Detesto ver o melhor jogador do Mundo e arredores a revelar uma ostensiva imaturidade, apesar dos seus 41 anos, e a não saber assumir e aceitar que já deveria ter renunciado à Selecção Nacional de Futebol, quanto mais não fosse para evitar que o vissem a arrastar-se penosamente pelo campo, deixando toda uma equipa refém da sua presença…
E detesto, igualmente, ver um seleccionador nacional que vai para uma conferência de imprensa armado em gabarolas, a apregoar o seu “infinito poder e sapiência”, para justificar as suas opções tácticas enquanto líder de uma equipa de futebol… Para se ser reconhecido como um líder, não é preciso apregoar as pretensas virtudes, bastará simplesmente demonstrá-las em termos práticos…
Mas como Cristiano Ronaldo e Jorge Jesus desempenham muito bem o papel de egocêntricos patológicos, vamos assistindo a um espectáculo deplorável, que não abona a favor de ninguém…
Enquanto se desenrola esse duelo de egos, o Povo vai-se entretendo a esgrimir argumentos, ora a favor de um, ora a favor do outro; ora crucificando um, ora endeusando o outro…
Subitamente deixou de se falar, todos os dias e a toda a hora, sobre o Estreito de Ormuz, a Ucrânia, a Rússia, o Irão, os Estados Unidos ou Trump; os preços do “gasóil” e das casas também deixaram de ser um assunto com particular relevância…
O que realmente importa no presente é a medição dos egos de Cristiano Ronaldo e de Jorge Jesus… O tamanho do ego (para não dizer outra coisa) de cada um deles transformou-se num assunto de âmbito nacional, deixando a opinião pública num grande alvoroço, com o excelso contributo de muitos que se dizem Jornalistas…
Os problemas que assolam o país podem esperar, que a urgência nacional, neste momento, é outra e gira em torno de duas pessoas que, além de terem escolhido desempenhar o papel de figuras tristes, também muito dificilmente poderão servir de exemplo a alguém…
O país está enredado numa “guerra de egos”, que nada tem a ver com futebol, desporto que, por sinal, muito aprecio…
Este folhetim, absolutamente ridículo, mostra bem a degradação e o “trogloditismo” a que se chegou ao nível dos “usos e costumes” nacionais…
Igualmente ridículo, pelo menos em termos de comunicação, também foi o uso repetido da denominação “Cris”, referente a Cristiano Ronaldo, usada por Jorge Jesus publicamente numa conferência de imprensa; e, por outro, a indisfarçável inclinação de alguns ditos Jornalistas, no sentido de defenderem o patrão Cristiano Ronaldo, escamoteando as respectivas “birras”, os “amuos” e um comportamento execrável face aos colegas de Selecção…
E o que é que o comportamento de Cristiano Ronaldo e de Jorge Jesus tem a ver com Educação?
Tem muito a ver com Educação, desde logo porque ambos se mostram como péssimos exemplos, particularmente junto dos muitos jovens “seguidores”:
Incute-se a ideia de que vale tudo, para atingir certos fins; não é preciso ter integridade nem responsabilidade, basta ter dinheiro; o Poder pode ser exercido quase sem limites e de forma iminentemente discricionária; a irresponsabilidade e a deslealdade face a um grupo de pares são aceitáveis; um “líder” pode desrespeitar os compromissos assumidos com terceiros; a falta de discernimento, imaturidade e o desrespeito pelo outro são desculpáveis e aceitáveis face ao “estatuto” que alguém possa ter atingido, em algum momento da sua vida…
Cristiano Ronaldo e Jorge Jesus são co-responsáveis por uma rábula grotesca, que já atingiu proporções incontroláveis…
A discussão e a contenda já deixaram de ser sobre futebol e passaram a ser sobre quem ganhará e quem perderá esta guerra… Ou, por outras palavras, qual dos dois protagonistas terá um ego maior?
O mais provável é que este conflito entre Cristiano Ronaldo e Jorge Jesus resulte em perdas claras para ambos… Mesmo que os próprios ainda não o tenham percebido, muito dificilmente existirão vencedores neste género de conflito…
Mas também perdem todos os que ainda acreditam no poder agregador do futebol…
Na realidade, os dois protagonistas deste folhetim acabam por ser “duas faces da mesma moeda”, estão muito bem um para outro e merecem-se reciprocamente…
Os estragos estão feitos por um e por outro, ambos padecentes de um desconcertante “egocentrismo infantil”, nada condicente com o facto de serem dois adultos com responsabilidades do domínio público…
Os pretensos “mediadores” deste conflito, agora postos em acção, alegadamente, com o objectivo de reverterem o problema, prestam-se, também eles, a um papel ridículo, sobretudo quando se percebe que, afinal, o dinheiro (leia-se receitas da Federação Portuguesa de Futebol) é o principal motor de qualquer tentativa de reconciliação entre as partes envolvidas na contenda… O dinheiro, sempre o dinheiro…
Paula Dias





3 comentários
EXCELENTE texto. Nota máxima.
Salvé, caro Agostinho! É sempre muito bom “encontrar-te”…
Obrigada.
Reduzir Cristiano Ronaldo e Jorge Jesus a “egocêntricos patológicos”, “figuras tristes” ou exemplos de “egocentrismo infantil” não demonstra rigor crítico, mas antes uma nítida animosidade que compromete a credibilidade do texto. Discordar das suas opções ou comportamentos é legítimo; transformá-los em caricaturas psicológicas é outra coisa.
Além disso, a autora contradiz-se ao afirmar que o debate sobre estas figuras é irrelevante, dedicando simultaneamente um longo texto ao tema. Se considera que os problemas nacionais são mais importantes, então está a contribuir precisamente para uma mediatização que critica.
Por fim, é injusto ignorar os méritos acumulados destas personalidades, sobretudo do CR7, que marcaram significativamente o futebol português. Mesmo admitindo erros ou excessos, apresentar Cristiano Ronaldo e Jorge Jesus apenas sob uma luz negativa revela mais preconceito do que capacidade de análise