O Que a Coleção de Cartas Pokémon de Luciano de Vries Revela Sobre o Seu Instinto para Investir
Luciano de Vries tem uma carta de Pikachu japonesa de que, garante, nunca vai precisar de se separar. Também garante que, se precisasse do dinheiro, a venderia sem hesitar.
Essa contradição aparente é, na prática, o mesmo cálculo que já aplica a imobiliário, startups e empresas próprias.
Uma Coleção Com Regras Próprias
Entre os mais de mil Pokémon diferentes já criados, de Vries só coleciona a sério um. “Estou a colecionar sobretudo Pikachus. Agora até há versões vestidas de Luigi, de Mario. Gosto especialmente das cartas japonesas,” diz. “Escolho o estilo japonês porque gosto mais da arte.”
A lógica óbvia diria o contrário. Colecionadores que perseguem qualquer carta rara, de qualquer personagem, diversificam o risco de o gosto pessoal ficar fora de moda, mas também diluem o conhecimento específico que permite reconhecer uma pechincha à primeira vista, num relance, antes de qualquer outro comprador se aperceber do mesmo. De Vries fez o oposto: escolheu um só personagem e um só estilo de ilustração, e aprofundou o conhecimento nesse nicho até saber, quase de cor, o que uma carta deveria valer antes de perguntar o preço.
O mesmo raciocínio aparece na forma como aloca capital nos negócios. Em vez de espalhar dinheiro por qualquer oportunidade que apareça, segue uma fórmula fixa de repartição entre imobiliário, startups e reinvestimento nas próprias empresas, decidida à entrada e raramente revista. Hoje gere projetos em setores tão distintos como imobiliário no Algarve, bem-estar através da Happy Timber Solutions e ferramentas de inteligência artificial na Database.ai. Nenhum surgiu de um impulso. Cada um nasceu depois de meses, por vezes anos, a estudar apenas esse setor específico antes de investir um euro. Conhecer bem poucas categorias, em vez de muitas superficialmente, é a mesma disciplina aplicada a dois mundos completamente diferentes.
A Matemática da Raridade
Parte do que atrai de Vries às cartas é puramente numérica. “Há apenas 60 exemplares confirmados de algumas cartas, numa oferta global de mais de 50 milhões,” descreve sobre o fascínio pela escassez extrema. O que o interessa é a distância entre quão rara uma carta realmente é e quão rara o mercado a trata.
Esse instinto de procurar onde a oferta não corresponde à procura repete-se fora do hobby. Foi essa lógica que o levou a apostar em imobiliário no Algarve, quando notou que a qualidade da oferta ficava aquém do que os compradores procuravam. É a mesma lógica, também, quando olha para África como próxima fronteira de investimento. “As oportunidades são infinitas lá, e os canais para fazer negócios ainda não estão lá. Isso significa que constrói-os e ganha muito dinheiro, ou espera até ao início,” resume sobre mercados ainda por descobrir.
Uma carta rara e um mercado imobiliário desequilibrado colocam a de Vries, no fundo, a mesma pergunta sobre onde a escassez ainda não foi bem avaliada pelo mercado. A escala muda, de uma carta de cartão a um terreno em Loulé, mas o exercício mental de comparar raridade real com preço praticado é idêntico.
A Mesma Verificação, Qualquer Que Seja o Risco
Antes de pagar por uma carta rara, um colecionador sério confirma a autenticidade e o estado de conservação. De Vries aplica exatamente esse mesmo reflexo de verificação a negócios que, à primeira vista, não têm nada a ver com cartas de Pokémon.
Na Database.ai, o marketplace de ferramentas de inteligência artificial que fundou, nenhuma ferramenta chega ao catálogo sem passar primeiro por testes internos. “Todas as empresas dão as suas ferramentas gratuitamente, por isso testamo-las primeiro antes de as colocarmos na nossa plataforma,” garante sobre o processo. Antes de comprar um terreno através da Casa Vista Real Estate, o mesmo cuidado aplica-se à estrutura jurídica e às licenças, processo que em Portugal pode arrastar-se durante anos antes de a primeira pá tocar no solo.
Numa carta de cartão ou numa escritura de terreno, a verificação de fundo é a mesma: confirmar que o que está à venda é mesmo o que diz ser, e vale mesmo o que pede. De Vries não delega essa confirmação a ninguém.
Comprar Para Nunca Vender, Mas Poder Vender
“Gosto de as colecionar porque gosto de comprar coisas que são como um investimento mas que também são divertidas de ter,” explica de Vries sobre a filosofia que aplica à coleção. “Não penso que alguma vez as vá vender… mas se for preciso, posso sempre vendê-las, se precisar do dinheiro no futuro.”
Essa combinação de apego de longo prazo com liquidez de reserva reflete os horizontes temporais que já assume noutros investimentos. Rondas pré-seed em startups podem levar dez a doze anos a dar retorno. Projetos imobiliários portugueses, entre quatro a seis anos desde a compra do terreno até à conclusão. De Vries mantém posições em ambos ao mesmo tempo. O dinheiro fica parado durante anos. Isso só é possível porque nunca depende de um empréstimo, nem de um prazo externo para decidir quando vender. Sem bancos a pressionar por retorno num calendário fixo, pode esperar pelo momento certo em vez do momento urgente.
A carta de Pikachu funciona como versão em miniatura da mesma aposta: guardar por gosto, mas nunca ao ponto de não poder converter em dinheiro se a situação exigir. É um investimento com saída sempre disponível, mesmo que a intenção declarada seja nunca a usar.
Saber Reconhecer o Momento, Não Só a Raridade
Raridade sozinha não garante retorno. O timing é que decide. Uma carta rara comprada no pico da procura pode perder valor tão depressa como uma comum. De Vries sabe disso porque já viu o mesmo padrão fora do hobby, na altura em que entrou no setor da distribuição de gás.
“Como sempre, é mais ou menos 50-50,” disse sobre o timing dessa entrada específica. “Se tivesse tentado cinco anos antes, não teria resultado. Se tivesse tentado cinco anos depois, também não teria resultado.” A raridade de uma oportunidade importa menos do que o momento exato em que é reconhecida, e de Vries atribui a esse reconhecimento tanta sorte quanto preparação.
Na coleção, esse instinto de timing traduz-se em manter atenção constante ao que ainda não subiu de preço, em vez de perseguir a carta de que todos falam numa determinada semana. Nos negócios, traduz-se em manter vários setores em observação ao mesmo tempo, para que, quando a janela de uma oportunidade se abre, já exista conhecimento acumulado suficiente para agir sem hesitar. Essa vigilância constante em várias frentes explica também porque raramente entra num setor novo sem já o observar de fora há algum tempo.
O Aviso Que a Categoria Prefere Não Ouvir
O entusiasmo à volta de cartas de Pokémon como investimento não é novo. Também não é isento de histórico de aviso. Peter Earle, diretor de Economia e Liberdade Económica no American Institute for Economic Research, calcula que o valor das cartas de Pokémon como categoria subiu cerca de 3.800% entre 2004 e 2025. Boa parte dessa subida concentrou-se durante a pandemia, quando estímulos económicos e confinamentos criaram o que descreve como condições perfeitas para uma corrida especulativa.
A comparação óbvia, e desconfortável para quem coleciona hoje, é com os bonecos Beanie Babies dos anos 1990: peças que chegaram a vender-se por centenas de dólares e que, poucos anos depois, valiam apenas alguns dólares em mercados de garagem. O que separa uma coleção que mantém valor de uma moda que desaba está mais em quem compra e porquê do que na categoria em si.
De Vries entrou na coleção pelo lado que menos se parece com essa corrida. Trouxe para o hobby o mesmo hábito de décadas: verificar as contas antes de gastar. “Juntos, investimos tudo durante os primeiros cinco a seis anos,” recorda sobre os primeiros tempos de negócio. “Isso significa que, mesmo tendo um negócio de sucesso, ainda precisávamos de verificar as contas antes de ir ao supermercado.” Quem aprendeu a contar tostões antes de ter dinheiro raramente perde essa disciplina depois de o ter.
O Que os Pikachus Ensinam Sobre os Negócios
De Vries não planeou nenhuma destas semelhanças enquanto construía a coleção ou geria os negócios.
Ainda assim, o padrão repete-se: escolher um nicho e conhecê-lo a fundo, procurar onde a escassez ainda não tem preço justo, guardar com paciência sem nunca perder a opção de vender, e nunca esquecer os anos em que cada euro contava. São regras simples, aplicadas com a mesma disciplina a uma carta de Pikachu japonesa e a um court de padel no Algarve. A diferença entre um hobby e uma estratégia de investimento, neste caso, é apenas o tamanho do cheque.



