A desordem natural das coisas

 

Ainda está o Luís a escovar os dentes antes de sair de casa e a notificação no grupo do WhatsApp da escola bem visível para o Luís ver: faltaram quatro professores e à falta de voluntários vai o Luís fazer as vezes de todos mais as suas aulas e graças a Deus existe o refeitório para colocar duas ou mais turmas lá dentro caso os períodos lectivos sejam ao mesmo tempo.
E como o Luís dá aulas numa escola internacional não dá nem para faltar nem para dizer não quando a alternativa é o desemprego imediato ou, na melhor das hipóteses, o salário base numa escola pública a trezentos quilómetros de casa ou, pior, nos subúrbios.
Quanto aos professores ausentes, os mesmos são nativos da língua e, por conseguinte, ouro aos olhos da Direcção, e o ouro é para tratar nas palminhas.
O Luís vai a sair de casa e outro alerta, desta vez no e-mail, de um pai cujos filhos desentenderam-se no dia anterior enquanto jogavam on-line e como o Luís é o Director de turma faça o favor de ligar ao respectivo progenitor em plena crise de ansiedade.
Enquanto o Luís dá os bons-dias ao porteiro, mais uma solicitação no telemóvel: um dos miúdos do sexto ano ameaçou um colega no Snap e aqui está a captura de ecrã com um par de tesouras na mão e cabe ao Luís revistar o petiz uma vez na escola.
E como o Luís tem vinte minutos para se preparar para dar aulas de ciências a sessenta alunos no refeitório e tudo por preparar, é naturalíssimo estar a cabeça do Luís a dois mil à hora, desde logo por saber estarem os professores ausentes no Estoril Open e não a tratar da falta de água em casa ou do problema nas costas, e ai do Luís se disser alguma coisa.
Uma das Auxiliares de Sala vem ter com o Luís enquanto lhe grita pelo nome em vez do título e a culpa é da tenra idade do Luís e não da falta de educação de quem se lhe dirige, não obstante o alarme pois um dos alunos fugiu de casa da mãe e acabou de chegar à escola e cabe ao Luís averiguar e assegurar a devolução do cachopo à procedência.
Juntemos a isto o facto de um dos alunos do décimo ano denotar um odor óbvio a estupefacientes e lá vai o Luís apagar mais um fogo ao mesmo tempo do sinal para o primeiro tempo e sessenta alunos à solta no campo de futebol.
Ao menos o Luís sabe onde os encontrar.
Até porque entre tesouras, substâncias ilícitas e miúdos foragidos é preciso escrever os devidos relatórios e notificar as respectivas autoridades mais os excelsos elementos directivos enquanto se referencia cada aluno para os mais diversos apoios e portanto mais papelada.
E vá lá saber-se como, ou não estivesse a direção numa das suas mil ações de formação, não tarda a chamada de um dos vices para o WhatsApp do Luís a admoestá-lo ou não estivessem os miúdos todos a jogar à bola.
E de pouco vale ao Luís sublinhar a importância da brincadeira quando ainda se pode brincar e quem não teve um furo na sua juventude pois isto são contas de outro rosário, é segunda-feira de manhã e a semana ainda agora a começar.

 

João André Costa

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2 comentários

    • Mainada on 12 de Julho de 2025 at 15:02
    • Responder

    Aconselho vivamente o Luís a fazer outra coisa enquanto pode, já que está a ser explorado à cara podre.

  1. O Luís não devia ter smartphone, devia arranjar um telefone dos antigos com teclas, como aqules dos velhotes.
    Desligava o telefone no seu tempo privado.
    Não tinha metade das chatices.

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