A hora do jantar: o ritual esquecido na educação das crianças

 

Já é noite, e lá fora a trémula luz dos candeeiros preenche as ruas vazias. Dentro de casa, um cenário repetido em tantos lares portugueses: pais exauridos a tentar coordenar a rotina do jantar com um olho no fogão e outro no telemóvel, o maldito telemóvel.
As crianças, dispersas, dividem a atenção entre o tablet, o telemóvel, o outro telemóvel, o computador e a televisão mais as diatribes entre irmãos.
O jantar, pronto, rápido e prático, é para deglutir, nem por isso para saborear e tantas vezes sem alimentar, apenas encher e em seguida desfalecer.
Ao menos mastiga.
Na corrida desenfreada desta vida, o momento da refeição foi transformado num mero requisito, um ritual banal a fazer as vezes do espaço de encontro, equilíbrio e construção de identidade tão importante para a criança defronte de nós, não só à mesa mas do lado de lá do espelho.
Ou já se esqueceram?
Já se esqueceram.
E ao olvidar adicionar a pressa diária do “Come e está calado” mais o “Come e não me chateies” ou então “Come e vai para a cama” ou então “toma lá o telemóvel e não me chateies” entre a negligência e o abuso emocional, aliás o prato diário de tantos sentados à mesa e por isso sentados no sofá e já agora a comer com as mãos.
Já não sei qual o sentido de um garfo e alguém explique às crianças o porquê de uma faca ou colher e a façanha de saber usar talheres.
Diante deste cenário é de surpreender a surpresa dos pais mais o impacto no comportamento e saúde das crianças.
Não se trata apenas de nutrientes ou calorias. Um jantar equilibrado é, antes de mais, uma oportunidade para ensinar, para educar, para criar rituais de presença e comer não é somente a ingestão e por favor mastiga mas o convívio e o relacionamento aos quais se junta a experiência e a destrinça dos sabores e da variedade de alimentos, a partilha, a escuta e aprende a esperar, a esperar a tua vez e ninguém te disse para saíres da mesa e “Ó Alberto diz alguma coisa ao teu filho” mas o Alberto já não diz nada, o Alberto desistiu há muitos anos e o filho faz quanto quer.
O filho tem 10 anos e pesa 50 quilos.
E não, não está na escola mas nas famílias a reaprendizagem de um momento, e dos momentos, em família, muito depois de a escola fechar as portas.
É verdade, estamos exaustos, o ritmo de trabalho é avassalador, os horários imprevisíveis, as exigências de produtividade sem fim e o tempo de estar à mesa não é a soma dos alimentos no prato mas a qualidade dos diálogos, as perguntas e as respostas e o tempo de dizer aos pais para dizerem aos filhos “Estou aqui e tu és importante”.
Um jantar equilibrado não precisa de ser uma epopeia gastronómica de pratos exóticos ou desafios culinários e o suficiente é o básico bem feito: legumes frescos, carne ou peixe, hidratos capazes de sustentar e de preferência integrais sem esquecer o mais importante e o mais importante é a companhia e a companhia não está do lado de lá de um telemóvel enquanto se partilham as peripécias do dia.
A alimentação nutre a relação familiar, molda a forma como encaramos o dia-a-dia e ensina-nos a parar.
Quantas memórias da infância se prendem a sabores e cheiros os quais, na simplicidade dos ingredientes, carregam a riqueza dos afectos?
Este é o legado perdido e sem querer roubado às crianças a troco de nada, a troco da distância, da ausência e solidão das vidas por preencher na pressa de cumprir horários em nome da eficiência.
Assim, o desafio é este: resgatar o jantar do automatismo. Transformá-lo num momento de pausa e de cuidado, sem desculpas nem pretensões.
Em nome de uma refeição para além da pirâmide alimentar num acto de resistência ao caos e à pressa, na certeza de estarmos presentes, à mesa e na vida.

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3 comentários

    • Zumira Pereira on 6 de Outubro de 2024 at 14:09
    • Responder

    Completamente de acordo! Parabéns

    • Sara on 8 de Outubro de 2024 at 21:53
    • Responder

    Também não podia estar mais de acordo!

    • Dora Gabriela Ferreira on 8 de Outubro de 2024 at 23:56
    • Responder

    O retrato mais fiel da realidade dos meus/ nossos dias…

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