase muito complicada, pela chegada da idade de aposentação a um elevado número de professores.
Esta fase vai manter-se mais alguns anos.
Entretanto, vão formar-se novos professores, porque a carreira é atrativa. Mil e quinhentos euros à entrada é mais do que se ganha na maioria dos setores. E este valor vai, certamente, aumentar, pressionado pela carência atual.
Professor é uma profissão de futuro.
Profissionalizei-me há 2 anos junto com mais 12 do meu curso. Eu já saí e só restam 2 que mesmo assim acham isto uma bosta a nível de condições.
Vejamos, 1500 euros à entrada – do quê? De cinco anos de faculdade e mesmo assim esses 1500 são com o IRS Jovem.
É verdade que há muitos mestrados neste país que são ligeiramente pior pagos, mas vamos ser realistas aqui:
Quem termina só a licenciatura em português ou de uma língua estrangeira já ganha mais num call centre logo à entrada do que aqui.
Quem tira matemática e ou qualquer uma das ciências… Bem, o céu é o limite lá fora e mesmo cá dentro.
E o mesmo diz-se para o resto dos cursos que conferem habilitação própria.
Sabia que um trabalhador do Mercadona, logo à entrada, já ganha quase 1200 euros limpos por mês? São menos cento e poucos que um professor. E não precisa sequer de licenciatura.
Não nos iludamos nem entremos em negação. Os 1300 (ou 1500 para quem pode usufruir da medida) não valem o mesmo que sequer 1000 há 5 anos atrás.
Ainda vão entrando uns alunos ingénuos no Ensino porque ainda corre por aí o mito do professor bem pago, que não faz nada e só gosta de resmungar de barriga cheia, mas quando entendem que isto é afinal mau e mau pago, saltam fora.
Até o desafio a ir ao centro comercial mais próximo e perguntar a 10 jovens quantos deles têm uma linciatura e porque não vêm para o Ensino. A resposta será esta mesma – vinda de alguém a chegar aos 30 e filha de professores.
* Ficaram uns erros por corrigir porque perdi a mensagem 4 vezes. Este website é uma catástrofe a nível de funcionamento com tantos pop-ups e malware.
E sublinho e subscrevo esta parte:
“sem professores motivados, saudáveis e respeitados, não há futuro para o 1.º Ciclo. O envelhecimento acelerado do corpo docente e a ausência de renovação geracional são sintomas de um sistema que já não seduz, antes repele. A cada ano que passa, a exaustão acumula-se, as baixas médicas multiplicam-se e o desânimo alastra.”
Só corrijo que não é só no 1º ciclo, para mim, é em todos os ciclos! Para mim o ensino tornou-se horrivel,está de fugir!