No centro deste furacão encontra-se um Ministro da Educação que, justiça lhe seja feita, tem demonstrado um empenho inegável em romper com o imobilismo. Contudo, a vontade política esbarra frequentemente numa trindade burocrática — EduQA, Júri Nacional de Exames (JNE) e o próprio MECI — que parece sofrer de uma gritante falta de articulação com quem realmente percebe do terreno: as Escolas.
Se empresas como a Blat, a Deloitte ou a Axians são chamadas a desenhar a modernização tecnológica, essa transição nunca será eficaz se ignorar a realidade de quem digita, confere e valida os dados diariamente nas secretarias escolares.
Compreendem-se, por isso, as recentes palavras de pressão da tutela dirigidas aos Diretores que vacilam na apresentação de soluções.
O Ministro traz uma postura inovadora, que a muitos recorda a energia de um diretor recém-chegado a uma nova escola: cheio de mundividência, mas rodeado por uma equipa excessivamente “virgem” e sem a indispensável experiência de caserna.
Do outro lado da barricada, assistimos ao habitual fenómeno sociológico das organizações. Perante o novo líder, uma fatia da máquina remete-se a um silêncio calculista, “esquecendo” competências antigas e aguardando, de braços cruzados, que a nova tutela se “espalhe” para poder clamar o clássico “eu bem avisei”.
Raras são as vozes dispostas a partilhar a sabedoria da experiência acumulada para construir pontes em vez de muros.
Esta gritante falta de coordenação de dados no MECI é o dragão que este Ministério tenta, corajosamente, combater. Causa perplexidade que, em pleno 2026, ainda se discuta a incapacidade de cruzar dados e que a liderança escolar pareça, por vezes, infoexcluída das soluções aplicacionais modernas.
Numa era de centralização digital, por que razão as classificações não foram disponibilizadas diretamente no PIEPE ou integradas nos sistemas que as escolas já dominam, como o Inovar ou o GIAE Online?
A resposta é tão simples quão desoladora: o Ministério da Educação padece de um atraso crónico porque teima em viver na pré-história do “ficheiro Excel”, quando o futuro exige ecossistemas partilhados e integrados.
Para dar o salto qualitativo que o Ministro deseja, o primeiro passo terá de ser a renovação dos seus conselheiros de gabinete, substituindo teóricos por quem tem calos nas mãos de gerir o sistema.
Nós, que por aqui andamos há mais de vinte anos a partilhar as dores e as ironias deste funcionalismo técnico, continuaremos a lançar as nossas notas de rodapé — com o humor fino que os nossos leitores habituais tão bem decifram.
Se a tutela quiser, verdadeiramente, fechar a porta aos palpiteiros de turno e ouvir quem conhece cada engrenagem deste Ministério, a nossa porta para uma reunião privada continua aberta.
Até lá, resta-nos gerir o caos com a resiliência de sempre.




2 comentários
Tudo certo, mas o ministro revelou o pior defeito que poderia ter: arrogância, prepotência, dalta de humildade e o não querer assumir responsabilidades no que está a correr mal e vai continuar a correr, na 2 fase. Já agora, preparem-se que a reforma da Educação ou o seu desmantelamento ainda vai no adro.
Os elementos reconduzidos dos Costas mostram há anos a incompetência, inflexibilidade e incapacidade de resolver para cumprir objetivos de eficácia.
O ministro confiou, mas foi boicotado? Sabotado? A auditoria às falhas técnicas da classificação dos exames 2026 vai revelar responsáveis?
O ministro deu a cara. Como deve ser. Foi atacado violentamente por quem durante anos andou a aproveitar-se do Ministério da Educação e a destruir a escola pública, desprezando os seus profissionais. Sem se preocuparem com o facto de hipotecarem o futuro dos alunos, famílias e país.
Esses que agora se revelam preocupados com os alunos e famílias. Depois de fazerem descer a literacia nos testes internacionais aos valores dos anos 2.000, que ultrapassaram a média da OCDE em 2015. Os que impuseram as suas ideologias e negócios de formação, venda de equipamentos, consultorias e publicações.
O ministro tem de ficar e aconselhar-se com os trabalhadores das escolas que sempre estiveram à frente dos burocratas mais fiéis aos chefes políticos do que às escolas.
Os burocratas do regime têm de sair. Já vão muito tarde.
As decisões têm de ser tomadas com base em evidências científicas e nas de quem já deu provas de verdadeira eficiência nas escolas. A maioria, não a minoria residual da escola da Ponte e suas réplicas, como impôs a geringonça de esquerda. Desde 2015, funcionando como um regime totalitário, contra tudo e todos. Que levou 150.000 a Lisboa, em 2023.