Criança invisual de 6 anos agredida por sete colegas…

Há episódios que nos deviam envergonhar enquanto sociedade. Este é um deles. Não pela excecionalidade, que seria reconfortante, mas precisamente pelo incómodo de suspeitarmos que não é assim tão raro quanto gostaríamos de acreditar.

Sete crianças. Sete. Entre os cinco e os sete anos. Contra uma criança invisual, caída no chão, a pedir ajuda. E o mais perturbador nem é a violência em si, é a normalidade com que ela parece surgir. Como se fosse apenas mais um recreio, mais um intervalo, mais um dia.

E é aqui que começam as perguntas fáceis. As que se atiram à escola como se fosse um saco de pancada conveniente.

A escola é responsável pela educação dos agressores?

Não. E sim. E não outra vez.

A escola não substitui os pais. Nunca substituiu. Nunca substituirá. A ideia de que um estabelecimento de ensino deve ensinar matemática de manhã e valores humanos à tarde é confortável, mas profundamente preguiçosa. A base, aquilo que distingue uma criança que agride de uma que ajuda, começa muito antes de atravessar o portão da escola.

Mas também é verdade que a escola não pode lavar as mãos. Não é apenas um espaço de transmissão de conteúdos, é um espaço de convivência. E quando essa convivência falha de forma tão gritante, não estamos perante um azar, estamos perante uma falha sistémica. Supervisão insuficiente, desatenção, rotinas que não funcionam. Não há como dourar isto.

E a falta de valores, é da escola?

Outra vez: não. Mas também não é totalmente alheia.

Os valores não se ensinam com cartazes coloridos no corredor ou com uma aula ocasional sobre “cidadania”. Ensinam-se pelo exemplo. Pela consistência. Pela repetição diária de limites claros. E isso começa em casa.

Portanto, sim, a educação é dada pelos pais.

E convém dizê-lo sem rodeios, porque há uma certa relutância moderna em responsabilizar quem de facto tem responsabilidade. Crianças de cinco ou seis anos não “inventam” este tipo de comportamento do nada. Não organizam violência coletiva espontaneamente como se fosse um jogo inocente. Absorvem. Reproduzem. Testam limites que, muitas vezes, nunca lhes foram verdadeiramente impostos.

Os pais devem ser responsabilizados?

Devem. Não juridicamente, talvez, isso é outra discussão, mas moral e socialmente, sem dúvida. A ideia de que os pais são meros espectadores do crescimento dos filhos é uma das ficções mais perigosas do nosso tempo.

E sim, esta é a geração que está a ser criada. Não no sentido fatalista de “está tudo perdido”, mas no sentido muito concreto de que aquilo que vemos nas escolas é um reflexo direto do que se passa fora delas.

Depois há a questão incómoda do tempo.

Pais exaustos, horários impossíveis, vidas em modo sobrevivência. Tudo isso é real. Tudo isso pesa. Mas também é verdade que a ausência, física ou emocional, cria vazios. E os vazios são preenchidos. Pela internet, pelos pares, pelo acaso. Nem sempre da melhor forma.

A falta de tempo não explica tudo. Mas ajuda a explicar muita coisa.

E depois chegamos ao sistema.

O Estatuto do Aluno deve ser revisto? Provavelmente sim. Não porque devamos cair numa lógica punitiva cega, mas porque o atual modelo muitas vezes transmite uma mensagem perigosa, a de que as consequências são lentas, diluídas, quase simbólicas.

Os procedimentos devem ser mais rápidos e eficazes? Sem dúvida. Quando a resposta a um episódio destes se arrasta em burocracia, o que se ensina, implicitamente, é que a gravidade dos atos não corresponde à rapidez das consequências.

E isso também educa. Mal, mas educa.

No meio disto tudo, há um detalhe que devia ser central e acaba por ser quase nota de rodapé: duas crianças tentaram ajudar.

Duas.

Num cenário de sete agressores e vários adultos ausentes por minutos que pareceram eternos, houve quem, com seis anos, tenha percebido o que estava certo.

Talvez seja por aí que ainda se segura alguma esperança. Não na ilusão de que a escola resolve tudo. Nem na fantasia de que os pais são sempre irrepreensíveis. Mas na evidência de que, mesmo num contexto falhado, ainda há quem saiba distinguir o essencial.

O problema é que, para cada uma dessas crianças, parece haver várias que ainda não aprenderam. E isso, goste-se ou não, começa muito antes da campainha tocar para a aula.

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2 comentários

  1. As escolas não valorizam os valores e a ética. Na década de 80, durante o meu estágio pedagógico , numa disciplina de sociologia, o professor já dizia que transmitir valores seria uma das grandes funções da escola pública, as línguas, por exemplo, aprendê- las- íamos na Internet. As escolas organizam festas para premiar alunos com bons resultados académicos, quando o deviam fazer para festejar boas posturas. Faça- se uma grande festa para homenagear os dois meninos que prestaram ajuda à menina invisual.

    • A.silva on 4 de Maio de 2026 at 16:50
    • Responder

    Curioso que neste texto nunca seja referido que se tratavam de crianças do pré-escolar, que, aparentemente, estariam sem vigilância.

    Só assim se justifica que 7 crianças do pré-escolar agridam outra e que nenhum adulto tenha impedido as agressões, só intervindo numa fase muito posterior.

    De acordo com o que aparece relatado na comunicação social, a ser verdade, também a atitude tomada pela direção do agrupamento (ou por quem a representava) deixa muito a desejar.

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