4 de Outubro de 2026 archive

Na escola, a ética é uma manta curta

 

Na escola, a ética é uma manta curta. Puxa-se para a cabeça e ficam os pés de fora; puxa-se para os pés e destapa-se a cabeça. E há sempre alguém, muito convicto, a garantir que a manta chega perfeitamente para todos. Basta, naturalmente, que sejam os outros a deixar de puxar. Falamos muito de ética, valores, cidadania, respeito, inclusão, justiça, responsabilidade e tolerância. Temos códigos de conduta, regulamentos, projetos e reuniões sobre tudo isto. O problema começa quando os valores deixam de estar escritos num documento e passam a ter de ser aplicados a pessoas concretas. Aí descobrimos que a ética também pode ter horários, destinatários e exceções.

Todos achamos que temos razão. O problema é que apenas temos a nossa razão, não a razão dos outros. O professor acha que tem razão porque conhece a turma; o coordenador porque conhece o regulamento; o diretor porque conhece o conjunto dos problemas; o aluno porque sabe aquilo que aconteceu do seu lado; o encarregado de educação porque conhece o filho; o assistente operacional porque conhece aquilo que acontece quando os outros já foram embora. E, de repente, temos uma escola cheia de pessoas absolutamente certas, cada uma com a sua versão dos acontecimentos, os seus argumentos e, sobretudo, uma extraordinária capacidade para explicar por que razão o problema está sempre do outro lado. É curioso como, quando somos nós, se chama contexto; quando são os outros, chama-se desculpa.

O aluno que chega atrasado tem uma justificação. O professor que chega atrasado também. O funcionário que não cumpriu uma tarefa tem uma justificação. O diretor que tomou uma decisão contestada tem uma justificação. O encarregado de educação que não respondeu aos contactos da escola também tem uma justificação. Exigimos aos alunos respeito pelas regras, mas discutimos as regras quando elas nos incomodam. Pedimos que saibam ouvir, mas interrompemos o colega quando ele diz aquilo de que não gostamos. Falamos de tolerância, desde que não seja necessário tolerar uma opinião diferente da nossa. Defendemos o diálogo, desde que o diálogo termine exatamente onde já tínhamos decidido chegar. E há ainda aquela extraordinária entidade chamada “bom senso”. Quando uma decisão nos favorece, foi uma decisão sensata; quando nos prejudica, faltou bom senso. Quando um aluno beneficia de uma exceção, é porque “é preciso conhecer o contexto”; quando a exceção beneficia outro, já estamos perante um perigoso precedente. Quando o colega recebe uma oportunidade, foi porque “merecia”; quando ficamos de fora, houve “critérios pouco claros”. A ética, aparentemente, também sabe distinguir pessoas.

E nem sempre isto resulta de má-fé. Muitas vezes resulta simplesmente de uma coisa muito humana: confundirmos a nossa perspetiva com a realidade. O professor vê a sala de aula a partir da sua posição; o aluno vê-a sentado na carteira; o diretor vê a escola inteira; o encarregado de educação vê o filho; o funcionário vê aquilo que acontece nos corredores. Cada um vê uma parte e, frequentemente, comporta-se como se tivesse visto o todo. É por isso que ouvir é talvez uma das tarefas mais difíceis numa escola. Ouvir verdadeiramente significa admitir a possibilidade incómoda de não termos toda a razão. Talvez o outro tenha razão em alguma coisa. Talvez aquilo que interpretámos como desinteresse tenha sido cansaço. Talvez aquilo que classificámos como arrogância tenha sido defesa. Talvez aquilo que considerámos incompetência tenha sido falta de condições. Talvez aquilo que chamámos injustiça tenha sido apenas uma decisão que não nos favoreceu.

Uma escola ética não é uma escola onde todos concordam. É uma escola onde as pessoas conseguem discordar sem transformar imediatamente o outro num inimigo. Um diretor deve poder ouvir uma crítica sem a confundir automaticamente com insubordinação. Um professor deve poder ouvir um aluno sem transformar imediatamente a discordância em falta de respeito. Um encarregado de educação deve poder ouvir uma preocupação da escola sem concluir que existe uma perseguição ao filho. Um funcionário deve poder dizer que alguma coisa não está a funcionar sem ser imediatamente catalogado como “difícil”. E todos devemos ser capazes de dizer: “Percebo a tua posição, mas não concordo.” Parece pouco. Não é. Porque a ética começa precisamente quando percebemos que a nossa razão não ocupa o universo inteiro.

Talvez devêssemos ensinar isto mais vezes aos alunos. E, já agora, aos adultos. Há escolas cheias de projetos de cidadania e, por vezes, vazias de cidadania quando chega o momento de aceitar uma opinião diferente. Há reuniões onde se fala durante horas sobre participação e onde ninguém ouve ninguém. Há discursos sobre inclusão feitos por pessoas que têm enorme dificuldade em incluir uma perspetiva diferente da sua. Há regulamentos cuidadosamente escritos para promover a convivência e comunidades onde basta uma divergência para começarem as trincheiras. E há uma quantidade impressionante de pessoas que defendem a ética com enorme convicção, desde que a ética não lhes peça nenhum sacrifício.

No fundo, a manta continuará curta. Talvez o problema não esteja sequer no tamanho da manta. Talvez esteja na nossa tendência para a puxarmos sempre para o nosso lado. Porque todos achamos que temos razão, mas apenas temos a nossa razão, não a razão dos outros. A verdadeira maturidade não está em conseguir provar permanentemente que temos razão. Está em conseguir perceber por que razão o outro acha que também tem. E talvez seja aí que começa a ética: não quando conseguimos ficar completamente cobertos, mas quando percebemos que estamos todos debaixo da mesma manta.

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