Como sempre se disse, a solução é um concurso centralizado de professores
Não me lembro de ter começado o título de um artigo com o clichê “como sempre se disse”. Não aprecio o registo, nem o semelhante “avisei que ia acontecer”. Mas como os concursos de professores fazem a síntese da queda da escola pública, não resisti. Portanto, a espécie de “como há muito venho dizendo” foi escolhida com mágoa e a pensar nos excessos partidários, ou ideológicos, que na bolha político-mediática se associavam à impreparação dos governantes.
E recorde-se, antes do mais, mirabolantes opiniões sobre os concursos centralizados de professores por lista graduada: interesses corporativos; controlo das escolas pelos sindicatos mais à esquerda; os mais retrógrados do mundo civilizado; devem ser entregues às escolas e aos municípios para que escolham os melhores e acabem com o flagelo da “casa às costas”.
Pois bem: os actuais governantes, que subscreveram a generalidade do coro político-mediático e têm dois anos de exercício, propõem agora a consolidação dos concursos centralizados de professores sempre por lista graduada. Prometem um concurso anual para os quadros das escolas, colocações diárias para as restantes necessidades e eliminação de contratações pelos directores escolares.
Perante tão surpreendente exercício de lucidez, esta viragem de 180 graus exige, para que se clarifiquem os detalhes do que está em causa – e já se sabe a importância dos detalhes -, um resumo do argumentário no registo de “como sempre se disse” e que se termine com um curto elenco de mais soluções inadiáveis.
Como sempre se disse, há muito que existem meios técnicos e humanos para que os concursos centralizados por lista graduada sejam um não-assunto de exemplares eficácia e transparência.
Como sempre se disse, os concursos centralizados eliminam de vez a peregrinação dos professores em busca de vagas em centenas de portais escolares, com a entrega de currículos em cada um como em 2013 ou nas décadas de 1970 e 1980.
Como sempre se disse, conceber os concursos exige conhecimentos sólidos que cruzem os sistemas de informação com a organização escolar e que assumam as palavras-chave da sociedade da informação e do conhecimento: confiança, transparência e simplificação.
Como sempre se disse, os concursos de professores devem seguir as notáveis automatizações do Multibanco e do “Banco Online” e também requerem que a inteligência natural analise e programe o essencial das bases de dados.
Como sempre se disse, foi trágica a alteração para quadrienal da periodicidade dos concursos internos (quadros das escolas). Muitos governantes desconheciam que todos os anos abrem vagas nesses quadros e que estes concursos são cruciais para as aproximações à residência. Têm que ser anuais e por lista graduada, como se efectivou em 2023, e os restantes concursos têm todas as condições para se resumirem apenas num e diário.
Como sempre se disse, a lista graduada (que combina as classificações académica e profissional com o tempo de serviço) é como a democracia: o pior dos modelos, à excepção de todos os outros.
Como sempre se disse, mudar os concursos para os municípios agravaria o clientelismo vigente no caudilhismo escolar e proletarizaria ainda mais os professores.
Como sempre se disse, seria despesista ter 308 centros de concursos. O argumento da escolha do perfil dos professores por proximidade é exclusivo. A natureza inclusiva do ensino público requer a elevação das organizações com profissionais contratados em concursos públicos e confiáveis e com ajudas financeiras às deslocações.
Como sempre se disse, a teimosia em acabar com a ideia moderna de concurso centralizado accionou sucessivas explosões dos professores por desconfiança nos concursos realizados pelas escolas.
Como sempre se disse, foram as duas décadas de precarização, e apesar das ameaças da Comissão Europeia, que infernizaram os concursos.
Como sempre se disse e em suma, a origem da falta estrutural de professores resume-se em quatro eixos responsáveis pelo clima de injustiças e de parcialidades que levaram à queda da escola pública: proletarização da carreira, onde se incluíram os concursos; modelo autocrático de gestão das escolas; inferno da burocracia, agravado com a ilusão do controlo nos mega-agrupamentos; quotas e vagas na farsa avaliativa do desempenho. Ou seja, se a escola é decisiva na educação para a democracia, a reforma dos referidos eixos é crucial para transportar mobilização, inovação, previsão, aspiração e governo.




10 comentários
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Como nunca se disse:
A lista graduada faz sentido se as condições de concurso forem iguais para todos os concorrentes.
Os QZP são obrigados a concorrer para todo o QZP e ainda há bem pouco tempo tanto podiam ficar perto de casa como a mais de 100 KM, Neste caso fazia sentido concorrerem em 1ª prioridade, pois os QA só concorrem se quiserem e nunca correm o risco de ficar a mais de 100 KM. Aqui faz sentido os QA concorrerem em 2ª prioridade.
Acabando a MI essa discussão deixar de existir
Os QZP são obrigados a concorrer para todos o QZP porque, e aqui é a parte curiosa, são QZP e estão vinculados ao QZP. Estranho seria se pudessem concorrer somente às escolas que quisessem.
Acabando a MI, todos os professores do quadro concorrem em igualdade de circunstâncias: o mais graduado (como sempre defenderam os sindicatos) tem prioridade.
Obviamente que a aproximação a casa será feita pelo concurso interno.
Deve ser piada!
Eu não devo andar neste mundo… no CI a prioridade sempre foi a mesma entre QA e QZP, ou estou enganado. As vagas que aparecem depois e que serviam para a colocação dos QZPs em que concurso aparecem?! Vão aparecer diariamente?! Quando, em Setembro? Sem MI penso que vão aumentar ainda mais as injustiças de alguns colegas com graduação maior serem colocados no início longe de casa e outros com graduação menor serem colocados perto ocupando vagas que surgem depois sabe Deus como e porquê.
Isso foi exatamente o que eu pensei!
Sem MI não existem colocações. Fica tudo na escola onde é QA.
Não. Há uns anos atrás, no CI, quem era QZP concorria na 2ª prioridade. Conheço muito bem essa realidade porque tive de lidar com ela durante vários concursos internos. Só terminou no concurso de 2024/2025 onde os QA e QZP concorreram todos na 1ª prioridade do CI.
Na MI ficavam à frente dos QPZ todos os QA que não tivessem horário no seu Agrupamento. Penso que ainda se mantém assim atualmente.
Mas, há uns bons anos, também era assim: QZP e QA na 1ª Prioridade. Se não estiver enganado, foi com a Lurdinhas que isso mudou.
Exatamente! Essa, como a tentativa de posicionar os professores de acordo com a TRU, são demonstrações cabais do desrespeito profundo que não esperava deste ministro. Afinal, é tudo a mesma corja.
Não concordo com os 4 eixos apresentados para explicar a origem da falta estrutural de professores. Há dois acima desses: a desvalorização social do papel dos professores e da escola e a indisciplina (maior ou menor) que mina o trabalho em sala de aula.
Estes sim afastam todos os jovens da carreira docente.