Começou com a leitura de um artigo do Diário de Notícias, daqueles que se lê com café na mão e um suspiro de incredulidade. No último concurso extraordinário de professores, a idade média dos colocados no pré-escolar foi de 53,4 anos. Li outra vez, cinquenta e três vírgula quatro! No pré-escolar, ou seja, estamos a renovar o sistema com pessoas que já sabem quantos anos faltam para a reforma, como se trocássemos uma lâmpada fundida por outra que já pisca, tecnicamente nova, mas com sinais de fadiga.
Depois fui ver o resto, a idade média dos professores em Portugal ronda os 51 anos e, mais de metade tem 50 ou mais. Até ao final da década, uma fatia enorme poderá reformar-se. Não é dramatização, é matemática cruel, aquela que não deixa espaço para optimismo desmedido.
O curioso é que isto não acontece de um dia para o outro. Primeiro, deixa-se a profissão envelhecer devagar, depois torna-se pouco apelativa para quem está a começar, e por fim olha-se para os números com surpresa genuína, como se eles tivessem caído do céu enquanto todos dormiam.
Nas escolas, a modernização tem o seu próprio sentido de humor, a internet faz pausas dramáticas, cai em aulas importantes, desaparece em reuniões, suspende plataformas a meio das tarefas, como se estivesse a ensaiar para um retiro espiritual. Os computadores, alguns com idade suficiente para votar, continuam a resistir.
Mas não é só digital, faltam professores. Horários inteiros ficam por preencher, turmas esperam semanas por alguém que chegue, e, quando chega, muitas vezes já vem sobrecarregado, porque os que cá estão acumulam o que podem… e o que não podem. Depois há a disciplina nacional, a burocracia. Ensinar é uma parte da profissão, a outra é provar que se ensinou, justificar que se planeou, evidenciar que se avaliou, documentar que se reuniu e, se possível, anexar em triplicado. Se cada relatório desse um ano de vida, estávamos todos muito rejuvenescidos.
Dentro da sala, a realidade é ainda mais absurda. Há alunos brilhantes, há alunos perdidos, há turmas onde manter a concentração exige mais energia do que correr uma maratona, há carências constantes que baralham qualquer planeamento, contextos sociais difíceis que entram pela porta antes mesmo do professor, e no meio disto tudo ainda se fala em inovação: inovação com horários incompletos, equipas reduzidas e professores que fazem de psicólogos, mediadores, técnicos administrativos e, nos intervalos, docentes
Depois perguntam porque é que os jovens não entram na profissão. Talvez porque olham para professores experientes, competentes, dedicados, apaixonados, e os ouvem dizer, com um sorriso já não totalmente leve: “Se pudesse, reformava-me já.” Não é falta de vocação, é desgaste acumulado de anos a segurar um sistema que se mantém de pé muito mais por teimosia profissional do que por estratégia, um sistema que sobrevive de improvisos como quem constrói um avião em voo com fita-cola e esperança
O paradoxo é este: apesar de tudo, as aulas continuam a acontecer, os alunos aprendem, os projetos nascem, as escolas funcionam. Funcionam porque há uma geração inteira a segurá-las com heroísmo discreto, professores que fazem muito com pouco, às vezes com quase nada, transformam limitações em soluções e ainda encontram energia para perguntar no final do dia: “Correu bem?”
Mas heróis também envelhecem, e quando essa geração sair quase em bloco, não vai faltar apenas um docente aqui ou ali, vai faltar gente. Talvez nesse dia descubramos que modernizar não era anunciar plataformas nem multiplicar relatórios. Era investir seriamente nas condições, ouvir quem está no terreno, tornar a profissão desejável antes de a tornar desesperadamente necessária
Ou talvez façamos o que sabemos fazer melhor: abrir mais um concurso extraordinário, com média de idades de 60,1 e um cartaz optimista à porta das escolas: “Procura-se professor. Experiência valorizada. Juventude opcional”.
Entretanto amanhã de manhã a campainha vai tocar, nós estaremos lá, não porque o sistema seja exemplar, mas porque os alunos ainda merecem. Só que convinha alguém perceber uma coisa simples: a escola pública não é eterna, os professores também não, e quando todos desaparecerem, talvez a próxima geração descubra que o plano de modernização consistia essencialmente em computadores que respiram poeira, redes que entram em greve por capricho próprio, relatórios que se multiplicam sozinhos, e que os milagres eram sempre improvisados com paciência, coragem e uma capacidade de fazer parecer normal o que claramente não é! “
(Por Pedro Alexandre Franco, docente de Educação Musical no 2.º ciclo do Ensino Básico)



